Ann Grosmaire foi assassinada a tiros pelo namorado pouco depois de completar 19 anos.
Quase 16 anos depois, a mãe de Ann, Kate, diz ter perdoado o homem que tirou a vida da filha.
"O perdão nos permitiu seguir em frente e curar nossas feridas", afirma.
"Ainda sentimos dor? Claro que sim. Mas não deixamos que ela nos controle."
Kate escreveu uma carta para Ann para o podcast Dear Daughter ("Querida filha", em tradução livre), do Serviço Mundial da BBC.
No texto, ela reflete sobre como encontrou o perdão e por que incentiva a comunicação aberta entre famílias de vítimas e autores de crimes.
A caçula de três irmãs, Ann era "muito inteligente" quando criança, relata Kate, mas nunca gostou da escola. Sua verdadeira paixão era o teatro, e ela participava de todas as produções escolares.
Também sonhava em um dia abrir um refúgio de vida selvagem, e seus amigos a descreviam como sábia, gentil, carinhosa e compassiva.
Ann conheceu seu namorado, Conor McBride, na escola em Tallahassee, no Estado americano da Flórida, quando tinha 16 anos. Tanto Kate quanto Andy, seu marido e pai de Ann, achavam o rapaz "muito simpático" e educado.
"Gostamos muito dele", explica Kate. Conor chegou a morar com os Grosmaires por três meses depois de ser expulso de casa pelo pai.
O relacionamento de Ann e Conor era às vezes instável: podiam discutir e até terminavam, mas, no geral, pareciam felizes, diz Kate.
Segundo ela, os dois pretendiam se casar um dia.
O crime
Na primavera de 2010, Ann foi reconhecida por suas conquistas acadêmicas na universidade. Ela ficou radiante e planejou um piquenique com o namorado para comemorar.
"Conor não estava tão animado quanto Ann esperava", conta Kate. "Então eles começaram a discutir."
Ambos tinham 19 anos. Foi uma daquelas discussões intermináveis, e eles literalmente discutiram a noite toda até adormecerem.
A discussão continuou no dia seguinte.
Em certo momento, Conor pegou a espingarda do pai e disse que ia se matar. Ann disse a ele que, se Conor não queria viver, ela também não.
"E ele apontou a espingarda para ela e disse: 'É isso que você quer?'", explica Kate.
"E ela respondeu: 'Não, não quero.'"
Mas Conor estava exausto de discutir e queria que tudo acabasse, "então ele puxou o gatilho", diz Kate.
Conor se entregou imediatamente. Quando a polícia chegou ao local, encontrou Ann viva, mas gravemente ferida.
Quando a filha respirava por aparelhos no hospital, Kate decidiu visitar Conor na prisão.
Disse a ele que tanto ela quanto Andy o amavam e o perdoavam. "E ao dizer essas palavras, senti uma paz imensa."
Dias depois, Kate e Andy tomaram a difícil decisão de desligar os aparelhos que mantinham Ann viva.
"Eu sabia que a paz só poderia vir através do perdão", escreveu Kate mais tarde em sua carta para Ann. "Sim, perdoar Conor, que apontou uma espingarda para você."
Kate não queria se lembrar da filha como vítima de assassinato, escreveu ela em sua carta.
"Você era muito mais do que isso. Mas se eu pudesse ver Conor apenas como um assassino, esse seria o rótulo que você carregaria."
A justiça restaurativa é um processo que permite às vítimas conversar com os agressores sobre o impacto de um crime, ao mesmo tempo que dá aos agressores a oportunidade de assumir a responsabilidade, oferecer uma explicação e reparar o dano causado.
Quando Andy soube desse conceito, ele e Kate perceberam imediatamente que era a opção certa para eles.
Em seu primeiro encontro de justiça restaurativa com Conor, no verão de 2011, "conseguimos nos abrir completamente e explicar a Conor o que aquilo significava, o quão difícil era perdê-la", diz Kate.
Conor compartilhou detalhes da discussão que culminou na morte de Ann.
Kate e Andy foram convidados a sugerir uma sentença para Conor, que foi considerada pelo promotor.
O promotor deu a Conor duas opções: uma sentença de 25 anos ou 20 anos com 10 anos de liberdade condicional, desde que ele frequentasse aulas de controle da raiva, falasse publicamente sobre violência no namoro entre adolescentes e realizasse trabalho voluntário em áreas relacionadas aos interesses de Ann.
Conor escolheu a segunda opção.
"Nada poderia ter restaurado sua vida ou trazido você de volta para nós", escreve Kate. "Mas pudemos dizer a Conor como suas ações nos afetaram e participar da elaboração de uma sentença que fosse significativa para ele. Passar o resto da vida atrás das grades não compensaria sua perda."
'Fazer o bem por duas pessoas'
Kate está convencida de que o perdão foi a melhor maneira de encontrar a paz.
Isso permitiu que ela estivesse mais presente para suas outras filhas, que tinham 21 e 25 anos quando Ann morreu, sem sentir amargura por sua perda.
"Imagine se tudo em que eu pudesse pensar todos os dias fosse Ann e como ela foi tirada de mim — isso afetaria meu relacionamento com elas", diz Kate.
Kate e Andy mantiveram contato com Conor, que agora tem 35 anos. No início, eles conversavam com ele semanalmente por telefone e e-mail, além de visitá-lo na prisão.
"Acho que ele realmente precisava, especialmente naqueles primeiros anos, saber que nosso perdão era permanente, que nossa disposição para conversar com ele ainda existia", diz Kate. Já se passaram "alguns meses" desde a última vez que ela falou com ele.
Enquanto Conor esteve na prisão, ele trabalhou como assistente jurídico voluntário, ministrou aulas sobre responsabilidade e justiça restaurativa e participou de um vídeo sobre violência no namoro entre adolescentes.
"Eu disse ao Conor que agora ele tinha que fazer o bem por duas pessoas", escreve Kate na carta para sua filha.
Todos os anos, Kate e Andy ainda comemoram o aniversário de Ann com um bolo e cantam parabéns. Eles também penduram uma meia de Natal para ela na decoração temática da casa todo mês de dezembro.
"Não consigo evitar pendurá-la, mas é uma triste lembrança de sua ausência", diz Kate. Defender o perdão e a justiça restaurativa tornou-se o legado de sua filha, afirma ela.
"Perdão não é absolvição", diz Kate. "Não significa que o que eles fizeram foi certo.
Significa simplesmente que você não vai esperar que eles consertem a situação. Com o perdão, você deixa para lá e segue em frente, e sente a paz que vem com isso."