Guerra no Irã expõe fragilidades do Golfo Pérsico

7 jun 2026 - 05h41

Conflito com EUA e Israel afeta turismo, energia e crescimento nos países da região, ampliando divergências; enquanto isso, governos tentam evitar escalada e reforçar segurança regional.Para os países da região do Golfo Pérsico, as consequências do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã vão muito além de uma ameaça militar imediata.

A guerra entre Israel, EUA e o Irã alterou a sensação de segurança dos países do Golfo, dizem analistas
A guerra entre Israel, EUA e o Irã alterou a sensação de segurança dos países do Golfo, dizem analistas
Foto: DW / Deutsche Welle

A guerra acirrou os embates entre os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), um arranjo diplomático, econômico e de segurança entre Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Publicidade

Apesar de um cessar-fogo formal, mas que tem sido continuamente descumprido por ambos os lados, infraestruturas-chave na região têm sido alvo de milhares de mísseis balísticos e drones.

O cenário se agrava com o bloqueio do Estreito de Ormuz — imposto tanto pelo Irã quanto pelos EUA — e seu impacto no comércio e na estabilidade econômica da região. Ao mesmo tempo, governos do Golfo tentam evitar um envolvimento mais profundo no conflito.

Imagem de porto seguro abalada

Nos últimos anos, os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, fizeram massivas reformas econômicas para diversificar suas economias e reduzir a dependência do petróleo. Cada vez mais, essas transformações também passaram a orientar a política externa, e setores como turismo, aviação, logística e inteligência artificial se tornaram pilares centrais das estratégias nacionais de desenvolvimento.

Publicidade

Mas os tempos são outros, segundo Cinzia Bianco, analista sobre o Golfo no Conselho Europeu de Relações Exteriores. "A guerra com o Irã provocou uma mudança profunda na percepção de segurança e política", disse à DW.

E um dos setores mais afetados por essa incerteza foi o do turismo.

Em março, o aeroporto internacional de Dubai foi atingido por drones lançados pelo Irã, e mais de 30 mil voos pelo Oriente Médio foram cancelados. Companhias aéreas operam com cronogramas reduzidos desde o início da guerra. Além disso, o bloqueio de Ormuz fez o preço do combustível de aviação quase dobrar em relação ao ano anterior.

"A imagem do Golfo como um porto seguro foi claramente abalada no curto e médio prazo", afirmou Pauline Raabe, analista sobre a região do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim.

"Os potenciais turistas foram lembrados de onde o país está localizado, ou seja, no meio de uma região geopoliticamente tensa", disse. "Eles agora vão pensar duas ou até três vezes antes de decidir viajar para os Emirados."

Publicidade

A ocupação hoteleira em Dubai, por exemplo, deve cair de 80% para 10% no segundo trimestre de 2026, segundo a agência de análise financeira Moody's.

Em abril, o Banco Mundial reduziu sua a previsão de crescimento econômico para o CCG de 4,4% para 1,3%.

Impacto na infraestrutura energética

O Irã também atacou hotéis e bases militares dos EUA em países do Golfo e infraestruturas energéticas locais. A QatarEnergy, estatal de energia do Catar, afirmou que serão necessários até cinco anos para reparar o polo industrial de Ras Laffan, atingido por um míssil balístico iraniano em março.

O diretor-executivo da empresa, Saad Al Kaabi, disse à BBC que a magnitude dos danos "fez a região recuar de 10 a 20 anos".

Enquanto isso, Irã e Estados Unidos continuam usando as proibições ao tráfego em Ormuz como uma ferramenta de pressão nas negociações de paz. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa pelo gargalo marítimo.

Devido ao bloqueio, as exportações de petróleo e gás de Bahrein, Kuwait e Catar seguem prejudicadas. A Moody's rebaixou recentemente a perspectiva de crédito do Bahrein de "estável" para "negativa".

Publicidade

O caso de Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos é o inverso - conseguiram aumentar seus lucros com petróleo, por contarem com infraestruturas alternativas. A Arábia Saudita desviou parte de sua produção para um oleoduto que liga o leste ao Mar Vermelho, e os Emirados usam um oleoduto terrestre entre Habshan e Fujairah para exportações.

Segundo a estatal da Arábia Saudita Saudi Aramco, o primeiro trimestre de 2026 registrou um salto de 26% nos lucros.

Os Emirados passaram a decidir de forma independente sobre seus níveis de produção, ao deixarem a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a aliança Opep+ em 1º de maio de 2026, após seis décadas no grupo.

Como deve se dar a recuperação

Analistas preveem que, mesmo após o fim da guerra e a reabertura do estreito de Ormuz, prêmios de risco elevados continuarão pressionando os preços na região.

Raabe acredita que o setor financeiro estará entre os primeiros a se recuperar. "Suponho que, assim que a guerra terminar, ou ao menos quando os combates cessarem de forma duradoura, essa infraestrutura consolidada terá uma recuperação mais rápida", disse à DW.

Publicidade

Ela acrescenta, no entanto, que os países do Golfo perceberam que precisarão assumir maior responsabilidade por sua própria segurança e pela estabilidade regional.

"Vários pressupostos foram questionados, como a ideia de que se pode oferecer incentivos econômicos ao regime iraniano para garantir segurança", afirmou Bianco. Na sua avaliação, essa visão perdeu força, assim como a crença de que os países do Golfo podem depender exclusivamente dos EUA para sua proteção.

Como resultado, novos acordos de defesa estão sendo firmados. O Catar, por exemplo, firmou um memorando de entendimento com o Canadá.

Os Emirados, por sua vez, assinaram um acordo com a França. Israel também teria enviado, pela primeira vez, seu sistema de defesa aérea Domo de Ferro ao país, juntamente com uma equipe técnica. A informação veio do embaixador americano em Israel, mas não foi confirmada oficialmente pelos governos. Os dois países normalizaram relações em 2020, o que é visto como um dos motivos para os Emirados se tornarem alvo prioritário do Irã.

Até o momento, os Emirados evitaram romper relações diplomáticas com o Irã. "Em vez disso, têm adotado publicamente uma retórica de desescalada e coexistência regional", observou Raabe.

Publicidade

Para Mona Yacoubian e Will Todman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), esses desdobramentos fazem parte de um "novo normal" em que o Golfo terá de administrar sua relação com o Irã. "O Irã veio para ficar", escreveram recentemente.

Cinzia Bianco concorda. "Os países do Golfo estão seriamente considerando que o risco de instabilidade será uma constante em sua vida política e de segurança", disse, prevendo uma abordagem mais autoritária.

Repressão à liberdade de expressão

A Anistia Internacional alertou para uma escalada de repressão na região, com mais de mil pessoas presas, algumas por compartilhar mensagens e conteúdos sobre o conflito na internet.

Heba Morayef, diretora regional da organização para Oriente Médio e Norte da África, alertou que "embora países do Golfo possam adotar medidas para conter a desinformação e proteger a segurança nacional — inclusive restringindo certos direitos em situações de conflito armado —, qualquer limitação à liberdade de expressão precisa seguir rigorosos padrões internacionais de direitos humanos".

Publicidade

Na sua avaliação, a atual repressão "vai muito além do permitido pelo direito internacional".

Para os especialistas Frederic Wehrey e Charles H. Johnson, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, o cenário não é animador. "Pretextos à parte, essas medidas devem ser vistas mais como um sinal de fraqueza do que como demonstração de força", escreveram, alertando que "o risco é que essa repressão persista mesmo após o fim do conflito, agravando um histórico já negativo em relação à liberdade de expressão."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se