Quando afirma que não pretende usar a força militar para obter a Groenlândia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, procura transmitir uma imagem de contenção e racionalidade estratégica. Essa declaração, contudo, não indica o abandono do objetivo político nem descarta o uso da força em um momento posterior. Ao contrário, reafirma um padrão de comportamento que marcou todo o ano de 2025 e se intensifica neste início de 2026: a disposição permanente de recorrer à coerção militar, econômica ou à combinação deliberada de ambas.
O discurso sobre a Groenlândia confirma análises anteriores, segundo as quais os Estados Unidos, sob Trump, deixaram de atuar como estabilizadores da ordem internacional e passaram a desempenhar o papel de agentes ativos de sua ruptura.
Trump não anuncia uma invasão imediata, mas reafirma uma lógica de pressão contínua sobre aliados, tratados não como parceiros estratégicos, e sim como subordinados.
Em política internacional, a recusa do emprego imediato da força não equivale à renúncia definitiva ao seu uso. Trata-se de uma escolha circunstancial de instrumentos. Ao longo de 2025, Trump deixou claro que a força militar permanece disponível como opção legítima, a ser acionada caso outros mecanismos não produzam os resultados desejados.
Paralelamente, ele ampliou o uso sistemático de instrumentos econômicos — tarifas, acesso a mercados, sanções seletivas e pressões comerciais — como formas de constrangimento político. Não há substituição entre meios, mas sobreposição. Os objetivos estratégicos permanecem constantes, enquanto os instrumentos são combinados conforme a conveniência política.
A leitura de três escolas de Relações Internacionais
Sob a perspectiva da escola Realista, esse comportamento é coerente com a lógica clássica da competição entre Estados em um sistema internacional anárquico. Na ausência de uma autoridade central, grandes potências buscam maximizar segurança e posição relativa.
Ao afirmar que os Estados Unidos "querem um pedaço de gelo para a proteção do mundo" e que a Dinamarca se recusa a concedê-lo — acrescentando que Washington "poderia ter ficado com aquele território" e que "não o vendeu" — Trump constrói uma narrativa de direito histórico e moral sobre a Groenlândia, instrumentalizando o passado como base para reivindicações presentes.
Quando declara que os dinamarqueses "têm uma escolha" — cooperar e receber apreciação ou recusar e ver os Estados Unidos "se lembrarem" — Trump sinaliza que decisões soberanas terão consequências futuras. Trata-se de coerção indireta, destinada a alterar cálculos de custo-benefício e a reforçar assimetrias de poder no interior da aliança. Não há apelo a normas compartilhadas ou ao direito internacional, mas a afirmação explícita de quem define os termos da relação, convertendo cooperação em condicionalidade.
Essa dinâmica adquire nova camada analítica quando observada pela lente Construtivista. Ao classificar a Dinamarca como "mal-agradecida"e invocar uma suposta dívida histórica pela proteção na Segunda Guerra Mundial, Trump não apenas exerce poder material, mas busca redefinir identidades, hierarquias e papéis na aliança transatlântica. A parceria entre iguais é substituída por uma relação assimétrica baseada em dívida, lealdade e subordinação.
Nesse enquadramento discursivo, Europa e Dinamarca deixam de ser tratadas como parceiras estratégicas e passam a ser apresentadas como atores em permanente débito político com Washington. O discurso não apenas descreve a realidade internacional; ele a reconfigura, normalizando uma hierarquia na qual proteção implica obediência, e não cooperação entre iguais.
Esse padrão contrasta diretamente com os pressupostos da escola Liberal, segundo os quais alianças duradouras dependem de previsibilidade, confiança mútua, instituições e regras compartilhadas. A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial foi sustentada não apenas pelo poder americano, mas pela disposição dos Estados Unidos em se autolimitar, cumprir compromissos e oferecer garantias críveis a seus aliados. Quando ameaças implícitas substituem compromissos claros, a base institucional dessa ordem se enfraquece, mesmo que o poder material americano permaneça elevado.
Disputa política por autoridade
Essa fragilização torna-se ainda mais evidente quando se considera o contexto jurídico e estratégico já existente. Desde o Acordo de Defesa de 1951 entre Estados Unidos e Dinamarca, Washington dispõe de amplo acesso militar à Groenlândia. Bases, operações e liberdade de manobra no Ártico estão asseguradas há décadas. Do ponto de vista funcional, os Estados Unidos não precisam invadir a Groenlândia para proteger seus interesses centrais. O controle estratégico já existe. Isso revela que o conflito não decorre de uma lacuna objetiva de segurança, mas de uma disputa política sobre autoridade, hierarquia e capacidade de impor vontades dentro da própria aliança.
A questão central, portanto, não é a Groenlândia em si, mas o tipo de ordem internacional que está sendo afirmada. O episódio funciona como um teste político: até que ponto a Europa aceita a lógica das esferas de influência explícitas, nas quais grandes potências reivindicam direitos preferenciais sobre ativos estratégicos localizados em regiões sob sua proteção militar? Não se trata de anexação territorial clássica, mas de soberania condicionada, compatível com uma ordem pós-liberal, transacional e baseada na coerção.
O paradoxo dessa estratégia é evidente. Ao tentar reafirmar poder sobre aliados, os Estados Unidos enfraquecem o principal multiplicador de sua influência global: a aliança. A crise no Atlântico Norte não reduz riscos sistêmicos; ela os redistribui. China e Rússia emergem como beneficiárias diretas desse processo. Moscou observa uma OTAN politicamente tensionada e menos coesa, enquanto Pequim percebe uma Europa mais desconfiada de Washington, mais inclinada a diversificar parcerias e receptiva à narrativa de que os Estados Unidos abandonaram a lógica das regras em favor da pressão.
A desconstrução da ordem pós-guerra
Em síntese, ao declarar que não recorrerá ao uso da força, Trump não contribui para a redução da instabilidade internacional. Não nos enganemos, porém: ele não é a origem do desmantelamento da ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um processo cumulativo, em curso há décadas, impulsionado por choques sucessivos como a crise financeira de 2008, os atentados de 11 de setembro, a pandemia da COVID-19 e a invasão da Ucrânia, entre outros eventos geopolíticos que corroeram normas, expectativas e mecanismos de cooperação internacional.
Soma-se a isso a crescente instrumentalização da economia, o avanço do nacionalismo e o aumento do descontentamento social com o custo de vida em diversas democracias ocidentais. Trump, contudo, atua como um acelerador consciente dessa dinâmica, intensificando tendências preexistentes e tornando mais explícita a erosão das bases normativas da ordem internacional.
Ao longo de 2025 — e agora com ainda mais intensidade em 2026 — ele reafirma uma estratégia que combina coerção econômica permanente com manifestações explícitas de uso direto da força, como as ameaças e operações envolvendo a Venezuela e os bombardeios contra o Irã. Não se trata de uma substituição entre instrumentos, mas de sua sobreposição deliberada.
O conflito passa a operar simultaneamente em múltiplos níveis: pressão econômica, intimidação política e emprego seletivo da força militar. O custo dessa estratégia não recai apenas sobre a Europa ou sobre adversários específicos, mas sobre a própria capacidade dos Estados Unidos de liderar um sistema internacional cada vez mais competitivo, no qual rivais prosperam justamente quando alianças se desgastam por dentro.
Além de professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESP-SP, Alexandre Ramos Coelho é Coordenador do Núcleo de Geopolítica da think tank brasileira Observa China, que não possui fins lucrativos e também não é patrocinada por qualquer órgão político ou representativo da China.