Em um primeiro debate repleto de embates sobre quais números estavam corretos e quais dados eram os mais representativos da realidade, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), candidatos ao governo de São Paulo, se enfrentaram no domingo, 9, em evento realizado pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação. Ao longo das duas horas de transmissão, as pautas foram nacionalizadas, ‘feridas’ foram cutucadas e os padrinhos políticos de ambos foram entoados. Relembre o que aconteceu em cinco pontos.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
‘Problema com a matemática’
Dados sobre investimentos, repasses de recursos e gastos públicos foram citados e confrontados por ambos os candidatos ao longo de todo o debate. Os rivais mantiveram o tom durante quase todo o encontro, mas a discordância em relação aos números gerou momentos de atrito.
Em um deles, Haddad ironizou a forma como Tarcísio apresentou números e citou localidades do Estado enquanto falavam sobre privatizações e parcerias público-privadas. "Tarcísio, você é um cara meio de 'decoreba'. É engraçado ver você... Você parece 'concurseiro’. Você decora os nomes, joga números e nomes como se fosse me intimidar com isso", disse o petista.
Em outro momento, Tarcísio perguntou por que Haddad se incomodava tanto todas as vezes que ele citava números. “Deve ser dificuldade aí com a matemática, né? Eu compreendo”.
As principais trocas de acusações em torno de dados entre os dois foram com relação a ajudas do governo federal a projetos estaduais, gastos e investimentos. Quando estavam em pauta temas educação e segurança pública, os dois também apresentaram dados que se confrontavam.
Boné, tarifaço e economia de SP
No bloco de perguntas dos jornalistas da Band, o ex-ministro da Fazenda de Lula foi questionado sobre o tarifaço do governo Trump ao Brasil. Haddad defendeu a postura de alinhamento diplomático e busca pela soberania e criticou as razões ideológicas em torno das movimentações.
“O que se espera do povo brasileiro e dos políticos brasileiros? Uma união nacional em torno da tese de defender os interesses locais. O que nós fizemos no plano federal foi histórico, o plano Brasil soberano para dar sustentação às empresas e abrir mercados para além dos Estados Unidos. Foram 600 mercados abertos. O que um governador tem que fazer é colocar o boné certo na cabeça, o boné do Brasil, colocar o chapéu de brasileiro e fortalecer o poder central, a diplomacia brasileira para enfrentar uma agressão inédita e injustificável. O que um governador tem que fazer é colocar o boné certo na cabeça. O boné do Brasil”, afirmou.
Sua fala faz referência ao que virou uma ‘batalha de bonés’ nos últimos meses, em meio ao tarifaço de Trump. No caso, a campanha política do presidente norte-americano tem como marca registrada o boné vermelho com os dizeres “Make America Great Again", que significa em português "Torne a América Grande Novamente". Em resposta, o presidente Lula criou o boné azul “O Brasil é dos brasileiros”.
Na sequência, Tarcísio afirmou que as tarifas impostas pelos Estados Unidos prejudicam muito o Brasil, especialmente o Estado de São Paulo.
PCC e segurança pública
A segurança pública foi uma das principais pautas do encontro e acabou destrinchada em diversas frentes ao longo das discussões --com foco no combate ao crime organizado. Os dois candidatos reforçaram seus pensamentos com relação à forma como esse enfrentamento deve se dar.
Tarcísio, ao responder sobre a questão, reforçou ser um campo onde é preciso ter coragem, citando a importância de aumentar o efetivo policial, fortalecer as corporações e utilizar inteligência nas operações.
Já Haddad deu ênfase à operação Carbono Oculto, força-tarefa da Receita Federal do Brasil e do Ministério Público de São Paulo deflagrada no ano passado com o intuito de desarticular um esquema financeiro bilionário vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Para ele, é importante “combater de cima e asfixiar financeiramente o crime organizado”.
No geral, com relação à segurança, Tarcísio bateu na tecla da Cracolândia --que ele alega ter resolvido. Ele também falou sobre reduções em indicadores de latrocínio, homicídio, roubos e furtos no Estado.
Já Haddad criticou ações do governo do adversário no setor, como as movimentações para que as câmeras corporais de policiais não ficassem ligadas ininterruptamente. Ele também aproveitou o momento para criticar o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP-SP): "O Derrite bagunçou, você sabe disso", disse, cobrando posicionamento do governador e pedindo que ele assumisse ter errado na área.
Privatização e Parceria Público-Privada (PPP)
As privatizações que marcam o mandato de Tarcísio de Freitas também foram pauta, como a venda da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a concessão de trilhos e a instalação do sistema Free Flow.
Tarcísio defendeu as medidas que tomou: "A gente não faz privatização, Haddad, por fazer; a gente faz a privatização às vezes por necessidade”. Haddad, por sua vez, chamou a situação de uma ‘onda privatista’ com impactos negativos no Estado.
Lula e Bolsonaro
Lula e Bolsonaro foram citados diversas vezes ao longo do debate --direta e indiretamente. Nas eleições gerais deste ano, a disputa para a Presidência da República segue entre Lula, candidato à reeleição e aliado de Haddad, e Flávio Bolsonaro, que dá continuidade ao projeto político do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e tem Tarcísio como apoio em São Paulo --Estado com o maior colégio eleitoral do Brasil--, mesmo o Republicanos apoiar oficialmente o candidato do PL. A polarização em torno dos 'padrinhos políticos' deu o tom à noite.
Haddad buscou apontar que Tarcísio não fez nada sozinho --considerando parcerias com outras instâncias e instituições. Com relação ao apoio do Governo Federal para o desenvolvimento de São Paulo, Haddad e Tarcísio discutiram o que Bolsonaro fez, ou deixou de fazer, pelo Estado. Lula e o Partido dos Trabalhadores também foram citados, mas com ataques mais nas entrelinhas.
“Você tá muito focado em Bolsonaro. Falando de Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro. Esquece Bolsonaro, Haddad. Você não está concorrendo contra ele mais. Isso foi em 2018, já passou”, disse Tarcísio. “Você tem vergonha do Bolsonaro?”, alfinetou Haddad. “Não, na verdade foi a pessoa que mais me abriu as portas, e gratidão não prescreve”, retrucou o atual governador de São Paulo, que ainda mandou um abraço ao ex-presidente.
Tarcísio ainda questionou que conselho Haddad daria para Lula com relação a economia e alegou que o Brasil “caminha para uma recessão”. Já Haddad criticou o que chamou de indicações de membros da família Bolsonaro a cargos do governo de São Paulo e, principalmente, atacou dados da gestão de Jair à Presidência.