O primeiro debate entre os candidatos ao governo de São Paulo foi marcado por discussões acerca de dados, origens de recursos e segurança pública. No encontro entre Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição, e Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda do governo Lula, a nacionalização das pautas foi destaque ao longo das duas horas de confronto promovidas pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação na noite deste domingo, 9, com mediação do jornalista Rodolfo Schneider.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sua família, assim como o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foram citados ao longo da noite, direta e indiretamente. Haddad buscou colar Tarcísio a uma imagem de ingratidão a parceiros na busca pelo desenvolvimento do Estado, citando diversas vezes ajudas dadas pelo governo petista após cortes feitos na gestão Bolsonaro. Já Tarcísio foi por um caminho de indicar que Haddad irá tentar “implodir” projetos que já estão em andamento no governo estadual e buscou prestar contas do que tem feito ao longo dos últimos anos. Tudo pautado com dados e conflitos contidos.
Tarcísio e Haddad foram os únicos a participar do debate. No caso, pela lei eleitoral, as emissoras são obrigadas a convidar os candidatos de partidos ou coligações que tenham representação mínima de pelo menos cinco parlamentares no Congresso.
Além deles, que são os líderes nas pesquisas, Carlos Machado (PCB), Izadora Dias (PCO), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP) também oficializaram suas candidaturas na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes e devem participar do pleito, que acontece no dia 4 de outubro. Candidaturas podem ser registradas pelos partidos até sábado, dia 15. O período de campanha eleitoral começa no dia seguinte.
Bloco 1: busca por ‘franqueza’ e nacionalização
O debate começou em tom civilizado. Conforme Haddad disse à imprensa antes de entrar na transmissão ao vivo, a intenção era de não nacionalizar as pautas. O clima civilizado se manteve, mas a nacionalização não foi evitada desde o primeiro bloco pelos dois candidatos.
Nas eleições gerais deste ano, a disputa para a Presidência da República segue entre Lula, candidato à reeleição e aliado de Haddad, e Flávio Bolsonaro, que dá continuidade ao projeto politico do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e tem Tarcísio como apoio em São Paulo --Estado com o maior colégio eleitoral do Brasil--, mesmo o Republicanos apoiar oficialmente o candidato do PL. A polarização em torno dos 'padrinhos políticos' deu tom à noite.
Em meio a discussões sobre dados de educação, segurança pública e investimentos, Haddad buscou apontar que Tarcísio não fez nada sozinho --considerando parcerias com outras instâncias e instituições. Com relação ao apoio do Governo Federal para o desenvolvimento de São Paulo, Haddad e Tarcísio discutiram o que Bolsonaro fez, ou deixou de fazer, pelo Estado. Lula e o Partido dos Trabalhadores também foram citados, mas com ataques mais nas entrelinhas.
“Você tá muito focado em Bolsonaro. Falando de Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro. Esquece Bolsonaro, Haddad. Você não está concorrendo contra ele mais. Isso foi em 2018, já passou”, disse Tarcísio. “Você tem vergonha do Bolsonaro?”, alfinetou Haddad. “Não, na verdade foi a pessoa que mais me abriu as portas, e gratidão não prescreve”, retrucou o atual governador de São Paulo, que ainda mandou um abraço ao ex-presidente.
No primeiro bloco, a educação foi uma das pautas principais. Ao abrir o confronto, o mediador citou resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados neste início de mês. No caso, a rede estadual de São Paulo apresentou melhora em 2025 em seu desempenho no ensino médio, mas consta fora dos cinco primeiros colocados no ranking nacional. Como ocorreu ao longo de toda a noite, Tarcísio e Haddad trocaram dados conflitantes tentando 'restabelecer a verdade'. O republicano focou na melhora na participação dos estudantes na formação profissional. Haddad no fato de que, nos últimos anos, São Paulo caiu posições no ranking.
O enfrentamento à cracolândia e o combate ao crime organizado também surgiram no debate. Haddad aproveitou o momento para criticar o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP-SP): "O Derrite bagunçou, você sabe disso", disse, cobrando posicionamento do governador e pedindo que ele assumisse ter errado na área. "Você pegou uma corporação respeitada pela polícia e hoje é uma corporação que está envergonhada das decisões que o seu secretário de Segurança tomou", afirmou.
Em resposta, Tarcísio disse que São Paulo apresenta os menores índices históricos de homicídios, latrocínios, roubos e furtos. "É uma das satisfações que eu vou dar. Nós temos o menor indicador de homicídio de toda a história, nós temos o menor indicador de latrocínios de toda a história, nós temos o menor indicador de roubos e furtos de toda a história", declarou.
Bloco 2 e 3: taxação, privatização e mais
O segundo bloco se manteve em um clima mais morno, onde jornalistas fizeram perguntas aos candidatos, mas foi quando a plateia se manifestou pela primeira vez com aplausos tímidos durante troca de narrativas entre os dois candidatos. Os temas levantados foram o Túnel Santos-Guarujá, uma das promessas históricas do governo de São Paulo para a Baixada Santista; as taxações do governo dos Estados Unidos aos produtos brasileiros; projetos para o agronegócio paulista; e o combate ao domínio territorial de organizações criminosas.
Ao retornarem o assunto sobre crime organizado, os candidatos reforçaram seus pensamentos com relação à forma como esse enfrentamento deve se dar. Haddad deu ênfase à operação Carbono Oculto, força-tarefa da Receita Federal do Brasil e do Ministério Público de São Paulo deflagrada no ano passado com o intuito de desarticular um esquema financeiro bilionário vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Já Tarcísio, ao responder sobre a questão, reforçou ser um campo onde é preciso ter coragem, citando a importância de aumentar o efetivo policial, fortalecer as corporações e utilizar inteligência nas operações.
No terceiro bloco, os candidatos tiveram 20 minutos de confronto direto para administrarem da forma que preferirem. Por ordem sorteada, nesse momento, Haddad foi quem iniciou a discussão e trouxe para a pauta a questão das privatizações em São Paulo. Saúde e resiliência hídrica também foram assunto.
Caminhando para o encerramento do debate, Haddad levantou temas como o negacionismo às mudanças climáticas e à vacinação --citando que São Paulo está vivendo um surto de sarampo enquanto aliados de Tarcísio seguem com movimentações antivacina.
Já na 'cartada final' de Tarcísio, ele reviveu o passado da Lava Jato e de investigações em torno do Partido dos Trabalhadores, perguntando se esse é um tema que preocupa o petista.
Os dois terminaram falando sobre números e brigando por isso. "Na hora de somar, a verdade vai aparecer", alegaram.
Considerações finais
Confira, na íntegra, as considerações finais dos candidatos:
- Tarcísio de Freitas
"Quatro anos atrás eu estive aqui pedindo o voto de confiança do cidadão de São Paulo. Quatro anos se passaram e eu procurei honrar cada voto que me foi dado.
Eu tenho muito orgulho de ter sido governador de São Paulo nesse período, de apresentar hoje os menores indicadores criminais da história. Estamos satisfeitos? Não. A gente sabe que tem muito pra fazer. A gente quer devolver a sensação de segurança pras pessoas.
Hoje nós temos uma educação que está crescendo e nós vamos trazer a inteligência artificial. Nós vamos pensar nas profissões do futuro. Nós vamos fazer a aliança com a programação, a aliança com o algoritmo, a aliança com a matemática.
Nós vamos manter a Tabela SUS Paulista, vamos continuar protegendo as Santas Casas, continuar incrementando as cirurgias e, mais, trazendo a telemedicina e a inteligência artificial para aproximar o cidadão do serviço público, para ter um serviço público cada vez melhor.
Vamos construir o maior centro de inovação em segurança que a gente já viu para trazer a inteligência artificial para a segurança pública, para tornar as nossas cidades mais seguras, para continuar avançando mais.
Vamos manter o Casa Paulista, que é o maior programa de habitação da história, que está fazendo a diferença. E eu tive a oportunidade de entregar para pessoas que moravam em palafitas no Dique da Vila Gilda, entregar para pessoas que já ficaram soterradas lá na Vila Mantiqueira, em Cubatão, e que hoje têm a tranquilidade de dormir e acordar seguro. O maior programa de todos os tempos, o maior programa rodoviário de todos os tempos.
A gente vai ver o trem chegando em Parelheiros, a gente vai ver o metrô chegando em Taboão, a gente vai ver o metrô chegando no Jardim Ângela, a gente vai ver o metrô chegando em Guarulhos. A gente tem a maior expansão do transporte ferroviário da nossa história. A gente vai ver o serviço melhorando. A gente vai continuar fazendo a diferença, trazendo investimento.
Nós vamos cuidar das mães atípicas, que muitas vezes sofrem com as salas sensoriais nas escolas, com as Casas da Mãe Atípica, com os Centros TEA, que nós já fizemos aqui na cidade de São Paulo e no interior. Nós vamos continuar fazendo a diferença. E é por isso que eu peço mais essa oportunidade para continuar trabalhando com vocês."
- Fernando Haddad
"Eu acho muito importante a gente honrar a palavra que a gente dá numa campanha. Presidente Lula prometeu isentar as pessoas que ganham até 5 mil reais de Imposto de Renda. Um compromisso muito difícil de ser executado, mas nós executamos. O governo do Tarcísio prometeu a mesma coisa e não entregou nada. Entregou desemprego, fila do osso, 33 milhões de pessoas passando fome.
Aqui, nós estamos ficando na lanterninha. São Paulo não pode ficar para trás. São Paulo sempre foi vitrine de políticas públicas importantes. Você vê que ele fala tudo no gerúndio. ‘Estamos indo, estamos indo, estamos indo.’ O Hospital de Parelheiros tá lá. O Hospital da Vila Santa Catarina tá lá. O Hospital da Brasilândia tá lá. Os três hospitais que eu falei que iam sair do papel saíram do papel.
E muitas outras coisas estão aí porque eu licitei, porque eu preparei. Metade das obras da cidade de São Paulo hoje foram licitadas no meu período, estão sendo entregues dez anos depois.
Esse que você chama de melhor prefeito de São Paulo realmente é uma coisa incrível. Com 80 bi em caixa, com o fim da dívida, o cara já tá endividando a cidade em 50. E ainda com um contrato aí de Wi-Fi para ser desviado dinheiro para a produção de uma parte e para fazer o filme do Bolsonaro por outra.
Vai com calma, pega leve, não abusa da retórica, porque eu não te desrespeitei e não gostaria de ser desrespeitado nos nossos próximos embates. Eu trouxe aqui números, trouxe desafios e trouxe propostas.
Eu acho que é muito importante quando alguém fala: ‘Eu falei que ia baixar a conta de água’ e… Fala: ‘Meu, eu me equivoquei, eu vou rever meu contrato, eu vou ver o que é possível, eu vou ajudar as famílias.’ Tentar enganar as pessoas, tentar te desviar, escapar do problema, como você fez o debate inteiro, não é solução pros nossos problemas.
Nosso plano de governo vai ser lançado essa semana. Nós vamos ter oportunidade de divulgar item por item o que nós vamos fazer, mas nós vamos cumprir. Nós vamos cumprir porque o nosso compromisso é com você."