As distribuidoras de gás canalizado estimam um aumento de 20% em contratos com a Petrobras 100% referenciados no petróleo Brent, a partir de 1º de maio, e pedem que o governo tome medidas para atenuar os impactos, assim como fez com combustíveis concorrentes, disse o diretor-executivo da associação que as representa (Abegás), Marcelo Mendonça.
Tais contratos junto a distribuidoras estaduais são reajustados trimestralmente, e a Abegás projeta um efeito ainda mais alto em agosto, quando poderiam ser reajustados em mais 35%.
As projeções, portanto, apontam para uma alta média de 50% a 60% em tais contratos em agosto, quando comparados com valores de fevereiro, disse Mendonça, considerando dados atuais de mercado.
"A gente não tem margem, não tem lastro para conseguir suportar um aumento dessa magnitude", afirmou Mendonça, em entrevista à Reuters.
O valor da molécula cobrado pela Petrobras nos contratos é apenas uma parcela da tarifa de gás natural que chega ao consumidor, na ponta, uma vez que também são agregados custos da tarifa de transporte, margem de distribuição e tributos ao consumidor.
Além disso, com a gradual abertura do mercado de gás natural no Brasil, as distribuidoras vêm buscando diversificar o portfólio de suprimento, além da Petrobras, então nem todas são totalmente dependentes desses contratos junto à petroleira.
O valor do reajuste, a ser calculado pelas agências reguladoras estaduais, conforme contrato de concessão, incide somente sobre a parcela de suprimento da Petrobras no portfólio da distribuidora.
O governo lançou, no mês passado, um programa de subvenção ao diesel e posteriormente agregou o querosene de aviação (QAV), como forma de atenuar os efeitos da disparada dos preços do petróleo e seus derivados no mercado internacional, em meio a uma restrição de oferta gerada pela guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
O governo também lançou recentemente um programa de subsídio voltado ao gás liquefeito de petróleo (GLP), o chamado gás de cozinha, importado.
O impacto do preço dos combustíveis na inflação é uma preocupação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição neste ano.
"Quando você incentiva combustíveis concorrentes e até, inclusive, mais poluentes que o gás natural, você acaba incentivando esses combustíveis. E o gás natural, o combustível da transição, perde mercado", disse Mendonça.
Em carta ao Ministério de Minas e Energia, em meados de março, a Abegás afirmou que os cortes de impostos federais ao diesel pelo governo eram acertados, mas que a medida deveria alcançar também os veículos pesados que utilizam o gás natural veicular (GNV).
"Entendemos que há nítido prejuízo para o setor de gás natural veicular, na medida em que foi dado tratamento tributário diverso para outros combustíveis como o óleo diesel, sabidamente mais poluente que o GNV", disse a Abegás em carta ao governo.
A Abegás espera que o governo tome medidas para o gás natural por meio de algum mecanismo, mas que "não espere o problema chegar efetivamente em maio para a gente poder discutir de fato".
Procurados, o Ministério de Minas e Energia e a Petrobras não comentaram o assunto imediatamente.