Comando Sul dos EUA concentrará foco na América do Sul em cartéis, terras raras e influência chinesa

Visões alinhadas com a política do governo Donald Trump para as Américas se chocam com o governo brasileiro

5 abr 2026 - 07h41
 Novo chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis L. Donovan
Novo chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis L. Donovan
Foto: Getty Images

BRASÍLIA - O general Francis L. Donovan, novo chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, expôs no Congresso americano visões alinhadas com a política do governo Donald Trump para as Américas, que se chocam com o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que isso: ideias citadas pelo general Donovan cruzam linhas vermelhas já riscadas pela diplomacia brasileira, em interações com os americanos: a associação entre narcotráfico e terrorismo e a pressão por afastamento da China, inclusive no campo de minerais críticos.

Donovan manifestou preocupação com a influência chinesa na cadeia de mineração estratégica, na qual o Brasil se destaca por deter 23% das reservas globais conhecidas de terras raras, e em ativos minerais estratégicos da região, além de portos, o Canal do Panamá e um cabo submarino na costa do Chile.

Publicidade

Sediado em Doral, na Flórida, o Comando Sul é o principal braço de combate das Forças Armadas dos EUA na América Latina e no Caribe. Foi mobilizado por ordem de Trump para realizar operações militares contra o narcotráfico, com o porta-aviões Gerald R. Ford, navios, frota de caças e cerca de 15 mil soldados.

Desde novembro, as tropas sob comando de Donovan realizam ações inéditas no Mar do Caribe e no Pacífico, e na franja norte da América do Sul, com alta letalidade. Os bombardeios a embarcações de pequeno porte, supostamente tripuladas por nacotraficantes, levaram a ao menos 163 mortes, em 47 ataques aéros. As ações continuam em andamento, com apreensão de petroleiros de frota fantasma.

Em 3 de janeiro, tropas americanas capturaram em Caracas o ditador Nicolás Maduro, acusado de narcotráfico. O episódio causa temores e reprovação no governo brasileiro e motivou pedidos de Lula para que as Forças Armadas se reequipassem e aumentassem seu poder de dissuasão.

No cargo desde 5 de fevereiro, o general Donovan falou em audiências no Congresso americano, duas vezes, nos dias 17 e 19 de março. Depois, respondeu aos questionamentos de senadores e deputados.

Publicidade

Operação Formosa

A úncia menção explícita ao Brasil foi levantada pelo deputado texano Lance Gooden, membro do Partido Republicano e do US-Brazil Caucus, uma frente parlamentar de relacionamento entre os países. Ele perguntou exatamente sobre a proximidade política entre Pequim e Brasília.

O militar disse que a relação afasta o Brasil dos EUA, como se viu no ano passado, quando as tensões políticas contribuíram para o cancelamento da Operação Formosa, maior exercício militar do Planalto Central, capitaneado pela Marinha do Brasil. Os EUA se preocupam com a crescente inserção militar chinesa na América Latina.

"Temos, nos níveis mais baixos, um relacionamento muito bom (com as Forças Armadas do Brasil). Aliás, vimos algumas ações positivas. No ano passado, o Brasil iria realizar um exercício anfíbio chamado Formosa, convidando os Estados Unidos. Não participamos porque os chineses estavam participando. E então, este ano, os chineses não estão participando e nós estaremos", citou Donovan, lembrado que o relaciomanto militar é cultivado por gerações.

Gooden também havia citado, logo antes, o investimento chinês de US$ 1,3 bilhão no Porto de Chancay, no Peru, e pontos de infraestrutura cibernética e espacial espalhados por chineses pela América Latina. Ele indagou se os deputados deveriamse preocupar com o risco de uso dual (civil e militar) e se esses equipamentos poderiam servir de base para ações militares chinesas no futuro.

Publicidade

"Estamos muito preocupados. Considero todos eles de dupla utilização. Se foram construídos com base em infraestrutura militar ou se são apenas dispositivos funcionais que poderiam ser usados ??para apoiar ações chinesas, considero todos de uso duplo. Estamos monitorando 23 projetos portuários e 12 projetos de infraestrutura espacial", disse o general da Marinha americana.

Na mesma semana, o ministro Mauro Vieria foi ouvido em duas comissões do Congresso Nacional brasileiro. O chanceler desmentiu que o Brasil tenha bases espaciais chinesas, como acusou um relatório vinculado ao parlamento americano.

Brasil e China

Desde que a decretação do tarifaço, no passado, o governo Lula sempre descartou qualquer capitulação a pressões dos Estados Unidos para promover uma cisão no relacionamento com Pequim.

O País se recusa a fazer como o Panamá, que bloqueou empresas chinesas de operarem em dois portos no canal diante das ameaças de Trump de retomá-lo. O país centro-americano se tornou o primeiro a abandonar projeto da Nova Rota da Seda, a Iniciativa Cinturão e Rota.

Publicidade

O Brasil evitou aderir e buscou criar uma forma de associação própria à Nova Rota da Seda, sem recusá-la por completo. A diplomacia brasileira tentou se equilibrar de forma equidistante entre as rivalidades, mas uma ala política do governo petista nunca escondeu a predileção pela China.

Autoridades do governo brasileiro reconhecem uma relação preferencial com a China. Há quatro dias, o próprio Lula afimou que a China "é o melhor parceiro do Brasil". Desde 2009, com especial relação com o agronegócio, a China é o principal parceiro comercial brasileiro. Os EUA são o segundo maior.

O general também afirmou que o dominância da China na mineração e processamento de minerais críticos na América Latina, recurssos essenciais para as cadeias de suprimento de eletrônicos, baterias e armamentos, representa uma ameaça de longo prazo para a base industrial de defesa americana.

Canal do Panamá

Para o oficial americano, exercícios militares também são uma forma de conter a influência chinesa, por meio da construção de confiança em parcerias de segurança.

Publicidade

Segundo ele, Pequim, por sua vez, consegue expandir sua influência rapidamente com obras mais baratas - como escolas, estádios de futebol e estradas na América Latina.

"O principal ativo que me preocupa é o Canal do Panamá, manter o Canal do Panamá aberto para o livre fluxo comercial, mas com o foco principal em garantir que possamos deslocar forças americanas para leste ou oeste através do Canal do Panamá. Mais ao sul, no Cone Sul, temos outros ativos minerais que nos preocupam. Estou preocupado com um cabo submarino que chega ao Chile e ao qual a República Popular da China está ligada, e também com a natureza de dupla utilização de quase tudo o que eles instalam em nossa região", reforçou.

"O fato de estarmos realizando o Panamax, nosso maior exercício militar, pela primeira vez em 14 anos no Panamá, com a participação de outras 24 nações, demonstra que eles não estão apenas contendo a China, mas também se tornaram parceiros-chave na região. E acreditamos que iniciativas como a escola de treinamento de operações na selva são essenciais, não apenas para aumentar nossas capacidades como militares americanos, mas também para unir outros parceiros e desenvolver esses relacionamentos", disse o militar.

Delcy e Noboa

Donovan acabara de voltar de Caracas, onde fez uma visita surpresa, a primeira de um militar de alta patenta americano, 46 dias depois do ataque realizado para capturar o ditador Nicolás Maduro. O comandante disse que falou das prioridades de segurança dos EUA com quatro principais generais das FANB e a presidente interina Delcy Rodríguez.

Publicidade

Os venezuelanos aceitaram, segundo ele, que as forças americanas abordassem e vistoriassem dois navios atracadaos no porto de Caracas.

O general também visitou o Equador, e se reuniu com o presidente Daniel Noboa, ideologicamente alinhado a Trump.

Mas a audiência no Capitólio foi muito além da tutela sobre a Venezuela. Os parlamentares se mostraram muito preocupados sobre a existência de planos para um ataque similar contra Havana, para derrubar a ditadura comunista de Cuba. O general negou qualquer planejamento para reproduzir contra a ditadura castrista a Operação Resolução Absoluta.

Narcoterrorismo

Nas duas oportunidades, ele fez o mesmo discurso inicial e expressou o conceito de "narcoterrorismo" seis vezes, em cada apresentação. Segundo Donovan, 13 organizações terroristas estrangeiras conduzem "campanhas de terror, violência e corrupção em nossa área de responsabilidade".

"Elas produzem e transportam drogas ilícitas por todo o hemisfério e através de nossas fronteiras, incluindo a cocaína que envenena nossas comunidades e mata milhares de americanos todos os anos", disse Donovan. "Essas vastas e ágeis organizações ilícitas geram centenas de bilhões de dólares em receita com o tráfico de drogas, pessoas, armas e contrabando; desestabilizam a região aterrorizando populações e minando a governança; e representam uma ameaça direta à segurança e à soberania dos Estados Unidos e de todas as nações do hemisfério", emendou o oficial.

Publicidade

Essas organizações criminosas, 14 delas classificadas como terroristas pelo Departamento de Estado a partir do retorno de Trump à Casa Branca, são os alvos principais da Operação Lança do Sul, determinada em setembro de 2025 por Trump.

Embora não tenha citado o Brasil, tampouco o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV),o governo americano estuda incluir os dois grupos nessa classificação.

Escudo das Américas

O general disse que o grau de envolvimento e cooperação dos países na área do Comando Sul à coalizão militar de combate aos cartéis varia. Com 17 aliados dos americanos, ela foi lançada na reunião liderada por Trump, em 7 de março, em reunião política de líderes batizada de "Escudo das Américas".

O comandante destacou que o Equador e o Paraguai estão "no foco" e pretendem atuar na liderança das ações militares americanas em seus territórios, com novas células de inteligência para combate ao narcotráfico, como as que funcionam em Bogotá e na Cidade do México.

Publicidade

O governo paraguaio assinou um acordo para permitir a presença de tropas americanas no país, com amplas garantias. O governo equatoriano, por sua vez, foi o primeiro a conduzir operações aéreas conjuntas para bombardeio em terra, com suporte dos americanos nos Andes.

Uma investigação do New York Times contestou a versão oficial de uma operação. Segundo o jornal, um bombardeio realizado no início de março teria atingido uma fazenda de gado leiteiro em área rural remota, em vez de um centro de treinamento de traficantes. Os EUA designaram como terroristas as gangues locais Los Lobos e Los Choneros, no ano passado.

 

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações