Autoridade dos EUA não disse que 145 mil crianças imigrantes foram traficadas; post distorce dados

THOMAS HOMAN, RESPONSÁVEL PELA POLÍTICA DE FRONTEIRAS DA CASA BRANCA, AFIRMOU QUE GOVERNO PERDEU CONTATO COM MENORES QUE FORAM ENTREGUES AO CUIDADO DE VOLUNTÁRIOS

4 fev 2026 - 10h52

O que estão compartilhando: que Tom Homan, responsável pela política de fronteiras da Casa Branca, teria confirmado que a administração do presidente Donald Trump encontrou 145 mil crianças imigrantes vítimas de tráfico humano durante o governo de Joe Biden.

Alegação distorce informações oficiais sobre crianças imigrantes nos Estados Unidos.
Alegação distorce informações oficiais sobre crianças imigrantes nos Estados Unidos.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Homan não disse que 145 mil crianças foram vítimas de "tráfico humano". Na realidade, ele comentou sobre a situação de crianças estrangeiras que chegam ao país de forma irregular e estão desacompanhadas dos pais ou guardiões legais. Essas crianças, que passam por processos migratórios e podem ser deportadas, costumam ser entregues a adultos que se oferecem para acolhê-las temporariamente. São os chamados "patrocinadores".

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O que Homan declarou foi que, durante o governo Biden, mais de 300 mil crianças foram colocadas sob os cuidados de "patrocinadores não verificados". Segundo ele, o governo anterior teria perdido o contato com essas crianças, e mais de 145 mil teriam sido localizadas pela atual administração.

A alegação de que 300 mil crianças imigrantes foram vítimas de tráfico humano foi repetida diversas vezes por Trump e por apoiadores dele durante a campanha presidencial de 2024.

Para a National Immigration Forum, existe uma deficiência no sistema de crianças desacompanhadas. Porém, a organização considera que a maioria dos menores citados no relatório do DHS está segura com patrocinadores. O mesmo é dito por especialistas e advogados de imigração ouvidos por veículos de imprensa.

Em uma reportagem de novembro de 2024 da BBC, especialistas afirmaram que os números que aparecem no documento do DHS indicam um problema burocrático, não "algo nefasto".

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Para eles, muitas das crianças continuam nos endereços para onde seguiram ao serem liberadas pelo ORR, mas não compareceram ao tribunal por motivos diversos.

Especialistas consultados pela CBS News disseram que essas faltas podem ser culpa dos próprios tribunais responsáveis pelos processos de imigração. Muitas vezes, o ICE não tem o endereço correto desses menores cadastrado.

Para esses especialistas, não houve esforço ativo do governo Biden em encontrar essas crianças. Segundo eles, existem falhas de comunicação entre o ICE e outras agências governamentais, inclusive o escritório responsável por encontrar alojamento para menores imigrantes.

De acordo com a National Immigration Forum, esses patrocinadores ajudam a sustentar os menores enquanto eles aguardam audiências judiciais sobre a situação de imigração, o que pode levar mais de quatro anos. Na maior parte das vezes, esses voluntários são membros da família do menor que já estavam nos EUA.

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A organização afirma que o ORR tem sido alvo de críticas pela dificuldade em rastrear esses menores depois de eles serem entregues a um patrocinador. A pessoa responsável só precisa fornecer nome e endereço onde vive naquele momento e não é obrigada a manter contato posterior com o órgão.

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Existe registro de exploração de menores imigrantes desacompanhados?

Existe sim registro de crianças em situação de vulnerabilidade, mas não existem dados consolidados sobre quantas vivem situação de abuso, exploração ou tráfico.

Em 2023, uma reportagem do New York Times mostrou que crianças imigrantes que entram nos Estados Unidos desacompanhadas dos pais acabam sofrendo exploração em trabalhos ilegais. Na ocasião, o jornal conversou com mais de 100 crianças trabalhadoras em 20 estados.

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Após a reportagem, o governo Biden anunciou uma ampla repressão à exploração laboral de crianças imigrantes. A gestão informou que lançaria investigações mais rigorosas sobre empresas que se beneficiam do trabalho infantil.

O que o governo Trump tem feito sobre o assunto?

Em março do ano passado, o DHS divulgou um relatório com números atualizados sobre crianças imigrantes desacompanhadas. O documento informa que quase 450 mil foram colocadas sob a guarda de patrocinadores e que 43 mil não compareceram a audiências judiciais até outubro.

Ainda segundo o documento, até janeiro de 2025, o ICE não havia conseguido notificar mais de 233 mil crianças. O relatório afirma que o HHS tinha registros de mais de 31 mil endereços de patrocinadores em branco ou com dados inválidos.

Em fevereiro de 2025, o ICE instruiu funcionários a fazer uma busca nacional por menores desacompanhados para deportá-los. Foram criados novos requisitos de verificação para patrocinadores de menores desacompanhados, como a coleta de impressões digitais.

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Em março, o governo Trump decretou o encerramento quase total dos serviços jurídicos para o programa de crianças desacompanhadas. Na prática, a medida interrompeu a representação legal para elas.

Em abril, o DHS recrutou o FBI e outras agências policiais para fazer verificações de bem-estar das crianças, numa tentativa de localizar aquelas que faltaram a audiências judiciais ou não receberam intimações.

De acordo com o jornal Washington Post, organizações de defesa dos direitos dos imigrantes alertaram que essa seria uma forma indireta de deter imigrantes sem documentação legal, incluindo patrocinadores.

Em maio, o New York Times noticiou que agentes do ICE têm aparecido sem aviso prévio em escolas, casas e abrigos para imigrantes para entrevistar crianças. O jornal afirmou que as verificações geraram ansiedade entre os imigrantes e alarmaram educadores, defensores e advogados, que veem as visitas como uma tática para acelerar deportações.

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O The Guardian informou em reportagem de setembro passado que o governo Trump tem recuado no combate ao tráfico humano e à exploração infantil, depois de mudanças nas equipes de trabalho de órgãos públicos, cancelamento e atraso de verbas. Agentes do DHS antes dedicados à investigação e prisão de traficantes de pessoas foram orientados a se concentrar na deportação de imigrantes.

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