O que estão compartilhando: que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria se pronunciado sobre a morte do cão comunitário Orelha. "Não vai ficar impune. Eles são menores [adolescentes suspeitos], mas isso não vai ficar assim. Eu me comprometo, como presidente da República, a dar uma punição severa, independente de ser filho de rico", ele teria dito.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. O vídeo foi criado com inteligência artificial. Há inconsistências no movimento da boca e nas mãos do presidente, que indicam o uso da técnica de deepfake para simular a declaração. Não há registro público, até o momento, de um pronunciamento de Lula sobre o caso do cãozinho Orelha, morto no início de janeiro após agressões em Florianópolis.
Saiba mais: Publicações nas redes sociais compartilham como se fosse verdadeiro um vídeo gerado por inteligência artificial de Lula comentando sobre a morte do cão comunitário Orelha. O Verifica analisou o vídeo e identificou inconsistências que indicam a geração digital do conteúdo.
Foi possível observar detalhes no vídeo que indicam falhas comuns em peças feitas por IA. Aos 12 segundos, a mão de Lula parece se fundir com o rosto no momento em que o presidente gesticula. A boca aparece distorcida em alguns trechos, como aos 15 segundos. O rosto de uma pessoa ao fundo aparece distorcido quando a câmera se afasta.
Além disso, o vídeo ainda traz frases como "comenta muito e segue" ou "clica no sinal de mais para o vídeo chegar nas famílias", que não são comuns em discursos presidenciais.
A partir da marca d'água inserida no vídeo pela própria plataforma TikTok, foi possível identificar que a conta responsável pela criação do conteúdo compartilha outros conteúdos do presidente criados com IA.
Até o momento, não há registro público de que Lula tenha se manifestado sobre a morte do cachorro Orelha. A primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, se pronunciou nas redes sociais e disse que o caso lhe causou muita "tristeza e indignação".
Vídeo usou discurso de Lula na Casa da Moeda
Ao fundo do vídeo analisado, aparece a logomarca da cerimônia de 90 anos da criação do salário mínimo no Brasil, onde Lula discursou em 16 de janeiro. Por meio da busca reversa (saiba como fazer), a reportagem encontrou a transmissão do evento usada para a criação do conteúdo falso.
A peça utilizou a técnica de deepfake, que utiliza arquivos reais de uma pessoa para criar conteúdos sintéticos com auxílio de inteligência artificial.
A partir dos movimentos da câmera e do presidente, foi possível identificar que o trecho da transmissão usado na montagem ocorre por volta dos 51 minutos e 40 segundos. Lula comentava sobre os riscos da inteligência artificial nessa parte da cerimônia. O presidente não citou o caso Orelha durante o discurso.
Caso do Cão Orelha
Nesta terça-feira, 3, a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu que um único adolescente causou a morte do cão comunitário Orelha, agredido na Praia Brava, em Florianópolis. Inicialmente, a investigação apontava que as agressões haviam sido cometidas por um grupo de jovens.
A Polícia Civil solicitou a internação do agressor e indiciou outros três adultos pelo crime de coação a testemunhas. Os envolvidos não foram identificados.
Como mostrou o Estadão, por se tratar de adolescente, menor de idade, ele não está sujeito a penas criminais, como prisão.
As investigações da polícia apontam que Orelha foi atacado com uma pancada contundente na cabeça na madrugada de 4 de janeiro. No dia seguinte, 5 de janeiro, o cãozinho foi resgatado por uma moradora, mas morreu em uma clínica veterinária em razão da gravidade dos ferimentos.
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