O que estão compartilhando: que o vírus Nipah poderá ser uma nova pandemia, assim como ocorreu com o coronavírus, e que as pessoas podem se proteger mantendo a imunidade e o consumo de vitaminas alto.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O Ministério da Saúde e especialistas esclarecem que não há motivo para alarme. Atualmente, o vírus Nipah não representa uma situação de emergência global e o risco de uma pandemia é considerado baixo. O que se tem até o momento são dois casos confirmados em profissionais de saúde na Índia. A Organização Mundial de Saúde (OMS) monitora a situação.
O vírus tem alta taxa de letalidade entre os casos mais graves, mas não costuma sustentar um índice elevado de transmissão de pessoa para pessoa. Não há vacina nem antiviral que combata o vírus Nipah. Manter a imunidade alta, evitar alimentos que "inflamam" o corpo, consumir vitaminas C e D3, entre outras recomendações que circulam nas redes sociais, não evitam a contaminação. A melhor forma de reduzir a letalidade é o diagnóstico precoce e o suporte clínico com controle dos sintomas e acompanhamento das possíveis complicações.
Por que tem circulado desinformação sobre o vírus Nipah?
Desde a confirmação de dois casos de infecção pelo vírus Nipah na Índia, n neste mês, diversas publicações têm viralizado nas redes sociais alertando para uma nova pandemia, comparando a situação com o coronavírus. Mas não é bem assim.
O vírus Nipah teve o primeiro surto registrado em 1998, na Malásia. Desde então, foram registrados casos na Índia, Bangladesh, Filipinas e Singapura. Foram 12 surtos, incluindo o atual, na província indiana de Bengala Ocidental.
Os casos mais recentes foram confirmados por autoridades sanitárias da Índia no dia 13 de janeiro e afetaram duas enfermeiras de um mesmo hospital em Calcutá. As duas estão internadas com quadro de encefalite, um dos sintomas mais graves da doença.
A letalidade do vírus pode chegar a 75%, mas isso não atinge a todos os infectados. Essa taxa se aplica àqueles com sintomas mais graves, como os neurológicos. O vírus Nipah integra a lista de prioridades da OMS pelo potencial de causar uma emergência de saúde pública, mas fazer parte dessa lista não necessariamente indica que haverá uma pandemia.
Como ocorre a transmissão pelo vírus Nipah?
A principal forma de transmissão do vírus é zoonótica, ou seja, de animais para humanos. Mas é possível haver transmissão entre humanos, principalmente em ambientes hospitalares superlotados e mal ventilados. O principal hospedeiro do vírus é o morcego do gênero Pteropodidae, conhecido como morcego-das-frutas, que é bastante comum na região onde foram registrados surtos da doença até hoje.
A infecção ocorre pelo contato com o animal infectado ou consumo de frutas contaminadas pela saliva ou urina do morcego. Também há relatos de transmissão em ambientes de saúde e entre familiares e cuidadores de pessoas doentes por meio de contato próximo, segundo a OMS.
De acordo com o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os surtos já registrados do vírus Nipah tiveram o mesmo padrão epidemiológico, com transmissão relacionada principalmente com o contato com o morcego infectado. Não houve disseminação sustentada na comunidade, ou seja, de pessoa para pessoa.
Apesar de o vírus levar a uma doença grave e de os surtos serem um sinal de alerta para a necessidade de vigilância dessas doenças, ainda não há motivo para pânico.
"Não há nenhum motivo no atual momento para que se diga que é uma nova pandemia", esclareceu Barbosa.
Também não há razão para acreditar que se desenvolva uma pandemia como a da covid.
"Não existe essa comparação com coronavírus, do ponto de vista científico, porque o SARS-CoV-2, que causa a covid-19, tem uma transmissibilidade muito alta por gotícula, inclusive de pessoas assintomáticas, algo que nunca foi visto com o Nipah", explicou o infectologista.
Segundo ele, o fechamento de aeroportos e isolamento de pessoas contaminadas ocorre para evitar a importação de casos, já que, quanto maior o número de surtos, mais fácil é a dispersão da doença. Além disso, à medida que esses surtos ressurgem, há o risco de um "spillover", ou seja, de que o vírus se adapte ao ser humano e, um dia, possa surgir uma mutação mais transmissível e até mais letal.
Mas,neste momento, o risco de circulação comunitária é muito baixo, exatamente pela alta letalidade do vírus.
"Ele é tão letal - uma letalidade de 70% a 80% - que não consegue se propagar, porque rapidamente já mata os hospedeiros", apontou Alexandre. "O SARS-CoV-2 tinha uma letalidade no início de 3%. Então, não há motivo para pensar numa emergência global, numa situação de ameaça pandêmica no momento".
Em nota, o Ministério da Saúde do Brasil disse que o risco de haver uma pandemia do vírus Nipah é muito baixa, mesmo que ele tenha sido classificado como de alta patogenicidade pela OMS.
Desde que foi identificado, o vírus circula em países do sudeste asiático, que "possuem protocolos de emergência para rápida detecção e controle de surtos, com acompanhamento de um grupo de especialistas coordenado pela OMS", segundo o ministério.
O Ministério destacou que o vírus é transmitido por uma espécie de morcego que não existe no Brasil e que, no momento, não há qualquer indicação de risco para a população brasileira. Mesmo assim, a pasta "mantém protocolos de vigilância e resposta de emergência para agentes altamente patogênicos, em parceria com instituições como o Instituto Evandro Chagas e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com participação da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas)".
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Como funciona a taxa de letalidade do Nipah?
Especialistas concordam que o vírus leva a uma doença grave, mas nem todos os infectados enfrentarão a mesma taxa de letalidade. Segundo o infectologista Alexandre Bertucci, médico do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh), um dos principais desafios ligados ao vírus é o diagnóstico, porque os sintomas iniciais são inespecíficos.
Eles costumam surgir entre 3 e 14 dias após o contato e podem incluir febre, dor de garganta, tosse, dor de cabeça e falta de ar. Em alguns casos, a doença pode evoluir para sintomas neurológicos mais graves, como encefalite aguda, uma inflamação no cérebro. É nessas situações que a taxa de letalidade fica em torno de 75% dos casos.
Segundo Barbosa, da Unesp, nos 11 surtos em que há dados, a taxa de letalidade foi de 40% a 75%, com o percentual maior atingindo pessoas com quadros de encefalite aguda e vasculite pulmonar, que leva à insuficiência respiratória.
"Não necessariamente três quartos das pessoas vão morrer. Depende da gravidade clínica, do acesso rápido ao atendimento hospitalar, do suporte avançado à vida, se esses pacientes vão para a UTI", enumera.
Por isso que é importante haver monitoramento de pessoas que tiveram contato com a doença e reconhecimento precoce do caso, segundo o infectologista.
"Quanto mais precoces essas medidas de suporte geral, principalmente UTI, mais a letalidade cai. A letalidade não é uniforme, ela é maior nos casos graves e muito menor nos quadros leves ou que são diagnosticados precocemente", afirmou Barbosa.
Elevar a imunidade, consumir vitaminas e evitar alimentos inflamatórios protege do vírus?
Não. Em um video que viralizou essa semana, uma pessoa afirma que, por não haver ainda uma vacina contra o vírus Nipah, as pessoas precisam manter a imunidade alta, assim como os níveis de vitamina C e D3, além de evitar alimentos inflamatórios para "manter o corpo limpo".
Para o infectologista Alexandre Naime Barbosa, nada disso evita a contaminação pelo vírus Nipah.
"Nós não temos nenhum estudo que mostre isso e o vírus Nipah não escolhe o hospedeiro com base na imunidade, em vitamina ou em dieta", afirmou. "Mesmo pessoas jovens, sem comorbidade, têm doenças graves, porque o vírus causa doença por um mecanismo direto de invasão do sistema nervoso central".
Ele destaca que as vitaminas são importantes para a saúde em geral, mas a suplementação além do que é necessário não previne a infecção pelo vírus, não bloqueia a transmissão nem reduz a gravidade da doença.
O que realmente ajuda a prevenir a infecção pelo vírus Nipah é evitar o contato com morcegos e animais silvestres e evitar alimentos potencialmente contaminados, como frutas parcialmente consumidas encontradas em áreas de mata e que podem conter saliva do morcego. Além disso, é importante reconhecer os sintomas precocemente e iniciar o suporte o mais rápido possível.
Entre outras medidas de prevenção estão o isolamento de casos suspeitos e confirmados, a lavagem frequente das mãos, o uso de máscaras, evitar contato com pessoas doentes e o reforço das medidas de biossegurança em serviços de saúde.
Como não há vacina nem tratamento específico, o manejo clínico de pacientes infectados é baseado no suporte, incluindo hidratação, controle dos sintomas e acompanhamento rigoroso das complicações respiratórias e neurológicas.