A influenciadora Deolane Bezerra respondeu que estava "trabalhando" ao ser questionada por um repórter da TV Globo se ela lavava dinheiro para Marcos Herbas Camacho, o Marcola apontado como líder da facção Primeiro Comando da Capital, o PCC. A fala foi dita enquanto Deolane deixava a sede da Polícia Civil, no centro de São Paulo, na última quinta-feira, 21, após ser presa.
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Ao mesmo repórter, a influenciadora também afirmou que espera que "a Justiça vai ser feita". Deolane foi presa no âmbito da Operação Vérnix, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
Segundo as investigações, Deolane abriu 35 empresas usando o mesmo endereço em uma área habitacional precária em Martinópolis, no interior de São Paulo. Em coletiva à imprensa, investigadores chamaram a influenciadora de "caixa do crime organizado".
“O crime organizado deposita esses valores nessa pessoa, figura pública, e esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades. Quando precisam desses recursos, eles retornam para o crime organizado”, disse.
O esquema teria movimentado cifras milionárias sem comprovação de origem lícita e utilizava empresas de fachada, contas bancárias de passagem e aquisição de bens de alto padrão para ocultar recursos do crime organizado.
A operação, conduzida pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), resultou em seis prisões preventivas, bloqueio de mais de R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos de luxo e quatro imóveis ligados aos investigados.
Apuração começou com bilhetes em penitenciária
A apuração teve origem em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material continha referências a ordens internas da facção e menções a uma “mulher da transportadora”, que teria auxiliado o grupo criminoso. A partir daí, a Polícia Civil abriu sucessivos inquéritos que levaram à descoberta de uma transportadora ligada à família Camacho, apontada como braço financeiro do PCC.
“Foi a carta apreendida dentro da Penitenciária 2 que nos trouxe até essa transportadora, que pertencia à família Camacho”, afirmou um dos investigadores durante a coletiva.
As investigações avançaram após a apreensão de um celular na Operação Lado a Lado. Segundo a polícia, a extração dos dados revelou conversas, transferências bancárias e comprovantes que ligariam a influenciadora ao esquema.
“A investigação chega até a Deolane por conta da extração do aparelho celular. Ali nós encontramos as transferências bancárias, os comprovantes”, disse a autoridade policial.
Os investigadores afirmam ainda que identificaram movimentações incompatíveis com a renda declarada da influenciadora, especialmente a partir de 2022.
“Ela teve um aumento muito grande do faturamento, inclusive sem correlação com o trabalho prestado”, afirmou um delegado. “Isso vai gerar sonegação fiscal, talvez outras lavanderias e outros investimentos”, completa.
Segundo a Polícia Civil, o esquema utilizava uma rede complexa de empresas e pessoas jurídicas para dificultar o rastreamento do dinheiro.
Outros alvos da operação
Além de Deolane, a operação teve como alvo o Marcola, apontado como líder do PCC, e seu irmão, Alejandro Camacho, ambos já presos. Segundo o Ministério Público, os dois devem responder também por participação no esquema investigado. “Marcola certamente vai sofrer uma condenação nesse caso”, afirmou um integrante da força-tarefa durante a coletiva.
A operação também possui alvos fora do país. Uma investigada identificada como Paloma está foragida na Espanha e é procurada pela Interpol.
Os investigadores disseram ainda que o caso revela uma mudança no modelo de atuação financeira do crime organizado, que passou a usar fintechs, influenciadores e estruturas empresariais formais para lavar dinheiro.
“A gente já aprendeu que eles têm fintechs, que usam a economia formal e arregimentam jovens para emprestar RG e abrir empresas”, afirmou uma autoridade policial. “Muitas vezes usam lacunas do próprio Estado para jogar o dinheiro ilícito dentro da economia formal”.
Segundo a Polícia Civil, o inquérito foi concluído e será encaminhado ao Ministério Público para oferecimento de denúncia. As autoridades afirmam que a análise do material apreendido nesta quinta-feira pode gerar novos desdobramentos e outras investigações envolvendo empresas e plataformas de apostas.