Deolane Bezerra abriu 35 empresas no mesmo endereço, dizem investigadores: 'Caixa do crime organizado'
Polícia Civil e Ministério Público afirmam que influenciadora teve R$ 327 milhões bloqueados, além de veículos apreendidos
A influenciadora Deolane Bezerra abriu 35 empresas usando o mesmo endereço em uma área habitacional precária em Martinópolis, no interior de São Paulo, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo. A informação foi divulgada nesta quinta-feira, 21, durante coletiva sobre a Operação Vérnix, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
“Eu acho inadmissível hoje que nós tenhamos, por exemplo, 35 empresas abertas no endereço de uma casa de projeto habitacional bem precário em Martinópolis”, afirmou o promotor Lincoln Gakiya durante a coletiva. Segundo ele, o caso evidencia falhas no sistema de abertura de empresas e no controle de movimentações financeiras suspeitas.
A operação, conduzida pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), resultou em seis prisões preventivas, bloqueio de mais de R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos de luxo e quatro imóveis ligados aos investigados.
De acordo com os investigadores, Deolane teria atuado como uma espécie de “caixa do crime organizado”, misturando recursos ilícitos a receitas provenientes de atividades empresariais e da própria imagem pública.
“Nós entendemos ao longo da investigação, em parceria com o Ministério Público, que a Deolane, até pelo poder econômico que ela adquiriu ao longo do tempo e pela sua influência, funcione como uma espécie de caixa do crime organizado”, afirmou um dos delegados responsáveis pela investigação.
“O crime organizado deposita esses valores nessa pessoa, figura pública, e esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades. Quando precisam desses recursos, eles retornam para o crime organizado”, disse.
Segundo a investigação, o esquema movimentou cifras milionárias sem comprovação de origem lícita e utilizava empresas de fachada, contas bancárias de passagem e aquisição de bens de alto padrão para ocultar recursos do crime organizado.
Apuração começou com bilhetes em penitenciária
A apuração teve origem em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material continha referências a ordens internas da facção e menções a uma “mulher da transportadora”, que teria auxiliado o grupo criminoso. A partir daí, a Polícia Civil abriu sucessivos inquéritos que levaram à descoberta de uma transportadora ligada à família Camacho, apontada como braço financeiro do PCC.
“Foi a carta apreendida dentro da Penitenciária 2 que nos trouxe até essa transportadora, que pertencia à família Camacho”, afirmou um dos investigadores durante a coletiva.
As investigações avançaram após a apreensão de um celular na Operação Lado a Lado. Segundo a polícia, a extração dos dados revelou conversas, transferências bancárias e comprovantes que ligariam a influenciadora ao esquema.
“A investigação chega até a Deolane por conta da extração do aparelho celular. Ali nós encontramos as transferências bancárias, os comprovantes”, disse a autoridade policial.
Os investigadores afirmam ainda que identificaram movimentações incompatíveis com a renda declarada da influenciadora, especialmente a partir de 2022.
“Ela teve um aumento muito grande do faturamento, inclusive sem correlação com o trabalho prestado”, afirmou um delegado. “Isso vai gerar sonegação fiscal, talvez outras lavanderias e outros investimentos”, completa.
Segundo a Polícia Civil, o esquema utilizava uma rede complexa de empresas e pessoas jurídicas para dificultar o rastreamento do dinheiro.
“Nós encontramos grandes transferências bancárias e depósitos em contas não identificadas. Era um fluxo grande de pessoas jurídicas, voltava para a pessoa física, jurídica, e isso faz parte da segunda fase da lavagem de dinheiro, que é a dissimulação da origem ilícita”, afirmou um dos investigadores.
Outros alvos da operação
Além de Deolane, a operação teve como alvo Marcos Herbas Camacho, o “Marcola” apontado como líder do PCC, e seu irmão, Alejandro Camacho, ambos já presos. Segundo o Ministério Público, os dois devem responder também por participação no esquema investigado. “Marcola certamente vai sofrer uma condenação nesse caso”, afirmou um integrante da força-tarefa durante a coletiva.
A operação também possui alvos fora do país. Uma investigada identificada como Paloma está foragida na Espanha e é procurada pela Interpol. “Ela deve ser presa nas próximas horas”, afirmou a polícia.
Os investigadores disseram ainda que o caso revela uma mudança no modelo de atuação financeira do crime organizado, que passou a usar fintechs, influenciadores e estruturas empresariais formais para lavar dinheiro.
“A gente já aprendeu que eles têm fintechs, que usam a economia formal e arregimentam jovens para emprestar RG e abrir empresas”, afirmou uma autoridade policial. “Muitas vezes usam lacunas do próprio Estado para jogar o dinheiro ilícito dentro da economia formal”.
O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, classificou a investigação como “um oceano de lavagem de dinheiro” e afirmou que a operação tem também um “caráter pedagógico”. “Não tem caminho fácil. Não adianta ficar esfregando dinheiro na cara do jovem para ser advogado do PCC”, declarou.
Segundo a Polícia Civil, o inquérito foi concluído e será encaminhado ao Ministério Público para oferecimento de denúncia. As autoridades afirmam que a análise do material apreendido nesta quinta-feira pode gerar novos desdobramentos e outras investigações envolvendo empresas e plataformas de apostas.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.