O Banco Central decidiu nesta quarta-feira cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,00% ao ano, e deixou os próximos passos em aberto em meio a uma melhora no cenário corrente, argumentando que manterá "a restrição adequada" para assegurar a convergência da inflação à meta.
A autarquia ponderou em comunicado que o cenário atual é "caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base", o que exige serenidade e cautela na condução da política monetária.
"Essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante", disse o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.
Ao reforçar uma dependência de dados para as futuras decisões, o BC reafirmou que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida "à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta".
Na avaliação de Leonardo Costa, economista do ASA, o Copom manteve a porta aberta para ajustes adicionais caso a evolução da atividade, da inflação e das expectativas de mercado justifique novos movimentos à frente.
"A principal mensagem foi a de que os próximos passos permanecem dependentes dos dados, com o BC deliberadamente evitando sinalizar um encerramento definitivo do ciclo", disse.
Dados recentes têm mostrado um arrefecimento mais forte que o esperado para a inflação corrente, mas agentes de mercado seguem prevendo que o índice de preços permanecerá acima do centro da meta nos próximos anos, segundo o boletim Focus.
"O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação", disse a autoridade monetária no comunicado.
Nesta quarta, o BC melhorou ligeiramente sua própria projeção de inflação para 2026 em relação a junho, de 5,2% para 5,1%, bem acima do teto da meta, considerando o cenário de referência, que segue projeções de mercado para os juros. Para 2027, a projeção subiu de 3,7% para 3,8%.
Em relação ao primeiro trimestre de 2028, que agora passou a ser o horizonte relevante da política monetária, a expectativa ficou em 3,2%, mesmo patamar estimado em junho no Relatório de Política Monetária da autarquia.
Para fazer as projeções do cenário de referência, o Copom considerou uma taxa de câmbio que parte de R$5,10, mesmo nível usado na última reunião.
A meta contínua de inflação é de 3% no acumulado em 12 meses, com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos -- o que na prática implica uma inflação de até 4,5%.
INFLAÇÃO DESACELERA, MAS HÁ RISCOS
No documento, a autarquia afirmou que a inflação cheia do país desacelerou, embora ainda esteja acima do teto da meta, e acrescentou que medidas subjacentes -- que desconsideram itens mais voláteis -- alcançaram nível "ligeiramente abaixo" do limite superior da meta.
O comunicado, no entanto, deixou inalterada a avaliação de que o balanço de riscos para a inflação à frente apresenta uma assimetria, com mais chances de alta do que de baixa.
Para o gestor de portfólio da Oby Capital, Camilo Cavalcanti, o BC apresentou uma melhora no cenário de curto prazo que não se traduziu em uma comunicação mais leve sobre os próximos passos da política monetária.
"O Copom ainda mantém aberta a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes de juros na próxima reunião, mas ressalta os argumentos para uma pausa", avaliou.
Sobre a economia no Brasil, o BC disse que indicadores recentes apontam para uma moderação gradual da atividade, mas ainda em patamar resiliente e com mercado de trabalho aquecido.
Esse foi o quarto corte seguido de 0,25 ponto percentual na taxa após o BC iniciar em março um ciclo de "calibragem" da Selic, que havia atingido na ocasião o maior nível em quase duas décadas. Com a nova redução, os juros básicos vão agora ao patamar mais baixo desde março do ano passado, apesar de seguir em nível historicamente elevado.
A decisão veio em linha com o esperado pelo mercado. Em pesquisa da Reuters, 38 dos 42 economistas projetaram que o BC cortaria a Selic em 0,25 ponto neste mês, enquanto quatro esperavam manutenção.
No documento, o BC afirmou ainda que o cenário externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas, o que demanda cautela por parte dos países emergentes.
A decisão do Copom foi tomada de forma unânime pelo colegiado, em reunião realizada mais uma vez com desfalque, contando com apenas sete dos nove membros. Duas cadeiras do colegiado estão vagas desde o início do ano, após o término de mandatos de diretores, sem que o governo tenha indicado nomes para os cargos.
(Edição de Pedro Fonseca e Fabrício de Castro)