O Volkswagen Golf GTI Mk8.5 chega ao Brasil importado da Alemanha por R$ 430 mil, com tiragem restrita a 500 unidades para garantir exclusividade. Fiel à sua essência visual sóbria e clássica, o hot hatch combina esportividade e uso diário. Equipado com motor 2.0 TSI de 245 cv e câmbio DSG de sete marchas, ele acelera de 0 a 100 km/h em 6,1 segundos. Apesar da suspensão rígida, destaca-se pelo equilíbrio dinâmico refinado, interior tradicional com bancos xadrez e alta tecnologia a bordo.
O samba da Portela de 1995. O monólogo do Marlon Brando em "Apocalypse Now". A pausa para o cafezinho. O riff de "Iron Man". A escalação do Fluminense campeão da Copa Libertadores 2023. A Batalha do Abismo de Helm em "O Senhor dos Anéis". Bolo de cenoura de avó. Fim de semana em Búzios.
Existem coisas que são perfeitas, que não necessitam de quaisquer alterações. Até podemos aceitar um retoque aqui, outro acolá, mas não toleramos mudanças bruscas. É o caso do Volkswagen Golf GTI, que chega ao seu ciclo 8.5 com todos os predicados prontos para aquecer o coração dos entusiastas.
Tudo bem que é difícil convencer até mesmo um fã de que o preço de R$ 430 mil cobrado pelo hot hatch está no limiar da sanidade. Quiçá um consumidor comum, que confunde Golf e Gol e desata a reclamar que "carro da Volkswagen é tudo igual".
Aí, leitor, é questão de estratégia da Volkswagen. Portanto, não vou ficar aqui explicando o conceito em vários idiomas como o capitão Nascimento. A montadora quer que o GTI seja visto como algo exclusivo, objeto de desejo. Não à toa, temos poucas unidades no país (500 importadas oficialmente da Alemanha, divididas em dois lotes) e um preço tão explosivo quanto uma cena de "Transformers".
Visual, dimensões e capacidades do Golf GTI
Sobriedade. Classe. Tradição. Três palavras que descrevem perfeitamente o visual do Volkswagen Golf GTI. O que é, caríssimo, algo definitivamente positivo no mundo de hoje.
Atualmente, o design automotivo pouco foge da "imitação de Porsche" ou da desnecessária identidade estrambólica. Por isso, o visual do Golf GTI, que ainda mantém as principais características do modelo preservadas, é uma lufada de ar fresco.
Na dianteira, a grande heresia é o logotipo iluminado, que se conecta à barra central e aos faróis de LED. Os neblina, por sua vez, ficam escondidos, marotos, no para-choque. A grade mantém o padrão em colmeia.
De perfil, temos um coquetel avassalador de beleza que passa longe do brega. O GTI sempre teve uma linha de cintura germânica e elegante, além da coluna 'C' que define sua identidade. Este Mk8.5 traz ainda rodas de 18 polegadas, pinças de freio em vermelho e retrovisores na cor da carroceria.
Atrás, lanternas de LED e duas saídas de escapamento verdadeiras, com uma ponteira em cada extremidade. O porta-malas comporta 344 litros. Não é uma capacidade extraordinária, mas é bacana para um casal em viagem ou para uma família pequena.
O GTI tem 4,29 metros de comprimento, 1,79 m de largura e 1,45 m de altura. O entre-eixos chega a 2,63 m. A carroceria curta torna o hot hatch fácil de posicionar nas ruas, enquanto o diâmetro de giro de 11,1 metros permite manobras sem grandes dificuldades. Não é um número excepcional, bom frisar, mas está de acordo com os pneus 225/40 e com a geometria da dianteira.
Interior
Mesmo sendo compacto, o Golf aproveita bem os 2,63 metros de entre-eixos. Atrás, dois adultos viajam com espaço adequado. Já o terceiro passageiro, o do meio, é prejudicado pelo túnel central elevado. Há, contudo, saídas de ar-condicionado com controle de temperatura para dar uma amenizada.
Na frente, o GTI mantém uma de suas maiores tradições. O hatch tem bancos inteiriços revestidos em tecido xadrez, com logotipo da versão nos próprios encostos de cabeça. Vale ressaltar que você também pode optar por couro, mas, convenhamos, seria uma escolha de lunático.
Na parte superior, o (discreto) painel usa material algo suave ao toque. O quadro de instrumentos digital tem 10,2 polegadas e pode ser personalizado. Ao lado, a central multimídia de 12,9 polegadas concentra quase todos os comandos do carro e traz uma interface ampla, moderna e intuitiva. Para completar, o sistema de som é cortesia da Harman Kardon, com 480 watts.
No console central temos poucos comandos. Há o seletor compacto do câmbio DSG e o freio de estacionamento eletrônico. Porta-objetos diminuto e carregador de celular por indução compõem o espaço.
Ao volante do Golf GTI
Embora o Golf GTI com bancos xadrez não tenha ajustes elétricos, a posição de dirigir é encontrada com alguma facilidade. A regulagem de altura e profundidade da coluna de direção, especialmente, permite encontrar uma posição de condução esportiva, bem alinhada aos pedais e, acima de tudo, agradável.
O GTI é empurrado pelo motor 2.0 TSI da família EA888, que entrega 245 cv de potência e 37,7 kgfm de torque. Instalado transversalmente, trabalha com injeção direta, turbocompressor e variação dos comandos de admissão e escape. É, contudo, mais fraco que o do modelo europeu em razão das características do combustível brasileiro e das normas locais de emissões.
Embora tenha uma relação peso/potência de 5,92 kg para cada cavalo, o GTI 8.5 comercializado no Brasil garante velocidade por meio da disponibilidade de torque, da eficiência do câmbio DSG de dupla embreagem e sete marchas e de sua facilidade em colocar a força no chão.
O torque surge cedo, ali na casa de 1.600 rpm, e permanece disponível durante a faixa mais utilizada do motor. Assim, em vez de esperar o conta-giros bater lá no alto para começar a trabalhar bonito, o GTI responde quase que de imediato. Há um rápido instante de enchimento do turbo, que vem seguido de uma pressão contínua contra o encosto do banco.
No uso "mortal", a programação do câmbio busca marchas altas para reduzir consumo e ruído interno. O motor passa a trabalhar em baixa e o GTI assume o papel de um Golf convencional.
No modo Sport (temos ainda Eco, Normal e Individual), contudo, toda essa educação germânica desaparece. A transmissão segura marchas mais baixas, antecipa reduções e deixa o motor pronto para responder. As mudanças são acompanhadas por um escape grave, mas sem estripulias, e por pequenos estampidos nas situações mais carregadas.
De acordo com a fabricante, o Golf GTI cumpre o 0 a 100 km/h em 6,1 segundos e atinge máxima de 250 km/h. Mais importante do que a arrancada, no entanto, é a forma como o hatch ganha velocidade entre uma curva e outra.
Na dianteira, o GTI usa suspensão independente do tipo McPherson e atrás adota conjunto independente multibraço. A combinação passa longe de ser exótica, mas cai muito bem no hot hatch.
O sistema multibraço traseiro permite controlar com maior precisão as variações de convergência e cambagem durante o movimento da suspensão. Também consegue separar de modo mais adequado os esforços longitudinais, provocados por acelerações e frenagens, das forças laterais geradas nas curvas.
A versão brasileira utiliza amortecedores de calibração fixa. Não temos aqui amortecedores adaptativos presentes no modelo europeu. Ainda assim, o conjunto e os pneus deixam claro que conforto não é a única prioridade. Até mesmo porque as medidas 225/40 R18 resultam em flancos com 90 mm de altura.
Esta camada de borracha mitiga a deformação lateral e deixa as respostas ao volante mais imediatas. Em contrapartida, buracos, valetas e remendos secos chegam à cabine com pouca filtragem. O GTI passa longe de ser brutal no uso diário, mas jamais deixa o motorista esquecer que está sobre rodas de 18 polegadas calçadas com pneus de perfil baixo.
A direção é direta, precisa e, por conseguinte, informa com muita clareza o aumento de carga sobre os pneus. O motorista percebe, por exemplo, quando a dianteira se apoia e quanto ainda pode exigir dela.
É um comportamento, claro, bem menos teatral do que o de um carro esportivo de tração traseira, mas extremamente eficaz. O Golf GTI não tenta assustar, mas sim construir confiança até que o motorista perceba estar carregando muito mais velocidade do que imaginava.
Além disso, os balanços relativamente curtos não servem apenas ao belo e clássico desenho do Golf GTI. Estes reduzem a massa distante do centro do carro e ajudam a tornar as respostas mais imediatas nas mudanças de direção.
Para completar, temos ainda discos ventilados nas quatro rodas. O pedal, bom destacar, tem curso curto e permite modular a pressão com precisão.
De acordo com o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), o modelo faz 9,8 km/l na cidade e 12,8 km/l na estrada. Em nosso teste, em ciclo misto, o hot hatch ficou na casa dos 10,5 km/l.
Conclusão
Poucos carros conseguem provocar o motorista sem punir os passageiros. Menos ainda fazem isso com quatro portas laterais, espaço para cinco pessoas e compras no porta-malas. É justamente por parecer tão comum que o Golf GTI continua sendo tão, aí o clichê me pegou legal, extraordinário.
Temos, claro, opções mais invocadas caso você queira se aventurar nessa seara. Honda Civic Type R (R$ 430.500) e os Toyota GR Corolla (R$ 416.990) e GR Yaris (R$ 359.990) estão na área, mais potentes.
Mas nem tudo nesse mundo, meu amigo, é cavalaria, "alegria e ousadia". Há de se ter requinte, elegância, certo decoro.
Senna guiando em Mônaco. Michael Jordan nas finais da NBA. O primeiro gole na cerveja gelada. Terça-feira de Carnaval. Amor de mãe. Cheiro de terra molhada pela chuva. Pizza gelada. O som ao ligar o PlayStation 1. Gol do John Kennedy aos 8 minutos da prorrogação contra o Boca Juniors.
Existem coisas que são perfeitas, que não necessitam de quaisquer alterações. É o caso do Volkswagen Golf GTI Mk8.5. Problema é que, neste caso, você, além de encarar uma baita fila de espera, tem de pagar pelo menos R$ 430 mil pela perfeição.
Bom... Cada um com seu cada qual.