O "pulo do gato" da indústria automotiva brasileira não é o etanol

As decisões tomadas agora sobre terras raras, baterias e tecnologia vão definir o papel do Brasil na mobilidade elétrica da década de 2040

2 jan 2026 - 11h24

As negociações do Brasil com EUA e China envolvendo terras raras e minerais críticos ajudam a explicar um debate que vai muito além da mineração. Na prática, elas podem definir se o país continuará restrito ao papel de exportador de matéria-prima ou se dará um salto estrutural para produzir carros elétricos, baterias e tecnologia automotiva, com ambição de atender também a América Latina.

Ao afirmar que não aceitará ser “mero exportador” e que condiciona acordos à transferência de tecnologia e ao beneficiamento em território nacional, o governo Lula sinaliza uma mudança importante de lógica. A ideia é usar recursos naturais como instrumento de política industrial, algo que o Brasil historicamente tentou, mas raramente conseguiu sustentar. Faltam apenas 15 anos para a década de 2040.

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Onde entram as terras raras no carro elétrico

Terras raras não estão diretamente nas baterias, mas são fundamentais para motores elétricos mais eficientes, especialmente aqueles que utilizam ímãs permanentes. Dominar essa etapa permite motores mais compactos, potentes e eficientes — um diferencial decisivo em veículos elétricos e híbridos modernos.

A lógica se estende a outros minerais críticos, como lítio, níquel e manganês, essenciais para baterias. Em todos os casos, o ponto central é o mesmo – o valor está no refino, na química e na engenharia, não na simples extração do minério.

Extrair minério é relativamente barato. Separar, refinar e transformar em componentes industriais é caro, complexo e exige tecnologia avançada. Foi justamente por isso que, ao longo das últimas décadas, o Brasil ficou concentrado na etapa menos nobre da cadeia.

Sem uma estratégia clara, o país corre o risco de seguir exportando minério enquanto importa baterias, motores elétricos e veículos completos. Ao atrelar acordos internacionais à industrialização local, o Brasil tenta, desta vez, quebrar esse padrão.

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Por que a década de 2040 é o verdadeiro horizonte

Na indústria automotiva, 2040 não é distante. Novas fábricas, cadeias de fornecedores, plataformas globais e domínio tecnológico levam de 10 a 15 anos para amadurecer. Isso significa que o que vai definir a posição do Brasil em 2040 está sendo decidido agora, na metade final dos anos 2020.

Até o final dos anos 2030, o mundo ainda viverá uma fase de transição, com múltiplas tecnologias convivendo em diferentes graus, dependendo da região do planeta e das políticas industriais de cada país. A partir de 2040, porém, o jogo tende a estar mais definido — e os países que não tiverem cadeia local de baterias, motores elétricos e eletrônica embarcada estarão condenados a importar tecnologia.

Etanol e híbrido flex: ponte necessária, mas temporária

É nesse ponto que o etanol precisa ser colocado em perspectiva. Ele tem papel relevante e estratégico como solução de transição, ajudando a reduzir emissões, preservar empregos e dar tempo para a indústria automotiva brasileira (ou instalada no Brasil, para sermos mais corretos) se reorganizar. O híbrido flex faz sentido no curto e médio prazo, especialmente no Brasil.

O problema surge quando essa solução passa a ser tratada como destino final. Do ponto de vista industrial, insistir em atravessar a década de 2040 com carros híbridos significa postergar investimentos em baterias, motores elétricos e cadeias de maior valor agregado. O etanol ajuda na travessia, mas não pode ser a margem onde o país decide ficar. Até porque o Brasil vende carros basicamente para a América Latina; e nenhum deles utiliza etanol como combustível.

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Se quiser chegar à década de 2040 como protagonista — e não como espectador —, o Brasil precisa agir agora:

  • atrair plantas de refino e processamento químico;

  • estimular a produção local de baterias, começando por módulos e packs e avançando para células;

  • garantir previsibilidade regulatória e ambiental;

  • usar o mercado interno como base de escala industrial;

  • investir de forma consistente em engenharia, pesquisa e formação técnica.

Sem esses movimentos, o país corre o risco de apenas trocar uma dependência por outra. Portanto, o verdadeiro “pulo do gato” da indústria automotiva brasileira não está no etanol, nem apenas nas terras raras. Está em usar seus recursos como moeda de troca para trazer tecnologia, fábricas e conhecimento. Segundo a CNN Brasil, o governo está tentando fazer a parte dele na questão da trânsferência de tecnologia.

Se acertar agora, o Brasil pode chegar à década de 2040 como polo regional de carros elétricos e baterias. Se errar, continuará rico em recursos naturais — e pobre em indústria. Isso pode até ser conveniente para algumas montadoras tradicionais no país, mas será o melhor para o Brasil?

Produção local de baterias é fundamental para o Brasil ser um exportador de EVs
Produção local de baterias é fundamental para o Brasil ser um exportador de EVs
Foto: BYD / Guia do Carro
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