Adrenalina em alta: o que leva algumas pessoas a buscar experiências cada vez mais arriscadas

Estudos recentes indicam que a busca por risco não pode ser explicada apenas por imprudência ou falta de noção de perigo. Entenda o que leva algumas pessoas a buscar experiências cada vez mais arriscadas.

18 jun 2026 - 11h26

Em diferentes partes do mundo, saltos de paraquedas, escaladas em penhascos, corridas em alta velocidade e desafios extremos reúnem pessoas dispostas a testar o próprio limite. Enquanto uma parte da população evita qualquer situação potencialmente perigosa, outra tem forte atração por experiências de alto risco, descrevendo-as como intensas, libertadoras ou profundamente estimulantes. Porém, esse fascínio pela adrenalina não é um fenômeno isolado, mas um comportamento que chama a atenção de pesquisadores da psicologia, da neurociência e da biologia evolutiva há décadas.

Estudos recentes indicam que a busca por risco não pode ser explicada apenas por imprudência ou falta de noção de perigo. Afinal, ela envolve um conjunto complexo de fatores. São eles: diferenças individuais na forma como o cérebro processa medo e recompensa, traços de personalidade específicos, influências culturais e até estratégias evolutivas relacionadas à sobrevivência do grupo. Ao mesmo tempo em que essas experiências podem trazer satisfação e sensação de conquista, também levantam questionamentos sobre os limites entre desafio saudável e exposição desnecessária a perigos.

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Em diferentes partes do mundo, saltos de paraquedas, escaladas em penhascos, corridas em alta velocidade e desafios extremos reúnem pessoas dispostas a testar o próprio limite – depositphotos.com / skyantonio
Em diferentes partes do mundo, saltos de paraquedas, escaladas em penhascos, corridas em alta velocidade e desafios extremos reúnem pessoas dispostas a testar o próprio limite – depositphotos.com / skyantonio
Foto: Giro 10

Fascínio humano pelo risco: o que a ciência entende sobre isso?

A expressão fascínio humano pelo risco costuma aparecer em reportagens sobre esportes radicais, apostas financeiras arrojadas ou aventuras em ambientes extremos. Pesquisas em psicologia descrevem esse comportamento como parte de um traço conhecido como busca de sensações. Eles se caracteriza pela procura deliberada de experiências novas, intensas e, muitas vezes, arriscadas. Assim, pessoas com esse perfil tendem a se sentir mais motivadas em contextos de incerteza e menos satisfeitas com rotinas previsíveis.

Para a neurociência, essa atração não é apenas psicológica, mas também química. Assim, situações desafiadoras ativam circuitos cerebrais ligados à recompensa, especialmente em áreas como o estriado e o córtex pré-frontal. Quando o indivíduo se depara com um risco calculado — como encarar uma onda gigante no surfe ou percorrer uma trilha íngreme em alta montanha — o cérebro passa a avaliar, em frações de segundo, a combinação entre ameaça e possível recompensa, seja ela simbólica, social ou emocional.

Por que o risco pode gerar prazer? O papel da adrenalina, dopamina e endorfina

Quando o corpo identifica uma situação de ameaça ou alta intensidade, o sistema nervoso desencadeia uma resposta conhecida como "luta ou fuga". A glândula suprarrenal libera adrenalina, hormônio que acelera os batimentos cardíacos, aumenta a pressão arterial e prepara o organismo para reagir rapidamente. Essa descarga é comum em esportes de aventura, saltos de bungee jump, corridas de downhill e outras modalidades de alta velocidade.

Em paralelo, entra em ação a dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de recompensa e motivação. Assim, estudos mostram que, para algumas pessoas, a combinação entre risco percebido e superação de um desafio gera um aumento significativo na liberação de dopamina, o que reforça o desejo de repetir a experiência. Já as endorfinas atuam reduzindo a sensação de dor e promovendo bem-estar físico após o esforço intenso. Isso é algo frequentemente relatado por praticantes de esportes de endurance, como maratonas em ambientes extremos ou travessias em longas distâncias.

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Esse trio de substâncias cria um ciclo poderoso. Ou seja, o indivíduo encara o risco, sente medo e excitação, supera o desafio e, na sequência, experimenta uma sensação de alívio e prazer que pode ser interpretada como recompensa. Por isso, em pessoas mais sensíveis a esses picos neuroquímicos, a tendência é que a busca por situações de alta adrenalina se torne parte importante do estilo de vida.

Quem tende a buscar mais risco? Personalidade, idade e diferenças individuais

Nem todos reagem da mesma forma diante de um penhasco, de um avião aberto a milhares de metros de altura ou de uma pista escorregadia. A literatura científica descreve diferenças marcantes na busca por emoções intensas. Elas são influenciadas por fatores como genética, desenvolvimento cerebral e experiências de vida. Ademais, traços de personalidade ligados à abertura ao novo, impulsividade controlada e tolerância à frustração costumam estar associados a uma maior propensão a assumir riscos calculados.

A idade também desempenha papel relevante. Assim, estudos com imagens cerebrais apontam que, na adolescência e no início da vida adulta, o sistema de recompensa é especialmente responsivo à novidade e ao reconhecimento social. Por sua vez, regiões ligadas ao controle inibitório ainda estão em maturação. Isso ajuda a explicar por que muitos praticantes de esportes radicais começam cedo, em modalidades como skate, parkour, escalada urbana ou ciclismo de montanha em trilhas técnicas.

Ao mesmo tempo, há adultos mais velhos que continuam — ou passam a — buscar desafios de alta intensidade, como ultramaratonas em desertos, travessias oceânicas em caiaque ou expedições de montanhismo em grandes altitudes. Nesses casos, o risco costuma ser mais planejado, com maior atenção a equipamento, preparo físico e avaliação de cenários. Ou seja, sugerindo uma combinação entre necessidade de desafio e maior capacidade de cálculo.

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Como o cérebro processa medo, perigo e sensação de conquista?

Quando uma pessoa se aproxima de uma borda para um salto de paraquedas ou se posiciona para uma manobra em um paredão de rocha, estruturas cerebrais como a amígdala entram em ação. Essa região atua como um "detector de ameaça", disparando sinais que podem gerar medo, alerta e cautela. Em paralelo, o córtex pré-frontal avalia informações do ambiente, a experiência prévia e o nível de controle percebido. Assim, modula a resposta de pânico ou de enfrentamento.

Pesquisas indicam que indivíduos acostumados a situações de risco tendem a apresentar uma regulação diferente desse circuito. O medo não desaparece, mas é interpretado de outra forma. Assim, em vez de ser visto apenas como algo a evitar, passa a ser entendido como parte do desafio. Após a execução da atividade — um salto bem-sucedido, a chegada ao topo de uma montanha ou a conclusão de uma descida técnica em uma trilha — o cérebro reforça o aprendizado com uma forte sensação de conquista. Ou seja, associando esforço, perigo controlado e resultado positivo.

  • Em esportes radicais, o medo funciona como sinal de atenção, permitindo ajustes rápidos.
  • Em aventuras ao ar livre, a leitura correta do ambiente reduz riscos desnecessários.
  • Em desafios cotidianos, como mudanças de carreira ou empreendimentos, o mesmo circuito de medo e recompensa participa das decisões.

De esportes radicais ao cotidiano: onde o fascínio pelo risco aparece?

O fascínio humano pelo risco não se limita a saltos de penhasco ou voos de wingsuit. Afinal, ele também se manifesta em contextos menos visíveis, como decisões financeiras arrojadas, escolha de trajetos mais perigosos no trânsito, negociações profissionais ousadas ou desafios sociais que envolvem exposição pública. Em todos esses casos, a pessoa lida com a incerteza, calcula ganhos e perdas e, muitas vezes, sente excitação semelhante à relatada em atividades esportivas extremas.

Nos esportes de aventura, esse comportamento aparece em práticas como:

  • Escalada em rocha e montanhismo em alta altitude.
  • Surfe em ondas grandes e kitesurfe em condições de vento extremo.
  • Downhill de bicicleta, esqui fora de pista e motocross em trilhas técnicas.
  • Corridas de aventura e provas de resistência em ambientes isolados.

Já no dia a dia, a atração pelo risco pode surgir em atitudes como aceitar trabalhos em áreas desconhecidas, realizar investimentos de alto risco sem garantia de retorno ou enfrentar conversas difíceis que podem mudar relações pessoais. A mesma lógica se aplica: quanto maior o risco percebido e maior a sensação de capacidade para lidar com ele, maior a chance de o cérebro ativar seus sistemas de recompensa em caso de resultado favorável.

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Quando o corpo identifica uma situação de ameaça ou alta intensidade, o sistema nervoso desencadeia uma resposta conhecida como “luta ou fuga” – depositphotos.com / vampy1
Foto: Giro 10

Risco, evolução e formas distintas de expressão

Do ponto de vista da biologia evolutiva, comportamentos de risco podem ter desempenhado funções estratégicas ao longo da história da espécie humana. Em determinados contextos, indivíduos dispostos a explorar territórios desconhecidos, caçar presas mais perigosas ou liderar grupos em situações críticas podiam contribuir para a sobrevivência e o sucesso do coletivo. A disposição para o risco, portanto, não seria um traço aleatório, mas uma característica distribuída de forma variada na população.

Na sociedade contemporânea, essa mesma tendência encontra novos cenários: em vez de florestas inexploradas, há ambientes corporativos competitivos, projetos de inovação tecnológica, empreendimentos de alto impacto e desafios esportivos planejados. Em todos esses campos, a busca por adrenalina e por experiências intensas continua presente, mas se manifesta de maneiras distintas, indo de atividades recreativas controladas a decisões que podem alterar trajetórias de vida.

Para pesquisadores, compreender o fascínio humano pelo risco ajuda a diferenciar entre comportamentos saudáveis de desafio — que envolvem preparo, análise de perigos e responsabilidade — e exposições desnecessárias que podem levar a danos significativos. Entre o medo paralisante e a imprudência total, existe um amplo território onde parte da população encontra motivação, sentido e sensação de realização ao enfrentar, de forma calculada, seus próprios limites físicos e emocionais.

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