A genética pode influenciar muito na forma como lidamos com a comida! 🧬 Estudos mostram que genes impactam nosso apetite, saciedade e até a busca por alimentos mais gostosos. Ainda assim, fatores como ambiente e hábitos também pesam bastante. Descubra como esses elementos se combinam e como entender isso pode ajudar na saúde e no bem-estar. 🍴
Entenda como fatores genéticos podem influenciar a relação com a comida e por que isso vai muito além da falta de disciplina durante as celebrações
Pamonha, canjica, bolo de milho, pé de moleque e quentão. As festas juninas são sinônimo de tradição, encontros e mesas repletas de sabores que fazem parte da memória afetiva dos brasileiros. Mas, enquanto algumas pessoas conseguem parar na primeira fatia de bolo, outras sentem dificuldade em resistir a mais uma porção. O que pouca gente sabe é que essa relação com a comida pode estar ligada à compulsão alimentar, condição influenciada não apenas por hábitos e emoções, mas também pela genética.
Estudos científicos indicam que fatores genéticos podem influenciar mecanismos relacionados ao comportamento alimentar, incluindo apetite, saciedade e predisposição à compulsão alimentar. Essa relação ganha relevância diante de evidências recentes que apontam o impacto desse transtorno na saúde da população. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Human Growth and Development mostrou que a compulsão alimentar é mais frequente do que se imagina e está associada a diversas doenças crônicas. A pesquisa, conduzida com quase 3 mil adultos da região metropolitana de São Paulo, identificou que 4,7% dos participantes apresentaram transtorno da compulsão alimentar periódica ao longo da vida, enquanto 9% relataram episódios recorrentes de compulsão alimentar.
Mulheres e adultos sofrem mais
Os resultados também apontaram maior prevalência da condição entre mulheres e adultos mais jovens. Além disso, indivíduos com compulsão alimentar apresentaram taxas mais elevadas de hipertensão, dores crônicas, artrite, doenças pulmonares e distúrbios gastrointestinais. Segundo os autores, os achados reforçam a importância da identificação precoce e do acompanhamento adequado dos transtornos alimentares, considerando seus impactos tanto na saúde mental quanto na saúde física e na qualidade de vida.
Já uma revisão científica publicada em 2024 na Nutrients destaca que determinados genes desempenham papel importante na regulação do apetite, do metabolismo e do acúmulo de gordura corporal. Entre eles estão variantes do gene FTO, associadas à maior ingestão calórica e ao comer emocional. O gene MC4R está relacionado aos mecanismos de saciedade e ao controle do peso corporal. Já genes como DRD2 e OPRM1 atuam no sistema de recompensa cerebral e podem influenciar a busca por alimentos altamente palatáveis. Estudos também investigam variantes específicas, como FTO rs9939609, MC4R rs17782313 e CLOCK rs1801260. Essas variantes estão associadas a diferenças na regulação do apetite, no comportamento alimentar e na resposta aos estímulos de recompensa relacionados à comida.
O que a genética revela sobre a compulsão alimentar
"Nas últimas décadas, os avanços da genética permitiram compreender melhor por que algumas pessoas apresentam maior suscetibilidade a determinados comportamentos alimentares. Hoje sabemos que variantes em genes relacionados ao controle da fome, da saciedade e dos mecanismos de recompensa cerebral podem influenciar a forma como cada indivíduo responde aos estímulos alimentares. No entanto, é importante destacar que essas características atuam em conjunto com fatores ambientais e comportamentais. A genética não determina o comportamento alimentar, mas ajuda a explicar diferenças individuais que podem contribuir para uma abordagem mais personalizada da saúde e da nutrição", afirma Gustavo Guida, geneticista da Dasa Genômica e do laboratório Sérgio Franco, no Rio de Janeiro.
O poder do ambiente nas "recompensas alimentares"
Além dos fatores genéticos, o ambiente exerce forte influência sobre o comportamento alimentar. Uma revisão de escopo sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde mostrou que o consumo frequente desses produtos está associado ao aumento da ingestão calórica. A exposição constante também está relacionada ao ganho de peso e a desfechos metabólicos desfavoráveis. Em um estudo clínico randomizado conduzido pelo NIH, participantes que consumiram principalmente alimentos ultraprocessados ingeriram, em média, 508 calorias a mais por dia. O valor foi comparado ao de indivíduos que seguiram uma dieta baseada em alimentos minimamente processados. Após apenas duas semanas, os participantes apresentaram ganho médio de 0,9 kg. Os resultados reforçam como a combinação entre predisposição biológica e ampla oferta de alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio pode favorecer episódios de compulsão e excessos alimentares.
Pesquisas em neurociência demonstram que alimentos ricos em açúcar e gordura ativam circuitos cerebrais ligados à recompensa. Esse processo estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor associado às sensações de prazer e motivação. O mecanismo ajuda a explicar por que determinados alimentos despertam desejo intenso. Ele também pode levar algumas pessoas a continuarem comendo mesmo após atingirem a sensação fisiológica de saciedade.
"Hoje sabemos que a genética pode influenciar diferentes mecanismos relacionados ao comportamento alimentar. Algumas variantes genéticas afetam a produção de hormônios ligados à fome e à saciedade, enquanto outras atuam diretamente nos circuitos cerebrais de recompensa. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas sentem mais dificuldade para interromper o consumo de alimentos ricos em açúcar e gordura ou apresentam maior tendência ao comer emocional. A genética não determina comportamentos. Mas pode aumentar ou reduzir a suscetibilidade a determinados padrões alimentares", explica Ricardo Di Lazzaro, médico doutor em Genética e fundador da Genera, marca da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
Em conjunto com fatores emocionais, comportamentais e ambientais, essas características podem influenciar a percepção da fome e da saciedade. Elas também afetam a forma como cada pessoa responde aos estímulos alimentares do dia a dia. Esse efeito pode ser ainda mais evidente em ambientes com grande oferta de alimentos altamente palatáveis.
Estratégias para prevenir a compulsão alimentar
"Na prática, testes genéticos podem ajudar a identificar variantes associadas a aspectos. Como saciedade, preferência alimentar, metabolismo energético e maior suscetibilidade a padrões de comportamento alimentar. Essas informações não servem para prever escolhas individuais nem para determinar diagnósticos. Mas podem complementar a avaliação clínica e nutricional, contribuindo para estratégias mais personalizadas e realistas para cada pessoa", afirma Giovana Hirata, nutricionista do Alta Diagnósticos, marca premium da Dasa.
"Comer vai muito além da necessidade biológica. A alimentação envolve aspectos culturais, emocionais e sociais que fazem parte da nossa história. Durante as festas juninas, por exemplo, muitos alimentos típicos estão associados a lembranças afetivas, encontros familiares e momentos de celebração. Quando esses fatores emocionais se somam a mecanismos biológicos ligados ao prazer e à recompensa, a experiência alimentar se torna ainda mais complexa. Por isso, compreender o papel da genética e do ambiente ajuda a promover uma relação mais consciente e equilibrada com a comida, sem culpa ou restrições excessivas", finaliza Ricardo.