Enquanto ajustava um grampo no arranjo de uma das dançarinas para o concurso de quadrilhas do Centro de Tradições Nordestinas (CTN), na zona oeste de São Paulo, a dona de casa Tábata Nascimento interrompeu o trabalho por alguns segundos para acompanhar uma jogada de Vinicius Júnior no telão. É uma cena que resume o sábado, 13, na capital paulista: um olho na festa junina, outro na estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026.
Em vários pontos da cidade, os tradicionais arraiais ganharam um ingrediente extra neste ano. Além das bandeirinhas, comidas típicas e apresentações de quadrilha, telões foram instalados para transmitir a partida do Brasil, numa tentativa de unir duas paixões nacionais.
No CTN, nem todos estavam ali principalmente pelo futebol. A aposentada Lourdes Lameu, frequentadora das festas do espaço há duas décadas, manteve a tradição de comparecer ao evento independentemente do calendário esportivo.
Já o técnico em estamparia Wellington Melo Oliveira, de 47 anos, acredita que a festa junina leva vantagem na disputa pela atenção do público. "Para mim, a festa junina ganha. É uma das maiores expressões da cultura nordestina", afirmou o alagoano.
Mas a disputa foi equilibrada. A própria Tábata pediu para conversar com o Estadão apenas no intervalo. Dois torcedores disseram que não queriam falar naquele momento porque estavam nervosos.
Mesmo entre os participantes das quadrilhas, a partida dividia atenções. Enquanto ensaiavam os últimos passos antes da apresentação, dançarinas acompanhavam de relance os lances exibidos no telão instalado no espaço.
Segundo Christiane Abreu, presidente do CTN, a decisão de transmitir o jogo partiu da ideia de reunir dois dos principais elementos da cultura popular brasileira. "Decidimos unir as duas paixões dos brasileiros: futebol e festa junina", afirmou.
A organização estimava entre 4 mil e 5 mil pessoas acompanhando a partida no local, que recebe em média 13 mil visitantes ao longo do dia durante a temporada junina.
O local possui 45 estabelecimentos gastronômicos entre barracas, quiosques e restaurantes, oferecendo desde quitutes típicos até pratos da culinária nordestina.
Confusão com GCM no Largo da Batata
No Largo da Batata, em Pinheiros, a combinação entre arraial e futebol também atraiu público ao longo do sábado. Antes mesmo da partida do Brasil, a exibição do jogo entre Suíça e Catar dividia espaço com apresentações musicais.
Ao som de xote e forró do grupo Pé de Moleque, casais e frequentadores dançavam em frente ao palco enquanto acompanhavam o telão. Foi uma espécie de esquenta para o jogo da seleção.
O gestor de franquias Fabio Gomes, de 46 anos, circulava pelo evento com chapéu e óculos verde e amarelos. "Agora, o clima está bem familiar. Vamos para um lugar mais agitado", disse, ao deixar o espaço no início da tarde em direção à Vila Madalena.
Outros escolheram o arraial pela praticidade. A estudante de jornalismo Débora Costa, de 21 anos, saiu de Suzano e enfrentou cerca de duas horas de deslocamento até a estação Faria Lima para participar da festa. "Gosto de grandes eventos, dessa energia de gente reunida".
A cuidadora Val Reis, de 44 anos, preparou um figurino sintetizava a proposta: blusa xadrez vermelha e preta combinada com acessórios verde e amarelos.
O início da noite, no entanto, teve momentos de tensão. Guardas da GCM e servidores da Prefeitura de São Paulo tentaram impedir a exibição da estreia da seleção brasileira em um telão. Houve princípio de confusão e corre-corre. Não há registro de feridos.
Servidores alegam que os organizadores, da plataforma Botecagem, não teriam alvará de realização do evento. Os organizadores, por sua vez, exibiram o documento no telão que exibia a partida.
O arraial reuniu cerca de 50 expositores de comidas típicas, com opções que iam de milho cozido e espetinhos a releituras de pratos tradicionais. O espaço tem capacidade para até 6 mil pessoas simultaneamente e, segundo os organizadores, preparou reforço nas equipes de operação e atendimento para o dia da estreia do Brasil.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que o evento citado pela reportagem possui Alvará de Autorização para a realização da "Festa Junina no Largo da Batata". No entanto, a autorização concedida pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento restringe-se à realização de atividade gastronômica.
Em vistoria realizada neste sábado, a Subprefeitura de Pinheiros constantou a instalação irregular de um telão, equipamento não previsto nas condições autorizadas para o evento.
Diante da irregularidade, a Subprefeitura disse que fiscais atuaram no local para coibir o desvirtuamento da autorização concedida e assegurar o cumprimento das condições estabelecidas. "Os responsáveis serão autuados pelo descumprimento dos termos da autorização emitida", reforçou.