Vorcaro diz à PF que BC recomendou venda do Master ao BRB; nega fraude ou facilitação política

23 jan 2026 - 17h19
(atualizado às 17h23)

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, disse à Polícia Federal que a Diretoria de Fiscalização do Banco Central recomendou a venda da sua instituição ao Banco de Brasília (BRB), mas negou no depoimento qualquer tipo de "facilitação política" ou fraude no caso, de acordo com íntegra da oitiva vista pela Reuters.

A delegada da PF Janaína Palazzo, que conduziu o interrogatório, questionou se, caso Vorcaro fosse presidente do BRB, ‌tentaria comprar um "banco que já lhe havia vendido, mais de uma vez, carteiras de crédito falsas".

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Na resposta, Vorcaro negou que o Master tivesse vendido carteiras de crédito falsas para o Banco de Brasília, e disse que ‌se comandasse o BRB efetivaria o negócio ao considerar que isso permitiria a uma instituição regional "a possibilidade de crescer, ter uma abrangência nacional e competir com grandes bancos brasileiros".

Nesse momento, Vorcaro destacou que a operação fora até mesmo recomendada por auditorias e pela própria área técnica do BC.

"Então, eu faria, sim, esse negócio. Aliás, esse negócio foi recomendado por diversas auditorias, pela própria fiscalização do Banco Central, que naquele momento, até antes da gente dar entrada, indicava como sendo um bom negócio para o sistema financeiro", afirmou.

O Banco Central não respondeu de imediato a pedido de comentário sobre as declarações de Vorcaro em seu depoimento.

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Vorcaro fez essas declarações ‍no dia 30 de dezembro de 2025 durante depoimento prestado no Supremo Tribunal Federal (STF).

O Banco Master foi alvo de liquidação extrajudicial decretada pelo BC em 18 de novembro, e, no mesmo dia, seu dono chegou a ser preso em uma operação deflagrada pela PF para investigar suspeita de fraudes bilionárias. Vorcaro posteriormente foi solto, mas cumpre medidas cautelares.

Em setembro, o BC havia rejeitado a compra do Master pelo BRB, que fora anunciada em março, após concluir análise acerca da capacidade financeira da instituição para fazer frente ao negócio.

A delegada questionou o banqueiro se haveria uma ‌crise de liquidez financeira do Master. Ele reconheceu que existia uma crise, que não era de hoje, mas ressaltou que seu banco "sempre foi solvente, sempre ‌teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro".

"E essa crise de liquidez, há de se ressaltar, e está no próprio relatório do Banco Central, foi criada por duas coisas, por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos, que mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o mercado se julga dono ali do fundo que é criado justamente para criar competição no mercado. Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC", justificou.

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Em vários momentos do depoimento, Vorcaro negou a existência de uma fraude bancária de R$12 bilhões em operações de venda de créditos do Master ao BRB, que é alvo de investigação da PF.

SEM FACILITAÇÃO

Em outro momento do depoimento, a delegada da PF perguntou se Vorcaro havia procurado "algum dos seus amigos políticos" para viabilizar o negócio com o BRB, a exemplo do governador de Brasília, Ibaneis Rocha.

Na ocasião, o dono do Master disse que, se tivesse tantas relações políticas e pedido ajuda desses políticos a operação do Master com o BRB não teria sido negada pelo BC, e ele não estaria com tornozeleira eletrônica nem teria sido preso.

Vorcaro também afirmou que não teve "facilitação política" no caso. Ele admitiu, entretanto, que esteve com o governador de Brasília "algumas vezes" porque Ibaneis era o controlador indireto do BRB, mas assegurou que nunca tratou de nada com ele sobre o banco "que não fosse técnico".

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Vorcaro disse que até a véspera da liquidação do Master o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, atuou com "diligência normal" no caso, ao ser questionado se ele teria falhado no cumprimento do seu dever de supervisão prudencial.

"Não. Na verdade, eu acredito que a área de fiscalização presidida pelo senhor Ailton até o momento do dia 17 atuou com a diligência normal, porque eram debatidos diariamente os pontos com relação tanto ao Banco Master, quanto à negociação do BRB, quanto às carteiras", disse.

Em nota publicada nesta sexta-feira, o BC afirmou que seu diretor de Fiscalização coordenou a identificação de inconsistências em operações de cessão de carteiras de crédito do Master ao BRB, tendo promovido "rigorosas investigações" que demonstraram problemas nesses ativos.

O jornal O Globo noticiou nesta ‌sexta que Aquino teria enviado mensagens ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, pedindo que comprasse carteiras do Banco Master para ajudar a instituição a resolver problemas de liquidez.

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Em nota à imprensa, a autarquia disse que Aquino "obviamente jamais recomendou a aquisição de carteiras fraudadas".

"O diretor Ailton de Aquino coloca à disposição do Ministério Público Federal e da Polícia Federal suas informações bancárias, fiscais e dos registros das conversas que realizou com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, renunciando, para essa finalidade, ao sigilo sobre elas incidente", destacou o Banco Central.

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