Guilherme Arantes: 'Penso que ainda posso me tornar um songwriter mundial'
Lançando o álbum 'Interdimensional', o cantor e compositor, que comemora 50 anos de carreira, pensa em deixar 'canções para o futuro' e prepara versões em inglês de hits como 'Um Dia, Um Adeus'
Uma imagem bastante solidificada de Guilherme Arantes é a dele no palco do festival MPB-Shell, em 1981, no Maracanãzinho, em uma performance catártica de Planeta Água, a canção que ficou em segundo lugar naquela competição. Quem já foi a uma apresentação do artista sabe que esse tipo de sentimento se repete quando ele canta seus hits. Um cara do palco, diriam, sem hesitar.
O curioso é que Arantes afirma não gostar tanto assim do palco - não confundir com não gostar do público. Assim como Planeta Água não fala de escassez, significado que atribuíram à canção, mas sim de abundância. Tudo é imagem.
"Sempre gostei da questão fonográfica, de ver o Ray Charles gravando. A parte do show business sempre foi acessória para mim, assim como era para os Beatles. Mas a indústria [dos shows] foi avançando em importância e, atualmente, é o que interessa, o que dá dinheiro", diz o compositor.
Por isso, o momento de lançar um álbum, como Interdimensional, que acaba de chegar às plataformas e também em CD e vinil duplo, é tão libertador para Arantes.
São 15 faixas autorais e inéditas em sua voz, com as quais ele também celebra 50 anos de carreira, desde que sua angústia em Meu Mundo e Nada Mais foi acolhida pelo público.
O álbum foi feito entre Ávila, na Espanha, onde Arantes mora parte do ano, e Salvador, sua casa brasileira, entre junho de 2023 e outubro de 2025. No outro continente, livre da pressa do dia a dia e dos compromissos de carreira, pôde "burilar" letras e melodias. Surgiu até uma valsa, Luar de Prata, que tem participação da cantora Mônica Salmaso no canto e do músico Teco Cardoso na flauta.
A bossa nova como porto seguro
Na balada A Vida Vale a Pena, Arantes reencontrou um antigo parceiro, Nelson Motta - é a única faixa que ele não assina sozinho. O trecho "luzes que se acendem outra vez clareando a escuridão" remete à parceria mais conhecida deles, Coisas do Brasil, a neo bossa com a qual eles conquistaram as rádios em 1986. Antes de gravar, ele e Motta ofereceram a música para Marisa Monte, mas a cantora estava envolvida com a turnê Phonica, de caráter retrospectivo.
A bossa, aliás, é o porto seguro de Arantes. "É a matriz mais rica da música brasileira. O Tom Jobim é um cara fora da curva, um gênio, boa gente. Nunca houve um sucesso mundial tão convincente quanto Jobim. É algo como ocorreu com a beatlemania e o rock britânico", diz.
No álbum há três faixas que o compositor anteriormente entregou para três grandes cantoras brasileiras: Puro Sangue (para Gal Costa), Berceuse (para Alaíde Costa) e O Prazer de Viver Para Mim É Você (para Claudette Soares).
"Em Berceuse, eu coloquei piano, que na gravação da Alaíde não tem", explica sobre a música que ele considera inspirada no Romantismo. "Com um gosto de absinto", completa. Os arranjos de cordas são de Jacques Morelenbaum, mesmo músico que gravou em Amanhã, sucesso de Arantes em 1977.
Puro Sangue, a que Gal lançou em 2018, ganhou versão menos balançada do que a feita pela cantora. E há uma curiosidade: Arantes, no passado, enviou a canção para Caetano Veloso. "Ele disse que a letra estava linda, que não mexeria em nada", conta.
Para Arantes, Puro Sangue e Minúcias trazem temas semelhantes: em tempos em que tudo parece ser imposto, é ideal poder escolher "qual a fonte dos nossos desejos", como diz a primeira, e ter uma vida mais "compartida" do que compartilhada, como indica a segunda, alheia ao estranhamento de olhares de terceiros.
Arantes já ensaia para a turnê com a qual vai comemorar as cinco décadas de carreira - a estreia será em São Paulo, em 7 de março. Já há datas agendadas para Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Belém, Porto Alegre, Manaus, Brasília, entre outras cidades. Os ensaios já começaram e incluem músicas como o sucesso Amanhã e as novas A Vida Vale a Pena e Minúcias.
Arantes divide a música brasileira em eras. Em sua análise, há os pré-glaciais, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina e Roberto Carlos. "Houve uma glaciação. Eles foram tombados pela paleontologia da música", opina.
O corte é 1968, para ele. Depois, vieram "os mamíferos menores, que sobreviveram, que somos eu, Alceu Valença, Luiz Melodia, Djavan, Simone, Moraes Moreira, Oswaldo Montenegro, Fábio Jr., Renato Teixeira etc".
O compositor afirma que faz música para a posteridade. Elas podem ser (re) descobertas no futuro, como ocorre com Belchior, diz.
"Belchior não usufruiu do sucesso em vida", aponta. Ele conviveu com o compositor cearense, morto em 2017, e define o amigo como um "estoico". "Ele era trágico, tinha um estranhamento com o mundo que se radicalizou [nos últimos anos de vida]. Uma piração pessoal também", interpreta, sobre o comportamento de Belchior.
Olhando para o futuro, Arantes prepara versões em inglês de suas canções, como de Um Dia, Um Adeus, de 1987, que flerta com o erudito. "Ficou um assombro de linda! Penso que ainda posso me tornar um songwriter mundial. Não tem a ver com a minha vaidade. A minha obra é compatível com isso". Ele sonha com Adele, por exemplo.
Por falar em planos internacionais, ele rechaça com humor a habitual comparação que fazem entre ele e Elton John. "Ele não faz letra. Para ficar parecido comigo, Elton John precisa começar a escrever", brinca.
"Sou bem feliz com a vida", diz Arantes, 72 anos, que nos últimos anos passou por duas cirurgias no quadril e um cateterismo. Se ele tem alguma 'reclamação', é algo ligado estritamente à música.
"O Roberto Carlos podia me chamar para tocar piano no especial dele. Quero prestar serviço a ele. Ia ser lindo. Mas ele prefere levar o Jão para cantar Me Lambe na cara dele. Aí não dá", diz o compositor, que foi gravado por Roberto no passado.
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