O volume do setor de serviços no Brasil caiu 0,1% em agosto, frustrando expectativas do mercado que previam alta de 0,5%. O recuo foi puxado por quedas em transportes (-0,2%), pressionado pelas passagens aéreas e combustíveis, e outros serviços (-1,0%), enquanto serviços às famílias subiram 2,1%. Apesar do resultado acumulado no ano ser positivo em 1,7%, o setor mostra acomodação e opera 0,3% abaixo do seu ápice histórico, sinalizando estabilidade para o Produto Interno Bruto no terceiro trimestre.
RIO E SÃO PAULO - O volume de serviços prestados caiu 0,1% em agosto ante julho, na série com ajuste sazonal, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada nesta quarta-feira, 14, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou abaixo da mediana das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam alta de 0,5%, com projeções que variavam de queda de 0,5% a avanço de 1,3%.
Na comparação com agosto de 2025, o volume de serviços cresceu 0,6%, descontada a inflação, abaixo da mediana das expectativas, de alta de 1,5%. As estimativas para essa base de comparação variavam de 0,3% a 2,6%. No acumulado de janeiro a agosto, o setor registra expansão de 1,7%. Em 12 meses, a alta é de 2,2%. A receita bruta nominal do setor avançou 0,2% em agosto ante julho e cresceu 6,1% na comparação com o mesmo mês do ano passado.
Das cinco atividades pesquisadas pelo IBGE, três tiveram queda em agosto. Outros serviços recuaram 1,0%, enquanto transportes e serviços profissionais, administrativos e complementares caíram 0,2% cada. Os resultados eliminaram integralmente ou em parte os ganhos registrados em julho.
Na direção oposta, os serviços prestados às famílias avançaram 2,1%, no segundo crescimento consecutivo, acumulando alta de 2,9% no período. O segmento de informação e comunicação apresentou estabilidade.
Passagens aéreas pressionam transportes
O setor de transportes, que tem o maior peso entre as cinco atividades pesquisadas pelo IBGE, é a principal fonte de pressão negativa sobre o volume total de serviços em 2026. Em agosto, o segmento recuou 0,2% ante julho. O principal fator de pressão é o transporte aéreo de passageiros, afetado pelo aumento dos preços das passagens e por uma base de comparação elevada, após o maior fluxo de passageiros registrado em 2025.
"O transporte aéreo é o item do transporte que mais pressiona negativamente o setor como um todo", afirmou Rodrigo Lobo, gerente da PMS.
Em menor escala, correio, logística de transporte e, em alguns meses, transporte rodoviário de carga também contribuem para o desempenho mais fraco do segmento.
No transporte rodoviário de carga, a pressão vem principalmente da alta do óleo diesel, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, e dos preços dos pedágios. Esses componentes são utilizados pelo IBGE para deflacionar a receita das empresas e calcular a evolução real da atividade.
"O óleo diesel, a gente sabe que tem tido um tipo de crescimento, uma impulsão da guerra (...). E a parte de pedágio, individualmente, em algumas unidades da federação, tem tido algum tipo de pressão também", disse o gerente.
Além dos transportes, o segmento de outros serviços também contribuiu para o resultado negativo de agosto, com queda de 1,0%. Já os serviços profissionais, administrativos e complementares recuaram 0,2%, enquanto os serviços prestados às famílias avançaram 2,1%, sustentados pelo segundo resultado positivo consecutivo.
Setor segue próximo do recorde
O volume de serviços ficou 0,3% abaixo do recorde da série histórica, registrado em outubro de 2025, quando a atividade avançou 0,3%. Apesar da perda de fôlego, o setor permanece 19,9% acima do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020.
Segundo Lobo, a atividade tem alternado variações positivas e negativas próximas de zero desde que atingiu o pico histórico. O comportamento reflete uma acomodação do setor, sem uma trajetória claramente descendente, com os movimentos de alta e baixa se compensando ao longo do período.
"Desde que alcançou o topo da série, em outubro de 2025, o setor de serviços vem mostrando, na maior parte das vezes, variações muito próximas da estabilidade, sejam positivas ou negativas, com exceção dos meses de março e abril. Em março, (o setor) caiu 1% e, em abril, cresceu 1,2%. Mas as duas taxas se anulam, e é como se fosse um zero a zero", afirmou.
Lobo ressaltou, porém, que o resultado agregado esconde diferenças importantes entre as atividades. Segmentos como tecnologia da informação, telecomunicações, serviços profissionais, administrativos e complementares e restaurantes mantêm um ritmo de crescimento, enquanto transportes e outros serviços contribuem para conter o desempenho geral.
Questionado sobre a influência de fatores macroeconômicos, como juros, preços e renda, na acomodação da atividade, o pesquisador afirmou ser difícil estabelecer uma relação direta entre essas variáveis e o comportamento de um setor tão heterogêneo.
"É impossível você traçar uma variável única ou um conjunto de variáveis para explicar um setor tão heterogêneo como o setor de serviços", disse.
Segundo o gerente, parte do dinamismo observado nos últimos anos está associada a mudanças estruturais no comportamento de empresas e famílias no período pós-pandemia, como o aumento da demanda por tecnologia da informação, plataformas digitais, aplicativos e serviços de streaming.
Efeitos no PIB
Na avaliação do Bradesco, o resultado indica perda de dinamismo do setor e sugere que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha ficado próximo da estabilidade no terceiro trimestre. Para o ano fechado de 2026, a estimativa do banco é de alta de 1,7%.
O Bradesco aponta ainda que os serviços seguem praticamente parados desde setembro do ano passado, o que tem levado à desaceleração da variação interanual, de 3,7% no fim de 2025 para 0,6% em agosto de 2026. O carrego estatístico indica estabilidade do setor no terceiro trimestre, após alta de 0,4% no segundo trimestre.
Para o Itaú, o resultado não altera de forma relevante a perspectiva para o crescimento da atividade no terceiro trimestre de 2026.
A instituição pondera que o IDAT-Atividade - índice de atividade do Itaú - sugere alguma devolução dos serviços às famílias em setembro, após o avanço observado na PMS desta quarta-feira. O Itaú calcula que o carrego estatístico para o terceiro trimestre para o setor de serviços é de estabilidade e crescimento de 1,3% para serviços prestados às famílias.