Pesquisa científica impulsiona criação de 'deep techs' no Rio Grande do Sul

Parques tecnológicos e centros de pesquisa incentivam novos negócios e formação de profissionais

14 out 2026 - 12h36
Resumo
O Rio Grande do Sul se consolidou como o segundo maior polo de "deep techs" do Brasil, reunindo 97 empresas de base científica avançada em áreas como nanotecnologia e semicondutores. Impulsionado por 24 parques tecnológicos e forte tradição acadêmica, o Estado atrai grandes investimentos e multinacionais ao integrar pesquisas universitárias a demandas do mercado corporativo. Casos como o da BlueNano ilustram como descobertas laboratoriais estão gerando soluções comerciais de alto impacto.

Criada a partir de uma pesquisa conduzida por professores de física da PUC-RS, as empresa BlueNano usa nanotecnologia para modificar materiais em escala atômica e criar componentes que podem tornar, por exemplo, baterias mais eficientes e aprimorar processos químicos. A companhia é apenas um exemplo de um fenômeno crescente no mercado do Rio Grande do Sul, as deep techs.

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O Estado tem 97 deep techs e é o segundo com mais empresas deste tipo do Brasil, atrás apenas de São Paulo, que tem 467, segundo o Deep Tech Radar Latam 2025. Esse tipo de empresa é baseado em pesquisa científica e tecnologias avançadas que buscam transformar descobertas de laboratório em produtos e processos comerciais.

Elas atuam em áreas como nanotecnologia, semicondutores, biotecnologia, computação e robótica, por exemplo. Muitas nascem dentro de universidades e centros de pesquisa. É o caso da BlueNano, instalada hoje no Tecnopuc, parque tecnológico da PUC.

Fundada em 2019, a companhia utiliza física aplicada e nanotecnologia para depositar átomos de forma controlada sobre a superfície de materiais em pó.

Um dos projetos desenvolvidos pela empresa busca acelerar a conversão de etanol em hidrogênio. "O que antes levava dias, hoje conseguimos fazer em poucas horas", exemplifica Sérgio Bastian, diretor de operações da companhia, que atende grupos como Petrobras, Vale e WEG Motores, além de centros de pesquisa internacionais.

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Outra frente de pesquisa quer melhorar o desempenho de baterias com o uso de carbono e nióbio. "Se a capacidade de uma bateria dobrar, o mundo inteiro muda. Para alcançar isso, é preciso parar de trabalhar do jeito tradicional e pensar em como tornar isso possível", diz Bastian.

Universidade forma profissionais e aproxima empresas

O Tecnopuc concentra parte dessa conexão entre universidade e empresas. Instalado em uma área de 11,5 hectares, o parque tecnológico da PUCRS já apoiou mais de 1,2 mil startups e mantém parcerias com mais de 320 companhias, entre elas a Dell e a Microsoft. Além de abrigar startups, o parque atua na aproximação entre pesquisadores, empreendedores e empresas.

"A principal bandeira do parque é conectar o conhecimento produzido na universidade com o desenvolvimento de negócios inovadores", diz Flavia Fiorin, diretora do Tecnopuc. O parque também promove rodadas de negócios entre startups, investidores, empresas e parceiros internacionais.

A aproximação com investidores é especialmente relevante para as deep techs, que geralmente exigem mais tempo e recursos para transformar uma tecnologia de laboratório em produto comercial. "O foco do capital investidor não está em simplesmente buscar 'startups de oportunidade de mercado', mas, sim, empresas de base científica com potencial para inovação", explica Fiorin.

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Parque tecnológico da PUCRS já apoiou mais de 1,2 mil startups e mantêm parcerias com mais de 320 companhias
Parque tecnológico da PUCRS já apoiou mais de 1,2 mil startups e mantêm parcerias com mais de 320 companhias
Foto: Giordano Toldo/Divulgação/Tecnopuc / Estadão

O Rio Grande do Sul conta com 24 parques tecnológicos, entre unidades em operação e em implantação, segundo dados da Rede Gaúcha de Ambientes de Inovação (Reginp). De acordo com Rafael Prikladnicki, presidente da Invest RS, agência de promoção de investimentos no Estado, este ecossistema ajuda a formar mão de obra qualificada, um ativo bastante valorizado.

"A densidade de talentos da região não surgiu de um dia para o outro. É um Estado com tradição histórica de formação acadêmica, abrigando uma das maiores concentrações de mestres e doutores do Brasil. As empresas querem gente boa para trabalhar", diz Prikladnicki.

Pesquisa e desenvolvimento

A combinação de pesquisa, formação profissional e indústria aparece no setor de semicondutores, que tem ganhado novos investimentos no Estado.

Em 2023, a empresa de encapsulamento e testes de chips HT Micron anunciou um investimento de R$ 105 milhões para ampliar a operação. Em 2025, a Tellescom assinou um protocolo de intenções para instalar em Cachoeirinha uma nova fábrica de semicondutores com R$ 1 bilhão de investimento.

Nesse ecossistema, o Instituto Tecnológico de Semicondutores (Itt Chip), ligado ao Tecnosinos, atua na formação de pesquisadores e profissionais para o setor.

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O Itt Chip reúne pesquisadores da instituição e especialistas cedidos pela indústria para apoiar estudantes de mestrado e pesquisa acadêmica nas áreas de eletrônica, física e engenharia de materiais. "Desenvolvemos projetos em parceria com a iniciativa privada ou órgãos do setor", explica Gustavo Willmann, coordenador administrativo do grupo.

Ele explica que essas parcerias geralmente são estruturadas com base em programas governamentais e leis de incentivo à tecnologia, como a Lei da Informática e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores e Displays (PADIS). Entre os parceiros estão HT Micron, Tellescom e a Novus, empresa de automação industrial.

"A prestação dos serviços gera recursos que financiam a manutenção de infraestruturas e a concessão de bolsas", diz Larissa Oliveira, decana da Escola Politécnica da Unisinos.

Pesquisa aplicada vira solução para empresas

Outro exemplo é o Itt Oceaneon, da Unisinos, que pesquisa a evolução geológica e biológica dos oceanos e as mudanças climáticas. O instituto executa projetos de pesquisa e desenvolvimento e presta serviços tecnológicos para empresas e órgãos públicos. Entre os projetos estão trabalhos desenvolvidos com a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP).

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Micropaleontogo analisa um fóssil de milhões de anos para verificar a idade dele e a idade da rocha de onde ele é proveniente
Foto: Divulgação/ITT Oceaneon/Unisinos / Estadão

A estrutura é usada para analisar rochas, sedimentos e microfósseis e reconstruir condições ambientais e climáticas do passado, além de estudar a evolução de bacias sedimentares. Entre os projetos está o Paleoclima, desenvolvido com a Petrobras, que busca reconstruir condições de bacias sedimentares e aprimorar modelos sobre sistemas petrolíferos.

"A pesquisa não acontece de forma isolada. Os estudantes têm a oportunidade de trabalhar diretamente nos Itts, vivenciando a interface com a indústria e resolvendo problemas reais", explica Oliveira.

A aproximação entre pesquisa e mercado também gera empresas dentro da própria universidade. Um exemplo é a SBPA Simulators, que constrói simuladores de voo para jatos, helicópteros e aviação comercial, e emprega estudantes universitários em sua equipe.

Esse ecossistema também atrai multinacionais. A SAP, uma das maiores empresas de software empresarial do mundo, escolheu o Tecnosinos para instalar um centro de inovação, em um investimento superior a R$ 100 milhões.

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"Temos um escritório em São Paulo para fazer negócios; a Pesquisa e Desenvolvimento é em Porto Alegre", justifica William Gibk, diretor de estratégias e operações da companhia.

O repórter viajou para Porto Alegre a convite da Invest RS

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