Pesquisa da Ipsos revela que a proximidade dita a confiança profissional no Brasil, onde professores, cientistas e médicos lideram a credibilidade, enquanto políticos, influenciadores e ministros figuram como os mais desacreditados. O levantamento destaca variações de gênero e geração nessa percepção e avaliou, de forma inédita, chatbots de inteligência artificial, que ainda enfrentam 40% de desconfiança por serem vistos como uma tecnologia relativamente nova.
Quanto maior a proximidade do brasileiro com uma determinada profissão, maior é o nível de confiança nela. É o que revela a nova edição do Monitor Global de Confiança nas Profissões da Ipsos, obtida com exclusividade pelo Estadão. No ranking dos mais bem avaliados, professores, cientistas e médicos lideram o topo como os mais confiáveis entre os brasileiros, enquanto políticos, influenciadores e ministros de governo estão entre as categorias mais desacreditadas.
O levantamento consultou mais de 23 mil pessoas em 31 países. No Brasil, a pesquisa ouviu 1 mil pessoas. No cenário global, cientistas, professores e médicos também são os mais confiáveis, mas em uma ordem diferente da registrada no Brasil. A desconfiança em relação a políticos e influenciadores também se repete na média global.
De acordo com Márcia Cavallari, diretora de pesquisa da Ipsos, o nível de confiança está diretamente associado ao contato que as pessoas têm com esses profissionais. "Confiança é um ativo que mede a reputação. Quanto mais confio, mais defendo. Então a confiança surge da experiência das pessoas e pelo que ouvem falar", afirma.
Isso explica o pódio das profissões mais confiáveis no Brasil, diz Cavallari. A população costuma ter contato diário com médicos e professores. Já os cientistas, embora menos presentes de forma direta na rotina das pessoas, ganharam visibilidade durante a pandemia na divulgação de informações sobre o vírus e as vacinas.
Na edição de 2021, por exemplo, os cientistas dividiram a liderança com os professores. Ambas as categorias registraram 68% de confiança, segundo a Ipsos.
Professores têm maior confiança entre as mulheres
A pesquisa aponta diferenças entre homens e mulheres na avaliação das profissões mais bem colocadas no ranking brasileiro. Entre as mulheres, 60% afirmam confiar nos professores, ante 51% dos homens. Cavallari afirma que a diferença perpassa por uma questão de gênero. "Elas são as que mais vão à escola conhecer os professores dos filhos", diz.
No caso dos cientistas, 56% das mulheres dizem confiar na categoria, contra 49% dos homens.
A relação se inverte quando são analisadas as categorias com maior nível de desconfiança. Entre os homens, 69% dizem não confiar nos políticos, ante 62% das mulheres. Para ministros de governo, os percentuais são de 61% entre os homens e 53% entre as mulheres. Já em relação aos influenciadores de redes sociais, a desconfiança chega a 60% entre os homens e a 54% entre as mulheres.
A confiança também varia de acordo com a geração das pessoas entrevistadas. A categoria de professores tem o melhor resultado entre a geração Z e os baby boomers. Ao todo, 60% dos entrevistados de ambos os grupos dizem confiar nesses profissionais.
Entre os cientistas, os maiores índices aparecem entre os millennials, com 54%, e a geração Z, com 53%. Já os médicos são mais bem avaliados pelos baby boomers, entre os quais 60% afirmam confiar na classe. Millennials e Gen Z aparecem empatados, com 54%.
A desconfiança em relação à política também se destaca entre os mais velhos. Os baby boomers são os mais desconfiados dos políticos em geral, com 71%, e dos ministros de governo, com 63%. Entre os millennials, os influenciadores de redes sociais despertam a maior desconfiança: 59% dizem não confiar nos criadores de conteúdo.
Pela primeira vez, o levantamento da Ipsos também investigou o grau de confiança das pessoas entrevistadas com chatbots de inteligência artificial. No Brasil, 25% afirmam confiar nas ferramentas, enquanto 40% dizem não confiar. Na média dos 31 países pesquisados, 23% consideram os chatbots confiáveis e 40% os classificam como não confiáveis.
"A IA também gera desconfiança por ser uma ferramenta relativamente nova para os brasileiros", afirma Cavallari.
No mercado de trabalho, o grau de confiança em uma profissão pode influenciar desde a escolha de uma carreira até a atração de talentos pelas empresas, afirma Joca Correia, acrescentando que as profissões socialmente respeitadas podem despertar o interesse de quem busca reconhecimento e pertencimento. "No centro de toda decisão está a emoção. Escolher uma carreira é escolher quem queremos ser e como queremos ser vistos", afirma.
Nas organizações, a confiança depende da coerência entre o discurso institucional e a experiência dos funcionários. "Talentos hoje escolhem onde trabalhar pela percepção de verdade, de propósito e de cuidado", diz. "No fim das contas, as pessoas não confiam em cargos, confiam em gente."
Já para Andrea Krug, especialista em gestão e liderança, uma profissão respeitada não significa que seja atrativa. "Professor é um ótimo exemplo. Pode ser uma profissão altamente respeitada e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades de atração e retenção por remuneração, condições de trabalho ou perspectiva de carreira", afirma. "A confiança contribui para a valorização de uma carreira, mas não resolve problemas estruturais da profissão", pondera.