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Inflação virou assunto menor na campanha

Em Brasília, uso do dinheiro é visto mais como um direito das autoridades do que como um meio de servir ao interesse público

20 out 2026 - 15h14
Resumo
Apesar de negligenciada na campanha eleitoral, a inflação acumulada em 12 meses atingiu 4,58% em setembro, superando o teto da meta de 4,50%. O cenário é agravado pela alta dos preços no atacado, crédito em expansão e consumo forte, elevando as projeções para além de 5%. Para conter os índices, os juros seguem altos, em 13,75%, o que trava investimentos produtivos. A solução fiscal via corte de gastos públicos, no entanto, esbarra em travas constitucionais e na falta de vontade política em Brasília.

Culpa do Trump e de suas guerras, dirão alguns, se tiverem disposição de comentar a inflação de 0,82% em setembro, 3,95% no ano e 4,58% em 12 meses. Talvez nem se acuse o presidente americano. Afinal, inflação tem sido um tema pouco examinado, ou discutido sem seriedade, no Brasil, na campanha eleitoral deste ano. Mas a alta de preços em 12 meses, medida pelo padrão oficial, já furou o teto da meta, 4,50%, e 2026 muito dificilmente vai terminar com um quadro menos desarrumado.

Não basta olhar esses números finais, medidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora nem toda alta de custos seja transferida ao varejo, convém dar uma espiada nos preços por atacado. Em setembro, houve aumento de 1,95% no Índice de Preços ao Produtor Amplo - Disponibilidade Interna (IPA-DI) calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). A variação foi de 3,55% no ano e de 3,33% em 12 meses.

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Combinados esses números, a expansão do crédito, o consumo vigoroso e as condições criadas pelo ambiente eleitoral, fica difícil imaginar, para o aumento dos preços ao consumidor, um resultado muito melhor que os 5,22% indicados no boletim Focus de 19 de outubro. Quatro semanas antes, a projeção, correspondente à mediana das estimativas, era 4,92%. Para 2027, o número projetado é 4,32%, pouco inferior ao teto da meta.

Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante debate
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante debate
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Apesar de alguma redução, os juros continuam muito altos pelos padrões internacionais. A taxa básica, ainda fixada em 13,75%, talvez ainda seja reduzida neste ano, mas a estimativa do mercado aponta 13,25% para o fim deste ano e 12% para o próximo. São custos financeiros incompatíveis com uma economia mais ativa e com maiores investimentos em meios de produção. Juros tão elevados podem atrair capitais especulativos, mas só isso.

Para frear a inflação e facilitar a redução dos juros, o governo poderia cortar e reorientar suas despesas, tornando mais eficiente a gestão das contas federais. Mas também o corte de gastos é complicado, porque uma parcela substancial da despesa, incluído o dinheiro destinado à educação e saúde, é regulada pela Constituição. Além disso, mexer nos custos de pessoal pode ser politicamente muito custoso.

A regulação constitucional de nenhum modo garante a eficiência das aplicações nos setores preferenciais. Mas esses detalhes acabam sendo irrelevantes no dia a dia de Brasília, quando o uso do dinheiro é visto mais como um direito das autoridades do que como um meio de servir ao interesse público.

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