Londres continua sendo a maior praça financeira da Europa, porém desde que o Reino Unido formalizou a saída do bloco europeu, milhares de instituições financeiras foram obrigadas a buscar um destino dentro das fronteiras da UE. Uma concorrência se estabeleceu entre Paris e Frankfurt, em primeiro plano, mas também Dublin, Milão, Luxemburgo e Amsterdã, as outras praças fortes em euro.
Indicadores como a atividade de mercado e a capitalização da bolsa mostram que a França foi a opção mais escolhida para a gestão de ativos, a instalação de filiais europeias e por empresas de tecnologia. Já a Alemanha foi preferida para as atividades ligadas à regulamentação e supervisão bancária, devido à presença do Banco Central Europeu em Frankfurt.
"Paris não substitui Londres, e também não domina tudo, mas está com vantagem na concorrência entre as grandes praças financeiras da Europa continental", resume Pascal de Lima, economista-chefe da consultoria Novaminds, em Paris. "Nem seria do interesse da Europa concentrar tudo em Paris. Uma grande praça financeira europeia é útil para fazer frente a Londres, Nova York e Cingapura, mas uma concentração excessiva criaria riscos. A melhor lógica europeia é uma rede de praças especializadas."
Metade das novas autorizações
Os mais recentes números da Autoridade de Controle Prudencial e de Resolução (ACPR), órgão de supervisão bancária e de seguros do Banco da França, indicam que, em 2025, Paris recebeu cinco vezes mais pedidos de autorização de instituições de crédito do que no ano anterior, e a metade de todas as solicitações feitas na zona do euro.
Entre elas, está o maior banco online da Europa, o Revolut, que fará da sede francesa o seu hub de operações em todo o continente. A gigante de stablecoins Circle também quer se estabelecer em Paris.
As escolhas não foram um acaso. A iminência do Brexit motivou uma série de reformas fiscais e trabalhistas na França para aumentar a atratividade da Cidade Luz, que em 2025 ultrapassou Tóquio e ficou na quarta posição no ranking de referência da Open Financial Ecosystem Index (OFEX). O índice estabelece as melhores praças internacionais, com base em 53 critérios.
Estratégia de atração
"As reformas ajudaram claramente, embora não expliquem tudo", avalia Lima. "A queda do imposto sobre as empresas de 33% para 25%, a criação de um regime fiscal único sobre os rendimentos do capital, a reforma do Direito do Trabalho, a estratégia Choose France e o próprio discurso de Emmanuel Macron, mais favorável às empresas, melhoraram a imagem e a previsibilidade do mercado francês junto aos bancos e investidores internacionais", indica.
Antes dessa movimentação, Paris já dispunha de uma presença sólida de bancos sistêmicos, na gestão de ativos e infraestruturas de mercado em torno da sua bolsa de valores, com grandes empresas cotadas. Também oferece um ecossistema de novas tecnologias dinâmico, além de ser um polo de formação de talentos financeiros e tecnológicos de alto nível.
O dinamismo do setor financeiro nos últimos anos beneficia a economia francesa, com efeitos como aumento da arrecadação e atração de investimentos - nos últimos seis anos, a França foi o principal destino de investimentos estrangeiros na Europa, segundo a EY.
A criação de postos de trabalho qualificados é outra vantagem, com traders, juristas, auditores, profissionais de dados e de cibersegurança encontrando um mercado favorável na França. O banco americano JP Morgan Chase hoje tem 1.000 colaboradores em Paris, quatro vezes mais do que antes do Brexit.