O sumiço do trabalhador: dificuldade para contratar virou realidade incômoda para o empresário

País ainda forma mal e pouco, mas isso não basta para explicar o fenômeno: há um desalinhamento que envolve incentivos distorcidos, fragilidade institucional e mudança cultural

9 fev 2026 - 22h11

A dificuldade para contratar se tornou uma realidade incômoda para o empresário no Brasil. Os relatos sobre ausência de candidatos e alta rotatividade tornaram-se frequentes, com estudos mostrando que não se trata apenas de percepção. Em março de 2025, dados do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) apontaram que mais de 80% das empresas da construção relatavam dificuldade para preencher vagas. No comércio ampliado, esse número se aproxima de 77%.

Seria razoável atribuir o problema à baixa qualificação. De fato, o País ainda forma mal e pouco, especialmente em áreas técnicas. Mas isso não basta para explicar o fenômeno. O que se percebe é um desalinhamento mais amplo, que envolve incentivos distorcidos, fragilidade institucional e uma mudança cultural nos formatos de trabalho.

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O Brasil tem uma das maiores taxas de rotatividade do mundo. Parte disso se deve a uma legislação que acaba recompensando a ruptura. O saque do FGTS, por exemplo, é tratado como benefício, quando do desligamento sem justa causa. Soma-se a isso uma informalidade crônica, que atinge mais de 40% da força de trabalho. Outrossim, há o efeito indireto de benefícios sociais que, embora relevantes como proteção, tendem a distorcer incentivos, freando a transição para inserções produtivas na força de trabalho. Tudo isso reforça o caráter transitório das relações de trabalho e enfraquece o interesse pela permanência.

Mais de 80% das empresas da construção relatavam dificuldade para preencher vagas em 2025, segundo estudo
Mais de 80% das empresas da construção relatavam dificuldade para preencher vagas em 2025, segundo estudo
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Nesse contexto, investir em formação contínua torna-se arriscado para as empresas, que, sem garantias de permanência, acabam recuando no aprimoramento técnico do seu capital humano. Com isso, perde-se conhecimento interno, a produtividade cai, surgem atrasos, retrabalho e perda de padrão. Não obstante, os salários ainda sobem acima da inflação, na tentativa de reter profissionais.

Há, por fim, o componente geracional, já que muitos jovens evitam funções operacionais, mesmo quando formalizadas. Empregos com rotina, subordinação direta e presença física passaram a ser vistos com desdém. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele se agrava por causa do hiato educacional.

É nesse ponto que surge uma contradição que precisa ser enfrentada. Enquanto países ricos avançam para setores de alta complexidade, o Brasil ainda carece de uma infraestrutura sólida. Faltam serviços essenciais que exigem mão de obra técnica e operacional e uma economia emergente não se sustenta rejeitando o tipo de trabalho do qual ainda depende. Nesse descompasso, o País perde capacidade de produzir, entregar e crescer.

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