A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central em manter os juros em 15% tem de entrar no centro do debate econômico. Afinal, a escolha tem efeitos sobre investimento, crédito, produção e confiança. Insistir em juros elevados aumenta o ambiente de retração dos investimentos que atinge toda a economia, da indústria ao agronegócio.
Os reflexos dessa decisão são visíveis. O crédito reduziu, o custo do capital ficou inviável e a previsibilidade desapareceu. Foi nesse ambiente econômico adverso que as manchetes sobre uma suposta "crise no agronegócio" ganharam espaço. Segundo o Serasa Experian, 8,3% dos produtores rurais estavam inadimplentes no terceiro trimestre de 2025, acima dos 7,4% registrados no mesmo período de 2024 e dos 6,1% de 2023. O número pode ser real, mas é um erro interpretar os dados ignorando o contexto econômico e geopolítico e transferindo ao produtor rural a responsabilidade por um cenário que ele não controla.
Os custos elevados desde o início da guerra na Ucrânia, os preços das commodities sem reação e a restrição de crédito explicam o avanço da inadimplência. Isso não é só visto no Brasil. Nos Estados Unidos, os produtores enfrentam o terceiro ano consecutivo de prejuízos, reportou recentemente a Associação Americana da Soja. A safra 25/26 norte-americana deve ser a mais cara da história estadunidense, enquanto os preços recebidos pelos agricultores estão pressionados. Tanto é que Trump anunciou um pacote de ajuda ao setor agrícola.
Fora do agro, a incerteza é igual. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o Índice de Confiança do Empresário Industrial atingiu 48,5 pontos em janeiro, o pior resultado para o mês em dez anos. Outra sondagem da CNI mostra que 80% dos empresários apontam os juros altos como o maior entrave para o acesso ao crédito, reprimindo investimentos e contratações.
Podemos concluir que o problema não é setorial, mas sistêmico. Juros elevados encarecem o crédito e reduzem a capacidade de pagamento e de investimento. No campo, os efeitos são potencializados pelas adversidades climáticas (afinal, a agropecuária é uma indústria a céu aberto), custos logísticos e protecionismo.
A narrativa do "agronegócio em crise" é perigosa. Tira o foco das decisões macroeconômicas que precisam ser tomadas e transfere a responsabilidade para um setor essencial para a economia do País. O agronegócio brasileiro é competitivo, pujante e eficiente. A crise está na gestão econômica, que é incompatível com o potencial deste País.