Na Febraban Tech, especialistas destacaram que os bancos dependem cada vez mais de inteligência artificial para antecipar ciberataques velozes e volumosos. Contudo, a tecnologia também arma criminosos, que usam IA para aprimorar a engenharia social, criando golpes personalizados e convincentes. Diante desse cenário, a supervisão humana e a conscientização dos usuários continuam sendo peças fundamentais na defesa contra fraudes que exploram o comportamento para burlar sistemas avançados.
Se, no futebol, uma defesa eficiente é aquela que chega sempre antes do atacante, na cibersegurança — principalmente dentro dos bancos — a lógica é parecida. Com uma diferença importante. Em vez de sofrer um gol, a instituição pode ficar horas fora do ar, amargar prejuízos milionários e ainda enfrentar um dano difícil de mensurar à própria imagem.
"Um ataque que antes precisava de uma semana para ser montado agora dura cinco minutos. E isso porque o atacante pega informações públicas na internet", afirma Átila Batista, gerente executivo de Cybersecurity do Banco do Brasil.
Uma defesa eficiente, segundo os debatedores que participaram do segundo dia de painéis da Febraban Tech 2026, nesta terça-feira, 25, não pode mais abrir mão da inteligência artificial.
A automação tornou-se necessária diante do volume de informações que circulam diariamente pelo ambiente digital e da velocidade com que novas ameaças surgem. No Banco do Brasil, segundo Batista, são analisados bilhões de eventos por dia. "IA na cibersegurança não é novidade, mas a evolução dos processos é", diz.
Apesar do avanço da automação, a questão humana continua sendo fundamental, segundo Leopoldo Soares, gerente de ambiente do Banco do Nordeste. Isso não significa, porém, deixar de lado as ferramentas de IA. Ao contrário. "A IA é usada algumas vezes para isolar máquinas com comportamentos não usuais", afirma.
O problema é que algumas decisões de segurança podem afetar diretamente a produtividade de uma empresa. Por mais sofisticados que sejam os sistemas defensivos, portanto, determinadas situações ainda precisam de supervisão humana, concorda Batista. "A gestão de vulnerabilidade mudou. Os modelos estão mais maduros e a margem de erro é pequena. As soluções de segurança, muitas vezes, estão mais à frente das de TI", afirma.
O atacante também usa IA
Mesmo com sistemas cada vez mais automatizados, os atacantes continuam marcando gols. Uma onda recente de ataques contra grandes empresas financeiras nos Estados Unidos mostra que uma das principais vulnerabilidades pode estar justamente entre a cadeira e o computador.
No início do mês, a Apollo Global Management confirmou uma invasão em que criminosos usaram engenharia social, técnica que consiste em manipular pessoas para que forneçam informações ou realizem ações capazes de abrir uma brecha nos sistemas. Os invasores conseguiram acesso a um ambiente de nuvem da companhia. O episódio fez parte de uma sequência de ataques contra instituições financeiras e gestoras, com criminosos recorrendo a telefonemas e outras formas de abordagem para contornar sistemas sofisticados de proteção.
A inteligência artificial aumenta o risco. Ferramentas de IA permitem produzir mensagens, vozes e identidades falsas muito mais convincentes, além de automatizar a coleta de informações sobre funcionários e vulnerabilidades. O objetivo deixa de ser necessariamente quebrar uma barreira tecnológica e passa a ser convencer alguém a abrir a porta. Uma mensagem fraudulenta pode ser personalizada com informações reais sobre a empresa, imitar a maneira de falar de um chefe ou até reproduzir sua voz.
A fronteira entre tecnologia e comportamento humano, portanto, fica cada vez mais difícil de separar. "Todo o nosso trabalho também passa, por exemplo, a convencer o cliente de que ele não deve achar normal comprar uma passagem para Disney por R$ 600. Isso nem sempre é fácil", explica Soares, do Banco do Nordeste.