Indústria de cosméticos para cabelos aposta em produtos de proteção contra danos climáticos

Extremos do clima, como ondas de calor, têm influenciado lançamentos de linhas permanentes de reparação, incluindo filtro solar

27 fev 2026 - 10h11

Empresas de cosméticos para cabelos no Brasil têm se esforçado em fazer da proteção ou reparação contra danos climáticos um hábito. Com o aumento de extremos climáticos, como maior exposição ao sol devido a ondas de calor em qualquer estação do ano, o setor reforça o portfólio com linhas de produtos diversos que prometem agir contra esses efeitos.

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No final de 2025, marcas conhecidas da indústria capilar lançaram simultaneamente produtos com esse tipo de função, com o diferencial de serem linhas permanentes e não edições limitadas. Entre as consultadas pelo Estadão, Dove (da Unilever), Amend, Bio Extratus e Widi Care desenvolveram cosméticos para cabelos com ativos que prometem desde proteção solar até ação antipoluição.

Lançamento recente da Amend contra danos solares nos cabelos
Lançamento recente da Amend contra danos solares nos cabelos
Foto: Amend/Divulgação / Estadão

De acordo com as empresas, o movimento de mercado mais alinhado à urgência climática atende a duas frentes: primeiro, a uma demanda ainda emergente, mas existente, de consumidores interessados em proteger os fios dos efeitos ambientais; segundo, e mais incisivo, à antecipação de um potencial interesse de novos consumidores pela proteção climática como diferencial nesse tipo de produto.

"Há uma demanda crescente por produtos que acompanham mudanças no estilo de vida e nas condições ambientais. Ao mesmo tempo, existe uma antecipação baseada em dados científicos e em tendências de consumo", diz a diretora de marketing de Beauty&Wellbeing da Unilever, Mariana Martins. "O consumidor está mais atento aos efeitos do ambiente no cabelo e busca cuidados contínuos, não apenas soluções pontuais."

Para atender a essa demanda, a Dove lançou no ano passado uma linha com quatro cosméticos voltados para reforçar a resistência dos fios frente aos danos causados pelos raios ultravioleta (UV), com forte divulgação desde então.

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"A proteção capilar tende a ganhar relevância no mercado de haircare (cuidado capilar). Assim como a fotoproteção se consolidou no cuidado com a pele, o cabelo deve seguir o mesmo caminho. O avanço das mudanças climáticas e a maior exposição ao sol reforçam a busca por produtos que unem estética e saúde capilar no longo prazo", opina.

Já com a Bio Extratus, a aposta foi em produtos contra agentes poluentes, em uma linha com cinco itens que chegou às lojas em novembro passado. A diretora industrial de desenvolvimento de produto da companhia, Janaina Gomes, afirma que tanto o clima extremo quanto o aumento de radiação UV já têm feito parte do planejamento do setor de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da empresa.

O potencial de crescimento desse segmento de produtos, segundo ela, "é altíssimo", mas há o desafio de investimento. O desenvolvimento desses itens exige um aporte maior das empresas que estão apostando nessa demanda. Sem revelar valores, ela fala que há diferença em relação aos custos de outras linhas.

"O desenvolvimento costuma ser mais caro que o de uma linha tradicional, devido aos testes de eficácia que são necessários para comprovar a ação do produto", explica Gomes.

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No caso da Amend, que já fez produtos com proposta de proteção solar anos atrás, a busca é por estimular o uso contínuo do seu filtro solar para cabelos, lançado no final de 2025. Para tornar o uso habitual, a estratégia da empresa tem sido equilibrar custos de inovação para que eles não representem um impacto significativo no preço final para o consumidor.

"As ondas de calor e a maior recorrência de dias de calor extremo mudaram a relação do consumidor com a exposição ao sol, que deixou de ser algo associado apenas a lazer ou férias. Hoje, o impacto é cotidiano, urbano e acumulativo", afirma a gerente sênior de desenvolvimento de produtos da Amend, Lucimar Brum.

Para ela, é esse contexto que reforça a percepção de que o cabelo precisa de proteção contínua, ajudando a impulsionar a demanda. "Agora, a tendência é que produtos de proteção solar capilar deixem de ocupar um espaço sazonal e passem a integrar a rotina diária."

Da pele para o cabelo

A doutora em Farmácia Carine Dal Pizzol, professora da Pós-Graduação em Gestão de Negócios e Inovação em Beleza da ESPM, explica que a indústria cosmética costuma trabalhar com demandas por ciclo, e atualmente o ciclo em evidência está sendo o de trazer elementos antes restritos aos cuidados com a pele para os produtos capilares. Nesse sentido, a prevenção aos danos climáticos, especialmente os solares, tem ganhado espaço.

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"É uma tendência das empresas cada vez mais trazer mais benefícios da pele para o cabelo. No clima, há muita umidade que dá 'frizz' no cabelo, baixa umidade que dá porosidade, alta radiação solar que desbota os fios. (E os produtos) vieram para ficar, não são edição limitada. Então, isso significa que (o benefício climático) já virou um pré-requisito de um produto para o cabelo."

Ela pondera que, por enquanto, não há uma padronização regulada dos níveis de proteção desses produtos, e as marcas da indústria da cosmética capilar ainda realizam cada uma a sua metodologia de testes instrumentais, indicando os resultados e efeitos esperados nos rótulos.

Com essa indicação nos produtos capilares, a especialista acredita que órgãos reguladores, como a Anvisa, devem se posicionar em breve no sentido de criar alguma metodologia específica para esses itens.

Procurada pela reportagem, a Anvisa não respondeu sobre o tema até a publicação da matéria. No entanto, o "Manual de Regularização de Protetores Solares", publicado pelo órgão em 2024, explicita que ainda não há metodologia para medida de proteção solar para cabelo e que não é permitido que produtos regulados com fator de proteção solar para pele (FPS) comuniquem que a proteção se estende aos fios.

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"Produtos com FPS não devem ser indicados para proteção do cabelo, pois podem induzir o consumidor a erro, uma vez que não há metodologia para avaliar FPS para o cabelo, apenas para a pele", diz trecho do documento.

Carine Dal Pizzol é professora da Pós-Graduação em Gestão de Negócios e Inovação em Beleza da ESPM,
Foto: ESPM/Divulgação / Estadão

Embora haja um potencial de crescimento na venda e uso desses produtos, é necessário diferenciar proteção para pele e proteção capilar, frisa Pizzol. "O protetor solar na pele é questão de saúde pública, se não usar, pode se desenvolver um câncer. Já o cabelo é um fio morto, então o efeito de uso é estético."

"Falando especificamente do povo brasileiro, a nossa população é muito vaidosa. Então, acredito que haverá (interesse) similar ao protetor da pele por produtos de proteção capilar, mas com essa grande diferenciação, que não podemos deixar achar que é tudo igual (em termos de utilidade)."

Urgências climáticas

A antecipação do mercado capilar está atenta às possíveis demandas das urgências climáticas, como, por exemplo, as ondas de calor. Dados do observatório europeu Copernicus confirmaram que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado na história. E não há previsão de alívio este ano, uma vez que o órgão sinalizou que o ano de 2026 já teve o quinto janeiro mais quente.

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Esses dados, segundo o gerente de branding da Widi Care, Jonathan Modesto, confirmam cientificamente o que as pessoas já vêm sentindo na pele e nos cabelos. Para ele, o cuidado capilar atual não pode mais ignorar os fatores ambientais, visto que "as mudanças climáticas são uma realidade que impacta diretamente o estado dos fios".

Linha "Lá vem o sol", da Widi Care
Foto: Widi Care/Divulgação / Estadão

A empresa teve como último lançamento de 2025 uma linha com três produtos capilares para esse fim. "(A linha) não foi concebida apenas para o verão, mas como uma resposta à necessidade de proteção diária em um mundo mais quente. A consumidora brasileira já entende que o mesmo sol que danifica a pele também afeta o cabelo. No entanto, como marca, também temos o papel de antecipar tendências e educar o mercado."

De acordo com Modesto, o segmento de proteção capilar contra danos ambientais deve se tornar uma categoria chave no mercado de beleza, tão importante quanto hidratação ou reconstrução. "O futuro do cuidado capilar é, sem dúvida, um futuro protegido."

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