Globo promove grande reestruturação e troca três diretores do alto escalão

Novas áreas são criadas para otimizar gestão; executivos de saída do grupo foram procurados, mas não responderam à reportagem

4 set 2026 - 22h58
Resumo
O Grupo Globo anunciou uma grande reestruturação que resultou na saída de três diretores do alto escalão: Manuel Belmar, Manuel Falcão e Pedro Garcia. A reorganização visa integrar áreas e focar no digital, ocorrendo após a emissora perder a exclusividade da Copa do Mundo de 2026, enfrentar forte concorrência da CazéTV e registrar desaceleração no Globoplay. Como parte das mudanças, Amauri Soares unificará a gestão da TV Globo e dos Estúdios Globo, enquanto novos líderes assumem setores estratégicos.

O grupo Globo anunciou nesta sexta-feira, 4, uma ampla reestruturação em seu organograma e no alto escalão. Vão deixar o grupo os executivos Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura; Manuel Falcão, diretor de marca e comunicação; e Pedro Garcia, diretor de aquisição de direitos. As mudanças fazem parte de uma reorganização da estrutura da empresa, que busca integrar áreas, ampliar a atuação digital e tornar a operação mais ágil.

As saídas ocorrem em meio a repercussões sobre a negociação dos direitos da Copa do Mundo deste ano e a desaceleração dos negócios de streaming e TV paga. Segundo reportagem da Veja, a perda do pacote integral de jogos do Mundial de 2026 teria sido decisivo na saída de Manuel Belmar. Procurados, os diretores não responderam à reportagem.

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Fontes próximas à empresa confirmaram ao Estadão que um dos principais motivos para as mudanças teria sido a estratégia adotada pela Globo na negociação dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026. De forma inédita, a emissora preferiu não comprar o pacote integral e ficou com metade dos jogos para exibição em TV aberta e por assinatura. No ambiente digital, porém, a CazéTV comprou o direito de todos os 100 jogos e, posteriormente, renegociou a distribuição de suas transmissões com plataformas como Disney+ e Prime Video (além do YouTube).

A Globo, por sua vez, transferiu direitos para NSports e SBT. A emissora da família Silvio Santos montou uma equipe com nomes de destaque, entre eles Galvão Bueno e Tiago Leifert, ampliando a concorrência pela audiência da Copa.

O desempenho mais fraco da emissora nas transmissões da Copa também pesou. Para ter ideia, na Copa de 2022, a CazéTV, que virou a grande concorrente da Globo, estreou as transmissões na Twitch e no YouTube. De todo o público alcançado pelos jogos daquele Mundial pela televisão, a Globo alcançou 98% por meio da TV aberta e 22% da TV fechada, com o SporTV, segundo o Ibope.

Neste ano, a Globo caiu para 82% na televisão aberta e 15% na fechada, enquanto a CazéTV foi de zero a 44%. A Cazé empatou com o SBT e deixou SporTV, GE TV e N Sports para trás.

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A Globo foi parceira da Fifa por décadas, mas a relação estremeceu em 2021, quando, em meio à pandemia, quis renegociar os contratos de 2022 e 2026 para reduzir os pagamentos pelos direitos.

Escaldada, a rede deve tentar resgatar os 100% de direitos de TV aberta em 2030. A Fifa planeja nova concorrência para as diversas modalidades de transmissão.

Outro fator para as mudanças seria a estagnação do Globoplay - também sob gestão de Belmar. Apesar de ter tido seu primeiro lucro em 2025, a plataforma tem contribuído com participações menores na receita do grupo, com uma redução na venda de assinaturas diretas ao consumidor nos últimos dois anos.

Globoplay: estagnação nos resultados teria contribuído para reestruturação na direção
Globoplay: estagnação nos resultados teria contribuído para reestruturação na direção
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Por meio de dois comunicados enviados à imprensa, a cúpula da emissora defendeu os executivos dispensados, em contraposição à narrativa de desempenho ruim. O presidente do Grupo Globo e do conselho de administração do Grupo, João Roberto Marinho, afirmou que Manuel Belmar havia, há pelo menos dois anos, compartilhado com a empresa a decisão de encerrar sua jornada executiva. "Sua decisão deu início a um processo cuidadoso de transição, em consonância com a parceria de sucesso e confiança de mais de duas décadas de Belmar com a Globo."

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Em comunicado interno a funcionários, o diretor-presidente, Paulo Marinho, destacou ainda que repudia "as especulações com veemência" e que a decisão de renegociar os direitos do mundial de futebol havia sido tomada exclusivamente pelo conselho de administração, "como é praxe em deliberações de grande porte".

Essa defesa se refere ao fatiamento dos direitos digitais de transmissão. Segundo a revista Veja, foi Belmar que decidiu abrir mão da exclusividade da transmissão, negociando com empresas como SBT e CazéTV. A rede de canais no YouTube, gerida pela Live Mode, foi uma das que mais se destacaram nas transmissões do Mundial.

A reportagem do Estadão confirmou com funcionários da Globo, que pediram para não ser identificados, que o baixo desempenho na Copa teve efeito direto na reestruturação.

Segundo a empresa, porém, Belmar negociou sua saída e fica na Globo até o 1º trimestre de 2027. Falcão e Garcia teriam saído em outro contexto, mas "as especulações também sobre os motivos de ambos não procedem".

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Com a mudança, a Globo aproveita para mexer em sua estrutura de comando. Amauri Soares, que acumulava a TV Globo e os Estúdios Globo desde 2023 agora agora responderá por uma estrutura com as duas áreas unificadas.

O movimento representa a reversão de uma mudança anunciada por ele próprio em julho de 2025, quando comunicou numa postagem no LinkedIn que Leonora Bardini, executiva responsável pela área de programação da TV Globo, o sucederia na direção do canal. "Graças à formação dela como sucessora na TV eu poderei deixar de acumular duas posições executivas da empresa e, assim, me dedicar exclusivamente à gestão dos Estúdios Globo, onde ainda tenho bons anos de trabalho pela frente", escreveu Soares à época.

Já com a saída de Manoel Falcão, a emissora também anuncia a criação de uma nova área integrada de "consumidor, marketing e marca", com o diretor de valor social Cristovam Ferrara interinamente na posição, enquanto busca um novo executivo. Outra mudança é a criação da gestão de direitos, consolidando os setores de distribuição e de direitos, sob o comando de Fernando Ramos, no lugar de Garcia.

Júlia Rueff foi nomeada para a liderança de plataformas digitais, assumindo parte das atribuições de Belmar. Na estrutura corporativa, relações institucionais, jurídico e compliance migram para a holding do Grupo Globo.

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