BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que está aberto a reuniões com autoridades americanas, mas por enquanto não tem nada agendado para tratar da decisão do governo Donald Trump de designar como grupos terroristas as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
"Eu estou sempre aberto e tenho contato direto com as autoridades norte-americanas, mas por enquanto não (há agenda prevista). A gente está reunindo as informações, vendo o que vem pela frente, avaliando os próximos passos, tendo as informações todas, tendo o diagnóstico claro e a posição, eu vou levar para ao Scott Bessent (secretário do Tesouro dos EUA) sem nenhuma dúvida", disse Durigan a jornalistas na noite desta segunda-feira, 1º.
Ele disse que a principal preocupação do governo brasileiro é quanto ao espaço de discricionariedade que isso vai abrir, tornando empresas e bancos brasileiros alvos de algo que não é concreto. "Vamos seguir combatendo as organizações criminosas, nós temos insistido nesse ponto, e vamos evitar que tenha prejuízo irreal, fantasioso para a nossa economia, nós temos que evitar isso a todo custo, é uma grande injustiça", sustentou.
Durigan afirmou que os empresários brasileiros têm explicado ao governo quais são suas preocupações e que ele ouve as demais autoridades e também empresários que não integram o setor financeiro, para entender quais são os demais riscos.
"O ponto principal, o presidente (Lula) insistiu nisso agora, é proteger os nossos empresários, proteger os nossos empregos, as nossas instituições financeiras contra qualquer coisa que possa vir do exterior. O que vier do exterior para colaborar no combate ao crime organizado, ótimo, a gente sempre acha bem-vindo, o problema é quando quer atrapalhar, aí não dá."
Novo embaixador dos EUA no Brasil
Questionado sobre a designação do novo embaixador dos EUA no Brasil, ele respondeu: "Eu não vi, eu estava aqui olhando para o presidente, eu preciso checar aqui com a equipe agora, eu devia estar em despacho quando essa notícia veio, não tenho notícia, não tenho conhecimento".
A Casa Branca anunciou nesta segunda-feira a indicação de Daniel Perez para o cargo de embaixador dos EUA no Brasil. Perez é presidente da Câmara dos Deputados da Flórida e ainda precisará ter seu nome confirmado pelo Senado americano. Os EUA estavam sem embaixador no Brasil desde o governo Joe Biden.
Durigan relatou que o despacho que teve mais cedo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Alvorada, foi para tratar de temas da agenda econômica, como o resultado do PIB do 1º trimestre, e também de uma viagem que o ministro fará para a China no fim do mês.
"Foi um despacho econômico com o presidente sobre os principais pontos da nossa economia, sem grandes novidades por enquanto", afirmou, ao chegar na sede do ministério.
'O que nós não podemos admitir é faca no pescoço'
Durigan disse que o governo brasileiro tem conversado com o governo americano, depois da classificação de facções brasileiras como organizações terroristas, mas se queixou de que muitas vezes os americanos não dispensam ao Brasil a mesma deferência.
"Temos conversado com o governo norte-americano, muitas vezes não tem a reciprocidade da deferência, do diálogo", disse Durigan em entrevista no YouTube à revista Veja, na noite desta segunda-feira.
Ele lembrou de encontro realizado em maio entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington, na qual teria sido pedida cooperação entre as aduanas dos dois países. Segundo o ministro, o Departamento de Estado dos EUA não avisou com antecedência da designação feita sobre as facções brasileiras.
O ministro disse que, se alguém sofre com as facções brasileiras, não são os norte-americanos, "são os brasileiros e as brasileiras que vivem nas comunidades brasileiras". Em seguida, o ministro repetiu que tudo que puder ajudar no combate a essas organizações criminosas é bem-vindo. "O que nós não podemos admitir é faca no pescoço, é pressão indevida, intimidação", prosseguiu.
Durigan projetou que provavelmente vai haver mais taxas e tarifas bancárias e mais custos repassados dos EUA para o Brasil. Ele afirmou que as conversas que tem tido levam a crer que haverá impactos econômicos para o País. E completou falando da preocupação com os impactos de longo prazo na economia nacional, com aumento do risco país e menos atratividade para investimentos, incluindo prejuízos ao Pix.