Segundo a pesquisa Ipsos Rep360º, o agronegócio lidera a percepção de sustentabilidade no Brasil, com 51% de avaliações positivas, superando setores como energia e varejo. Essa melhora de imagem reflete a relevância econômica do setor, avanços em comunicação e inovações científicas, como o plantio direto e a fixação biológica de nitrogênio. Especialistas ressaltam, contudo, a necessidade de comprovar essas práticas sustentáveis com dados mensuráveis e combater infrações ambientais.
O agronegócio é o setor de economia brasileira com maior proporção de avaliações positivas quando se avalia a contribuição para o desenvolvimento sustentável, segundo a pesquisa Ipsos Rep360º. De acordo com os dados, 51% dos entrevistados consideram o setor com boa ou muito boa contribuição nessa área. Fica acima de setores como meios de pagamento (50%), alimentos e bebidas (49%), farmácias (49%), energia (47%), mídia e comunicação (47%), entretenimento (47%) e varejo eletrônico (47%).
De acordo com a Ipsos, a liderança do agronegócio em avaliações positivas é um dos achados mais relevantes do levantamento, sobretudo por se tratar de um setor frequentemente associado, no debate público, a controvérsias ambientais. "O resultado sugere que a percepção de sua importância econômica, da geração de empregos e de sua presença no cotidiano pode influenciar a avaliação do público sobre sua contribuição ao desenvolvimento sustentável", diz a empresa.
Quando se considera a diferença entre avaliações positivas e negativas, o agronegócio ocupa a sétima posição, com saldo de 32 pontos. Meios de pagamento lideram, com 39, seguidos por farmácias (38), alimentos/bebidas (36), entretenimento (35) e varejo eletrônico e mídia/comunicação (33). A mineração apresenta saldo de apenas dois pontos; já o setor de tabaco é o único com resultado fortemente desfavorável: 29 pontos negativos.
Para Mônika Bergamaschi, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (Abag/RP) e diretora da Abag nacional, esse resultado deve ser comemorado, sobretudo quando comparado à percepção que a sociedade tinha do produtor rural no passado. Ela lembra que a própria criação da Abag/RP, há 26 anos, foi motivada por uma pesquisa que identificou uma imagem ruim do setor.
"Naquela época, os produtores só não tinham uma visão pior da sociedade em relação a políticos e funcionários públicos". A partir desse diagnóstico, a entidade passou a trabalhar para mostrar a dimensão econômica e social do agronegócio, sua capacidade de geração de empregos, de arrecadar impostos e contribuir para o desenvolvimento do País.
Na avaliação de Mônika, a melhora da percepção pode ser atribuída a um conjunto de iniciativas de comunicação e educação promovidas por entidades representativas, empresas e instituições de pesquisa. "Temos mostrado que existe um agronegócio moderno, que trabalha para evitar incêndios, aplicar corretamente os defensivos, proteger as pessoas, os alimentos, a água e o meio ambiente".
Ela destaca, no entanto, que o Brasil não tem uma realidade agrícola uniforme. Enquanto algumas propriedades já utilizam tecnologias avançadas e sistemas de produção eficientes, outras ainda operam com métodos rudimentares. Considera também importante diferenciar os produtores que investem em sustentabilidade dos que cometem irregularidades. Para os casos de desmatamento ilegal, exploração de trabalhadores e outras práticas inadequadas, defende fiscalização e punições rigorosas.
A dirigente também pondera que a comunicação, embora fundamental, não resolve todos os problemas. Há práticas que precisam ser revistas e dificuldades relacionadas à legislação, à infraestrutura e às particularidades da atividade rural. Ela cita, por exemplo, a falta de produtos registrados para determinadas culturas, a demora nos processos regulatórios e a ausência de serviços básicos em algumas regiões agrícolas, como energia elétrica, telefonia e internet.
Tecnologia e ciência
Clenio Pillo, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), atribui a mudança de percepção, entre outros fatores, à trajetória da agricultura brasileira nos últimos 50 anos. O País, que na década de 1970 era um grande importador de alimentos, tornou-se um dos principais produtores e exportadores mundiais, com capacidade de abastecer o mercado interno e contribuir para a segurança alimentar de outros países.
Segundo ele, esse desempenho foi acompanhado pela construção de uma base científica e tecnológica que permitiu ampliar a produtividade e desenvolver sistemas de produção adaptados às condições tropicais. A evolução também trouxe ganhos econômicos para a população, ao contribuir para reduzir o custo dos alimentos e ampliar a oferta de produtos.
Pillon destaca que aproximadamente 65% da área cultivada com lavouras temporárias no Brasil já utiliza o sistema de plantio direto, prática que reduz o revolvimento do solo, ajuda a conservar sua estrutura e favorece a retenção de umidade. São 45 milhões de hectares cultivados anualmente com essa técnica.
Outro avanço está na fixação biológica de nitrogênio. Aplicada principalmente na cultura da soja, ela permite substituir parte dos fertilizantes nitrogenados por processos biológicos. De acordo com o pesquisador, a prática representa uma economia estimada em R$ 75 bilhões por ano, além de reduzir emissões de gases de efeito estufa.
Ele lembra que existem, também, iniciativas como a soja e a carne de baixo carbono, além da produção de biocombustíveis. Para Pillon, entretanto, a sustentabilidade precisa ser demonstrada com indicadores e resultados mensuráveis, e não apenas por meio de discursos. O desenvolvimento de ferramentas para calcular a emissão e a remoção de carbono, monitorar a qualidade do solo e avaliar os impactos dos sistemas produtivos é parte desse processo. "Não basta só ter uma narrativa de que nosso sistema de produção é sustentável. O mundo inteiro hoje quer saber: sustentável, mas onde estão os números?"
Pillon defende ainda que o aumento da produção brasileira não precisa estar associado à abertura de novas áreas. Na avaliação dele, o País já dispõe de terras abertas suficientes para ampliar a oferta de alimentos por meio da recuperação de pastagens degradadas, da intensificação sustentável e da melhoria da Produtividade.
Recuperação de áreas de preservação permanente
Na prática, iniciativas desenvolvidas por sindicatos rurais, produtores e organizações ambientais mostram como a atividade agropecuária pode participar da recuperação de ecossistemas e da proteção dos recursos hídricos.
Em Cruzeiro (SP), no Vale do Paraíba, o Sindicato Rural, presidido pelo produtor de leite Wander Bastos, desenvolve projetos de restauração de Áreas de Preservação Permanente (APPs), recuperação de nascentes e matas ciliares. O trabalho começou entre 2018 e 2019, com a estruturação de uma equipe técnica e a busca por recursos junto ao Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro).
A iniciativa ganhou escala com a participação de organizações e empresas. Em uma das frentes, produtores recebem remuneração anual pela conservação de áreas, em um modelo de mercado voluntário de carbono.
Segundo Bastos, considerando os projetos do Fehidro e as parcerias com a iniciativa privada, aproximadamente mil hectares já foram recuperados ou estão em processo de restauração. Um dos projetos contemplou uma área considerada estratégica para o abastecimento de Cruzeiro, com recuperação de aproximadamente 85 hectares. A iniciativa também incluiu a instalação de 27 fossas sépticas ou biodigestores em propriedades rurais, medida que busca evitar que o esgoto doméstico comprometa a qualidade da água.
O próprio produtor experimentou os efeitos da recuperação ambiental em sua propriedade. Bastos destinou quatro hectares à recomposição de uma mata ciliar às margens de um rio. A princípio, havia receio de perder uma área produtiva, especialmente porque as várzeas são importantes para a atividade leiteira na região montanhosa. Com o passar do tempo, porém, ele observou uma melhora na drenagem do terreno e passou a aproveitar melhor as áreas de pastagem. "Eu utilizo hoje muito melhor os 16 hectares que sobraram do que utilizava os 20 hectares antes de recuperar a APP. A drenagem melhorou muito e não tenho as perdas que tinha por encharcamento".
Cooperativismo e acesso à inovação
A disseminação dessas práticas também depende da capacidade de levar conhecimento às propriedades de diferentes portes. Para Matheus Kfouri Marino, presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus, que está entre as dez maiores cooperativas do agro no País, essas instituições desempenham papel relevante nesse processo, justamente por manterem equipes técnicas próximas dos produtores.
"Quando se emprega tecnologia, aumenta-se a produtividade e também se preserva o meio ambiente". Ele lembra que aproximadamente 80% dos produtores brasileiros são pequenos e médios, o que torna o acesso à inovação uma questão econômica e social.
Na avaliação de Marino, a presença das cooperativas no cotidiano rural ajuda a transformar tecnologias disponíveis em resultados concretos, já que orientam a aplicação de insumos, redução de desperdícios, melhora do manejo do solo e aumento da eficiência das propriedades.
Marino também considera que a participação do agronegócio em debates internacionais, como as Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COPs), contribuiu para ampliar a visibilidade das iniciativas do setor. A aproximação entre o campo e as cidades do interior também favorece o reconhecimento de ações de recuperação ambiental, preservação da biodiversidade e produção de energia renovável.
Apesar disso, ele identifica um desafio de comunicação, principalmente nos grandes centros urbanos, onde ainda persistem associações entre agronegócio, desmatamento, monocultura, uso indiscriminado de defensivos e exploração do trabalho.
Para os próximos anos, defende que o setor avance na elaboração de inventários de carbono, no estabelecimento de metas de redução de emissões e na adoção de certificações e relatórios de sustentabilidade com metodologias reconhecidas internacionalmente.