Apesar do aumento de desastres extremos, o negacionismo sobre a urgência climática cresceu no Brasil, atingindo 25% da população em 2026, segundo a pesquisa Ipsos Rep360º. Especialistas atribuem essa alta à polarização política, desinformação e maior presença de céticos no Congresso, além de fatores geracionais e regionais. Para conter esse avanço, analistas defendem associar a pauta ecológica a benefícios práticos e econômicos no cotidiano dos cidadãos para além das disputas ideológicas.
Apesar de os efeitos extremos do clima estarem cada vez mais na agenda do debate público no Brasil, a visão de que essas ocorrências são resultado das mudanças climáticas não tem sido um consenso entre a população do País. Pelo contrário, tem crescido o número de brasileiros que entendem o cenário como "fenômeno natural da Terra".
O diagnóstico é apontado na pesquisa Ipsos Rep360º. De acordo com o levantamento, 25% das pessoas entrevistadas não acreditam na urgência da mudança climática - um aumento de quatro pontos percentuais em relação a 2024. Além disso, em dois anos, o porcentual de pessoas que afirmavam acreditar na crise do clima diminuiu, saindo de 60% para 55% em 2026.
Contraditoriamente, o intervalo entre as pesquisas coincide com grandes eventos climáticos no País. Um dos exemplos foram as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, apontadas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) como o maior desastre natural da história do Estado e um dos maiores do Brasil.
A tragédia afetou cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, causando 183 mortes e prejuízos financeiros estimados em cifras na casa dos bilhões de reais. Segundo relatório da instituição, de 2025, o ocorrido evidenciou "a crescente influência das mudanças climáticas na hidrologia da região."
Na mesma linha, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), registrou sete ondas de calor no Brasil ao longo de 2025. Em fevereiro daquele ano, de acordo com dados do órgão, o município de Quaraí (RS) alcançou 43,8°C - a maior temperatura do período no País. O Rio de Janeiro chegou a ter máximas entre 42°C e 44°C, e São Paulo registrou 37,2°C em dezembro, considerada a maior temperatura para o mês em 64 anos.
De acordo com especialistas consultados pelo Estadão, é preciso avaliar o cenário com ponderações. As evidências numéricas têm mostrado que a população brasileira tem ampliado a consciência sobre as mudanças climáticas, dada a popularização da pauta nos meios de comunicação e mídias sociais, e também por estarem sofrendo diretamente os efeitos desses danos em campos importantes como economia, saúde, energia e infraestrutura. No entanto, com a popularização, há também a maior exposição de opinião dos negacionistas, o que acaba influenciando os números.
"O tema está se popularizando cada vez mais, exatamente porque ele está saindo do relatório e da previsão, e está acontecendo na vida real. Antes, como era uma agenda que ficava muito restrita ao setor de clima e meio ambiente, havia menos pessoas interagindo com o assunto. Portanto, antes, esses negacionistas acabavam não tendo uma exposição tão pública como hoje", pondera o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini.
A questão preocupante, segundo os analistas, está no alcance e consequências do negacionismo, ainda que para uma minoria numérica. Eles citam fatores como a alta polarização em vigor no País nos últimos anos, no sentido de associação das pautas de sustentabilidade às políticas de esquerda, e também a pressão geopolítica anti-ESG fortalecida internacionalmente pelas ações do governo de Donald Trump nos Estados Unidos, com poder de influência na agenda global.
Astrini destaca, por exemplo, que um mapeamento recente do Observatório do Clima mostrou um aumento no número de parlamentares eleitos no Brasil para o início de 2027 que têm práticas e discursos de negacionismo climático. Mesmo que haja grande parcela da população consciente dos extremos do clima, a presença de negacionistas em postos públicos de decisão pode enfraquecer a agenda e regulações de mitigação de danos climáticos.
"Nós temos quase 70% do Congresso com um histórico ou com uma expectativa de ações anti-ambientais. O perfil do parlamentar com a agenda que nega a proteção ambiental e nega a importância da agenda climática aumentou bastante", diz. "Isso preocupa em relação ao poder que eles têm na mão."
O CEO da Climate Ventures, Ricardo Gravina, também avalia que o tema ganhou visibilidade e aderência positiva da população. Porém, tem sido, muitas vezes, atravessado por disputas de narrativas políticas e também vieses de informações falsas, acompanhando um movimento global.
"O clima entrou na briga política nos Estados Unidos e em outros países, (inclusive) no Brasil, e essa discussão chega pelo celular muito mais rápido do que qualquer dado científico. E, muitas vezes, tem objetivos de desinformação", ressalta.
Além disso, ele acrescenta que não é possível ignorar também o fator financeiro em jogo. Diante de desigualdades econômicas no Brasil, principalmente em relação à população de baixa renda, outros temas mais imediatos acabam ganhando mais urgência para uma parcela das pessoas do que a pauta climática. Gravina acredita que, nesse sentido, os próprios profissionais e lideranças da área não conseguiram captar essa interferência.
"Nós, que trabalhamos com o tema, temos nossa parcela de culpa. Passamos anos falando de graus Celsius e de 2050, quando a preocupação das pessoas é pagar as contas do mês que vem", diz.
Perfil dos negacionistas
Além de apontar as diferenças nas opiniões sobre o clima entre os brasileiros, o mapeamento do Instituto Ipsos também mostrou que há uma correlação entre menor faixa etária e maior reconhecimento das mudanças do clima. Na parcela de entrevistados com idades entre 18 a 24 anos, apenas 20% disseram não acreditar na urgência climática. Já no grupo de respondentes com 45 anos ou mais, o porcentual é de 27%.
Sobre as diferenças geracionais, o gerente de Inovação e ESG do Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), Paulo Simonetti, vê influência dos meios de acesso mais recentes à informação e a materiais mais qualificados na abordagem do tema, que acabam favorecendo as gerações mais jovens nessa discussão.
"Passa por uma questão educacional. O material didático e o acesso a dados e fontes de informação via internet costumam trazer essas discussões sobre mudanças climáticas e participar da formação dessas pessoas desde muito jovens. Era algo já era aceito na infância dos que hoje estão entrando na idade adulta. Gerações mais antigas não passaram por esse processo educacional desde a infância. Enquanto eles veem a informação como 'onda', os jovens veem como 'dado'", afirma.
O ponto informacional também é o que define diferenças de percepção sobre agenda climática quando as variáveis são regionais, comenta Simonetti, que atua em Manaus (AM). A pesquisa revela que as pessoas entrevistadas no Norte registram a maior concordância com a ideia de extremo climático como 'fenômeno natural da Terra'. A região lidera entre os optantes dessa visão com 31%, seguida pelos entrevistados do Centro-Oeste, com 29%. No Sudeste, o porcentual é de 23%.
"Quem cresceu na Amazônia, seja em perímetro urbano, seja rural, viveu escutando que a floresta (na perspectiva climática) é oposta ao desenvolvimento. Isso esteve muito tempo no imaginário das pessoas, e muitos assentamentos na região Norte foram criados para isso: ocupar, gerar cidades e reverter a lógica da conservação", diz. "No entanto, sabemos que não só é possível, como viável, conservar a floresta e gerar renda."
Mudança de cenário
Na visão do CEO da Climate Ventures, o cenário em torno das narrativas diferentes no Brasil sobre o clima pode mudar positivamente no imaginário da população se forem tomadas ações mais concretas. Vivenciar uma tragédia climática ou acompanhar esses danos no entorno pode causar uma comoção imediata na população, mas corre o risco de sair do debate quando são resolvidas, diz ele.
Para Gravina, é necessário que as narrativas se convertam em processos práticos. "O que muda a cabeça das pessoas é ver a transição acontecendo perto delas, como o painel solar que baixou a conta de luz do vizinho ou a cooperativa na Amazônia que gera renda com a floresta em pé." Nesse caso, não se trata de que há um déficit de ações na área, mas de que as informações sobre as iniciativas que já existem precisam chegar de forma eficaz e generalizada ao conhecimento da população.
"O Brasil tem muito disso e conta pouco. Acompanhamos (na Climate Ventures) empreendedores brasileiros que resolvem problemas do clima e ganham dinheiro com isso. Se governo, empresas e organizações mostrarem esses resultados, com quem está à frente disso, o assunto sai da briga ideológica e passa a fazer parte do dia a dia."