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Brasileiro está mais pragmático em relação à sustentabilidade das empresas e do governo

Pesquisa Ipsos Rep360º, que mede percepção dos brasileiros sobre práticas sustentáveis para o progresso econômico e do meio ambiente, mostra amadurecimento do consumidor

8 nov 2026 - 05h42
Resumo
A pesquisa Ipsos Rep360° revela que o brasileiro está mais pragmático e exigente com a sustentabilidade, demandando ações práticas em vez de discursos. O público atribui a liderança do processo ao governo e vê com desconfiança as empresas: 63% creem que ações socioambientais visam apenas lucro ou imagem. O consumidor rejeita pagar mais por produtos sustentáveis e cobra punições rígidas, inclusive pessoais para dirigentes, em caso de metas não cumpridas ou danos gerados por corporações.

O brasileiro está mais pragmático e maduro quando o assunto é o desenvolvimento sustentável do País, por meio de políticas públicas e das atividades corporativas. Narrativas genéricas sobre sustentabilidade econômica e do meio ambiente, sem reflexos concretos no cotidiano, têm deixado de causar impacto de credibilidade, seja nas iniciativas públicas, seja nas empresas.

Em linhas gerais, a terceira edição da pesquisa Ipsos Rep360° mostra um novo momento do brasileiro, que agora quer mão na massa em relação à sustentabilidade. O levantamento ouviu 6 mil consumidores das classes A, B e C em todo o País, de acordo com a proporção da população mostrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os dias 22 de setembro e 26 de outubro. Um dos objetivos foi construir o Índice de Percepção de Sustentabilidade Empresarial (IPSE), que mede como os cidadãos veem as contribuições e as práticas do setor privado, em relação ao desenvolvimento sustentável.

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Trecho do rio Tietê entre São Paulo e Guarulhos: percepção com sustentabilidade melhora, mas ainda é negativa
Trecho do rio Tietê entre São Paulo e Guarulhos: percepção com sustentabilidade melhora, mas ainda é negativa
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

"Entramos em uma fase de maior maturidade e exigência do consumidor", afirma Priscilla Branco, diretora de reputação corporativa e opinião pública da Ipsos. "Preço competitivo, metas mensuráveis, verificação independente e resultados ligados ao negócio são elementos cada vez mais importantes para construir a credibilidade."

Segundo ela, preocupações com mudanças climáticas e meio ambiente, que há menos de uma década mal apareciam em levantamentos feitos pelo Ipsos, ganharam peso maior nos anos recentes. "Com os eventos climáticos se agravando, pessoas de todas as classes sociais estão sentindo na pele que o assunto é importante", diz. "Isso permite que as demandas sejam mais bem exploradas em termos de construção de agendas e advocacy (defesa de uma causa)."

Outro fator que mostra o amadurecimento do brasileiro em relação ao tema diz respeito às políticas públicas para a sustentabilidade. De acordo com Priscilla, há uma clara percepção de que, apesar de empresas e governo terem de trabalhar juntos para o desenvolvimento sustentável, quem tem de puxar iniciativas e liderar, é o poder público.

"Conseguimos ter uma percepção da evolução do País já que, quando falamos de desenvolvimento sustentável, não nos restringimos ao meio ambiente, mas também ao progresso econômico", afirma ela. "O progresso econômico acompanha a proteção ambiental e a redução das desigualdades, num processo que deve ser comandado pelo poder público, segundo os entrevistados."

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Assim, nessas três frentes - desenvolvimento econômico, cuidado ambiental e bem estar social -, a percepção do entrevistado continua amplamente negativa. Porém, ela vem melhorando ano após ano. Em 2024, 37% das pessoas acreditavam que o desenvolvimento econômico do País ia mal ou muito mal. Agora, o indicador está em 35%. No aspecto ambiental, o porcentual foi de 43% para 35%. Já no bem-estar social, foi de 39% para 31% no mesmo período.

Ao mesmo tempo que colhe as percepções dos brasileiros sobre 16 atributos ligados a reputação e ESG (meio ambiente, sustentabilidade e governança corporativa, da sigla em inglês) aplicáveis a empresas de diferentes setores, a Ipsos pede aos entrevistados que avaliem um conjunto de 156 empresas, em relação aos mesmos quesitos. As marcas são escolhidas a partir de uma triangulação de rankings de maiores empresas, outros rankings de sustentabilidade e clientes da Ipsos.

Na elaboração da pesquisa, cada marca é avaliada por cerca de 300 entrevistados, que dizem se sua percepção para elas, em relação aos 16 quesitos, é de contribuição positiva, negativa ou neutra para o desenvolvimento sustentável. No total, são feitas cerca de 60 mil avaliações, que dão origem ao IPSE.

Natura lidera ranking de empresas

Como resultado, é gerado um ranking com as 10 mais bem posicionadas nesse indicador. Neste ano, empresas de cosmético e beleza ficaram com as primeiras colocações. Natura ocupou o primeiro lugar, com a contribuição positiva de 774 pontos no IPSE (de mil possíveis). Foi seguida por O Boticário (726) e Nívea (714). Na sequência aparecem Johnson&Johnson (705) e Samsung (698).

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A maioria das companhias enfrenta, porém, um problema de credibilidade. Segundo a pesquisa, 63% dos brasileiros acreditam que a maioria das empresas realiza programas comunitários, sociais ou ambientais apenas para melhorar sua imagem ou ganhar mais dinheiro. Somente 30% entendem que a maior parte das organizações tem interesse verdadeiro em contribuir para a sociedade ou para o meio ambiente. Outros 7% não souberam responder.

Com isso, é possível entender outra decisão do consumidor: pagar mais por produtos sustentáveis está fora de cogitação. Para 77% dos entrevistados, as empresas devem oferecê-los sem transferir o custo adicional aos consumidores. Apenas 17% acreditam que os clientes deveriam dar sua contribuição, pagando mais por esses produtos.

Além da desconfiança em relação aos objetivos das empresas, o bolso raso é outro motivo para essa postura. Entre as barreiras à adoção de hábitos mais responsáveis, os preços mais altos dos produtos sustentáveis concentraram 52% das menções. Em seguida aparecem a falta de educação ambiental desde a infância, com 46%; a falta de informações claras sobre os produtos, como ingredientes, rótulos e certificações, com 44%; e a dificuldade de acesso a produtos, serviços e infraestrutura sustentável, com 41%.

Além disso, sustentabilidade está longe de ser um fator decisivo para a compra: só 17% optam por produtos sustentáveis, mesmo quando eles custam mais. Outros 27% dizem não considerar se o produto é ambientalmente responsável no momento da aquisição. Já 57% compram produtos ou serviços ambientalmente responsáveis, desde que tenham bom preço.

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Responsabilização e cumprimento de metas é obrigatório

Outro item mostrado pela pesquisa diz respeito à responsabilização das empresas por eventuais danos causados com suas atividades. Oito em cada dez brasileiros defendem algum tipo de consequência concreta quando compromissos sociais e ambientais não são cumpridos ou quando atividades empresariais provocam danos.

De acordo com o levantamento, 87% concordam que as empresas devem sofrer penalidades financeiras caso não cumpram compromissos sociais ou ambientais assumidos publicamente. Outros 86% defendem a divulgação de informações sobre impactos sociais e ambientais verificadas por uma organização independente. Além disso, 84% concordam que dirigentes e controladores devem ser responsabilizados pessoalmente quando participarem de decisões que provoquem danos sociais ou ambientais.

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