Segundo a pesquisa Ipsos Rep360º, 47% dos consumidores priorizam produtos sustentáveis e marcas com responsabilidade ambiental, hábito que inclui alimentos orgânicos, itens de segunda mão e redução de descartáveis. Contudo, o orçamento doméstico ainda limita esse avanço: a grande diferença de preço em relação aos convencionais restringe a frequência das compras. Além do alto custo, os clientes apontam o excesso de embalagens plásticas e cobram mais compromisso e iniciativas ecológicas da indústria.
A fisioterapeuta Patrícia Marcondes, de São Paulo, só compra frango e ovos orgânicos. Mas paga bem mais por isso. Enquanto o quilo do tradicional fica em torno de R$ 20, o orgânico custa pelo menos 50% a mais. "Tenho uma filha pequena e por isso não abro mão do orgânico por questões de saúde. Sei que a carga de antibiótico que se usa nas aves é muito alta e isso pode criar resistência antibiótica", diz.
Ela também prefere vegetais orgânicos e pesquisa a reputação de marcas e empresas quando vai comprar cosméticos ou outros produtos. Tem loja, por exemplo, que eu nem ponho meu pé." Empresas que financiaram candidatos contrários às causas ambientais ou que são poluidoras não entram na lista de compras da fisioterapeuta.
Patrícia é um exemplo de novo comportamento do consumidor captado pela pesquisa Ipsos Rep360º. Em 2026, 47% dos entrevistados concordam que, antes de adquirir alimentos, roupas, cosméticos ou outros produtos, procuram saber se eles são sustentáveis ou se a empresa adota medidas de proteção ambiental. E essa participação vem crescendo: era de 44% nas medições anteriores apresentadas no estudo.
Por isso, Guilherme Gobato, sócio-diretor da consultoria Diálogos Entre Nós Diversidade e Inclusão, e a anfitriã profissional Andreia Motta, ambos de São Paulo, procuram esticar a vida útil de tudo que compram. "Se vejo que a embalagem é de plástico e que vai ser difícil usar o xampu, ou a mostarda, ou a maionese até o fim, nem compro. Odeio desperdício", diz Gobato.
Andreia vai além: "Faço parte de um grupo de vizinhos focado em vendas de usados e também em trocas e doação de produtos. Acho fundamental evitar o consumo desnecessário. Tenho três filhos pequenos e a gente precisa mudar nosso comportamento para garantir o futuro deles. Quanto menos consumo desnecessário, menos lixo, menos impacto no ambiente."
Esticar a vida útil dos produtos é uma solução sustentável e barata. Mas quando é preciso tirar dinheiro do bolso para comprar algo, Andreia se torna um bom exemplo do que diz a pesquisa da Ipsos. Até ter a segunda filha, ela trabalhava como especialista em comunicação corporativa e tradutora. Comprava preferencialmente só produtos orgânicos e sustentáveis. "Eu assinava um serviço de entrega de frutas, verduras e legumes direto do produtor, tudo sem agrotóxico. Era uma beleza. Mas depois do terceiro filho, isso é impensável. É muito gasto. Não tenho mais meu salário fixo todo mês. Agora compro as verduras do supermercado mesmo, as tradicionais."
Ela reclama que nem mesmo os produtos de limpeza biodegradáveis e sustentáveis entram em promoção. "Nunca vi. Nem comida, nem detergente, nada. É uma pena, pois eu adoraria comprar", diz.
Essa queixa acontece mesmo entre os consumidores com maior renda. Gobato, por exemplo, também afirma que teria hábitos mais sustentáveis se isso não impactasse demais os gastos domésticos. Para ele, assim, como acontece com a designer Luiza, fica uma sensação de que a indústria não está fazendo a parte dela. "Só para ilustrar: papel de bala. É assim que a gente fala, não é? Porque até outro dia, era papel que se usava para embalar bala. Agora, é tudo plástico. Isso se repete com outras embalagens também. Cadê a preocupação com o meio ambiente e os resíduos dessa indústria? Sabemos que quando a gente joga algo no lixo, é um novo ciclo que começa ali. Nada desaparece. Aquele plástico vai ficar num aterro, poluindo, isso se não cair nos rios e nos mares", diz Gobato.
Patrícia, a fisioterapeuta, também admite que compraria mais e com maior frequência, orgânicos e itens sustentáveis se não fossem tão caros. "Morango, por exemplo. Só compro o orgânico. Mas é só uma vez por mês, uma bandejinha apenas e olhe lá. Abacaxi, a mesma coisa: fui ao mercado outro dia e o orgânico custava R$ 17 o quilo. O tradicional, R$ 9. É muita diferença", diz ela, que é dona de um estúdio de pilates em Higienópolis, região nobre de São Paulo. "Precisamos fazer nossa parte, mas o preço não ajuda."
Compras online
As compras online também não escapam do crivo da sustentabilidade dos consumidores. Gobato, por exemplo, adora quando o aplicativo de entrega de comida dá a opção de que talheres plásticos, guardanapos e outros descartáveis não sejam enviados junto com o pedido. "Para comer em casa, nada disso é necessário." Ele também só pede refrigerante em lata, pois sabe que a reciclagem vai acontecer. Hoje, 97,3% das latas são recicladas, de acordo com o balanço da Recicla Latas, associação sem fins lucrativos criada e mantida pelos fabricantes e recicladores de latas de alumínio.
Mas quando a compra feita na internet é entregue embalada em metros e metros de plástico bolha, ou em caixas muito maiores que o necessário e recheadas com aqueles floquinhos de isopor, Gobato passa raiva. Chega até a se sentir mal, culpado. "Pelo menos jogo no lixo reciclável. Mesmo que não seja tudo passível de ser reciclado, é melhor que ir para o aterro." Recentemente, ele conta que comprou detergente de máquina de lavar louça em tablete, mas que se decepcionou. Além da embalagem normal, cada tablete vinha embrulhado em um envelope de plástico. "Fiquei muito bravo e não voltei mais a comprar aquela marca."
E as roupas?
Esse é o calcanhar-de-aquiles de Patrícia. Ela compra o que gosta, desde que seja uma loja com boa reputação. Em relação a cosméticos, porém, ela sempre verifica se não foi testado em animais. Mas admite que não é uma grande compradora de maquiagem em geral.
Andreia, como já dissemos, gosta de achadinhos em brechós e sites de segunda mão, além do que é publicado no grupo de troca do bairro.
Para Gobato, a filosofia é comprar pouco e usar muito. Ele diz que adquire, no máximo, cinco peças novas por ano, incluindo sapatos. Ele prefere peças atemporais e duráveis, para usar a mesma roupa por mais tempo.
Esse é também o hábito de Luiza. "Evito ao máximo comprar em fast fashion, comprar roupa vagabunda, sem durabilidade só porque é baratinha. Cuido bem das minhas peças porque quero que elas durem para sempre. E também não compro roupas que soltam muito microplástico, tipo umas peças felpudas, 100% acrílico", diz ela, que se diz também adepta de lojas de segunda mão.