Para conter a crise de moradia na Europa, grandes cidades aplicam diferentes soluções: Berlim discute expropriar imóveis de grandes fundos, enquanto Viena subsidia e administra moradias para 60% da população. Basileia aposta no arrendamento de terrenos públicos, Paris recompra prédios comerciais para conversão residencial, Praga reserva imóveis mais baratos a servidores essenciais e Dublin financia moradias a preço de custo. Apesar dos esforços, a alta demanda ainda supera a oferta.
Os preços exorbitantes dos aluguéis viraram um problema sério nos grandes centros urbanos da Europa — mas algumas cidades mostram que há solução.Em Berlim, maior cidade da União Europeia, a pressão sobre o mercado imobiliário é tão grande que seus moradores querem realizar um experimento histórico para desmantelar o poder de grandes empresas sobre o setor.
Há cinco anos, a população aprovou um referendo para obrigar os políticos da capital alemã a elaborar uma lei segundo a qual companhias com fins lucrativos que possuíssem mais de 3 mil apartamentos teriam de vendê-los ao poder público por um preço reduzido.
Mas isso não aconteceu e, desde então, os preços médios dos novos contratos de aluguel aumentaram cerca de 50%.
Talvez esse seja um dos motivos pelo qual o partido A Esquerda foi o mais votado nas eleições para o parlamento regional de Berlim, realizadas em 20 de setembro. A sigla fez campanha prometendo pôr o referendo em prática e coletivizar (ou expropriar) os imóveis pertencentes aos grandes grupos imobiliários.
Se Berlim realmente avançará por esse território jurídico inédito, isso é algo que ainda depende de alianças com outros partidos, já que A Esquerda não obteve cadeiras suficientes para governar sozinha. Mas o resultado eleitoral chamou a atenção em toda a Europa para a gravidade da crise habitacional em muitos centros urbanos.
Abaixo, a DW aponta algumas soluções adotadas por outras metrópoles europeias.
Viena: cidade é proprietária e locadora
O modelo de Viena é considerado uma das soluções exemplares da Europa contra a explosão dos preços dos aluguéis. A capital austríaca enfrentou uma grave crise habitacional após a Primeira Guerra Mundial. A situação era tão dramática que trabalhadores dormiam em camas compartilhadas por turnos. A precariedade e a superlotação favoreciam a disseminação de doenças como a tuberculose.
A solução adotada naquela época continua estabilizando o mercado até hoje: segundo a própria prefeitura, Viena administra cerca de 220 mil apartamentos públicos e mantém outros 200 mil como habitações subsidiadas, provendo habitação para cerca de 60% dos moradores da cidade. Isso também ajuda a conter os preços no mercado privado de aluguel.
Basileia: terreno público, edifícios privados
O aumento dos custos de moradia em muitas cidades se deve, em parte, ao fato de que a valorização de uma localidade também se reflete nos preços dos terrenos. Por isso, diversas cidades buscam formas de desvincular os aluguéis da especulação fundiária.
Uma das alternativas é não vender terrenos municipais, mas arrendá-los a cooperativas ou investidores voltados ao interesse público. Assim, o município se beneficia por não precisar arcar com os custos da construção, enquanto os incorporadores evitam preços exorbitantes pela aquisição do terreno, o que reduz a necessidade de repassar esses custos aos inquilinos.
Um dos pioneiros europeus é Basileia, na Suíça, onde cerca de 40% das moradias cooperativas estão construídas em terrenos públicos. Cidades como Barcelona, na Espanha, e Lisboa, em Portugal, também vêm intensificando esforços para consolidar esse modelo.
Paris: recompra e conversão
A situação torna-se mais complexa quando tanto os terrenos quanto os edifícios já estão permanentemente sob propriedade privada.
Em Paris, na França, a prefeitura tem desde 2014 preferência na compra de imóveis para expandir a habitação social, especialmente em bairros sob forte pressão de gentrificação.
A meta é alcançar 30% de moradias sociais até 2035. No entanto, o crescimento registrado até agora se deve principalmente a novos projetos habitacionais promovidos pela própria cidade.
Mais recentemente, Paris e municípios vizinhos passaram também a adquirir edifícios comerciais para convertê-los em residências. Na região de Île-de-France, foram identificados 61 projetos com potencial para criar até 8,2 mil novas moradias.
Praga: moradia para algumas categorias profissionais
A capital da República Tcheca encontrou uma forma diferente de manter na cidade profissionais sem os quais muitos serviços deixariam de funcionar: enfermeiros, policiais, professores e coletores de lixo, que frequentemente dispõem de menos recursos para pagar aluguel do que banqueiros ou advogados.
Em Praga, foram construídos cerca de 660 apartamentos reservados especificamente a trabalhadores do setor público.
A empresa responsável pelo projeto é uma subsidiária de um banco tcheco e, graças a financiamentos europeus e a um planejamento financeiro de longo prazo, pretende manter os aluguéis cerca de 20% abaixo do valor de mercado.
A seleção dos moradores não é feita pelo banco, mas por instituições como hospitais e órgãos públicos, que firmam acordos e podem utilizar as opções de moradia acessível para atrair novos funcionários. Novos projetos semelhantes já estão em planejamento.
Dublin: viável sem buscar lucro
A capital irlandesa também enfrenta dificuldades para manter moradores de renda baixa e média. Após a crise financeira de 2008-2009, investidores estrangeiros adquiriram grande quantidade de imóveis. Ao mesmo tempo, a expansão das grandes empresas de tecnologia, atraídas pelos baixos impostos e que escolheram Dublin como sede europeia, fez a demanda por habitação disparar, impulsionando os aluguéis.
Dublin possui longas listas de espera por moradias sociais, já que a oferta disponível é insuficiente.
O programa Cost Rental Housing, criado em 2021, procura atender uma faixa frequentemente negligenciada da população: pessoas com renda anual inferior a 66 mil euros, que ganham demais para se qualificar para habitação social, mas não o suficiente para competir no mercado privado.
Dentro desse modelo, entidades públicas e sem fins lucrativos oferecem moradias sem objetivo de gerar retorno financeiro. Como resultado, os aluguéis iniciais ficam significativamente abaixo dos preços de mercado. Segundo um estudo recente do instituto de pesquisa social ESRI, eles são, em média, quase 30% mais baixos.
O governo irlandês espera disponibilizar 18 mil moradias desse tipo até o final da década. A dimensão da demanda ficou evidente no ano passado em Coolevally, no sudeste de Dublin: 104 apartamentos atraíram mais de 4,2 mil candidatos.
Apesar dessas iniciativas, ainda serão necessárias muitas novas moradias para que a oferta e a demanda voltem a se equilibrar nas cidades mais populares da Europa.
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