Johnny Marr lança seu quinto álbum solo, The Age of Everything, gravado com foco na espontaneidade e testado ao vivo. Em entrevista, o ex-guitarrista do The Smiths relembrou marcos de sua trajetória individual, elogiou o calor do público brasileiro antes de seu show em São Paulo, em 24 de novembro, e abordou seu histórico de apoio a bandas como Oasis e Fontaines D.C., além do recente leilão beneficente de guitarras históricas que arrecadou 3,6 milhões de libras para a caridade.
Causa estranhamento notar que a carreira solo de Johnny Marr tem menos de 15 anos. O guitarrista de 62 anos é um dos músicos mais celebrados da história do rock britânico, especialmente no recorte da década de 1980, em grande parte por conta do seu trabalho no The Smiths — onde formou uma parceria lendária com o vocalista Morrissey.
Entretanto, após o fim de sua banda mais famosa, em 1987, demorou quase três décadas para ele trabalhar sozinho. Agora, com The Age of Everything — a ser lançado na próxima sexta-feira, 2 —, ele disponibiliza seu quinto álbum solo de estúdio. Um a mais que The Smiths.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Johnny confessou: apesar do som indie rock com toques de pop clássico aparente nas composições e arranjos do disco, ele não passou muito tempo no estúdio mexendo demais no material. O nome do jogo, ao seu ver, era não pensar demais:
"Foi quase como um truque mental, mas não no sentido de que eu iria fazer qualquer coisa e ficar satisfeito. Para se trabalhar 12, 14 horas por dia, todos os dias, por definição, você precisa acreditar no que está fazendo. Para sair da cama, ir até o estúdio e dedicar todo esse tempo. Então, tomei cuidado para não me questionar demais durante o processo."
https://www.youtube.com/watch?v=qXDd9SLyIi0
Facilitou para Marr ter tocado ao vivo as canções do álbum, com sua banda de apoio, antes das gravações. O guitarrista nunca havia feito isso antes na carreira:
"Nunca toquei oito músicas em uma turnê com nenhuma banda em que estive que ainda não tivessem sido gravadas. Isso realmente funcionou. Te dá energia quando você começa a fazer o álbum. Quando a banda toca as músicas ao vivo, você geralmente não precisa reforçar muito os arranjos com sintetizadores de cordas e percussão depois, porque os músicos conhecem a dinâmica da canção. Tudo se torna muito mais natural."
Um exemplo oferecido para explicar esse trabalho de arranjo da banda ao vivo residiu em uma de suas maiores inspirações: Nile Rodgers, ícone da disco music e do soul/R&B. Johnny contou ter passado muito tempo de sua adolescência estudando álbuns do Chic, banda responsável por consagrar o guitarrista americano, além de seus trabalhos como produtor de Diana Ross e The Pointer Sisters.
Isso lhe deu um senso inato de como organizar o som para maximizar todos os elementos juntos. Essa influência, apesar de não ser direta, fica aparente em The Age of Everything por conta do quão exuberante tudo soa.
https://www.youtube.com/watch?v=VqGsu-5jluw
Carreira solo de Johnny Marr
Refletindo sobre sua trajetória como artista solo desde o começo, Johnny Marr destacou dois álbuns em particular como importantes na sua trajetória. O primeiro foi sua estreia, The Messenger (2013). Segundo ele, o impulso de finalmente fazer algo dele surgiu a partir do motivo mais singelo de todos: o guitarrista havia composto material em que acreditava no potencial.
"Quando lancei The Messenger, eu tinha a ambição de fazer cinco álbuns solo, talvez até oito, e ver se dava certo. Isso era como um sonho doido, para falar a verdade, porque eu não sabia como seria o primeiro álbum solo. O motivo de ter feito o disco foi simplesmente porque eu gostava das músicas 'The Messenger' e 'European Me'. Quer dizer, mais do que gostava. Eu realmente acreditava nelas. Eu não sabia como minha carreira solo ia se desenvolver. Mas eu sabia que precisava fazer aquelas músicas."
https://www.youtube.com/watch?v=d2W8aVDxeBY
O outro é Call The Comet (2018), que Marr afirmou ter sido feito durante um período particularmente inspirador. Desde então, o disco se tornou efetivamente a régua de sua carreira. O músico não tem muito interesse em comparar algo que faz atualmente ao The Smiths, em parte porque a banda terminou há quase 40 anos. Seu interesse está no material mais recente:
"Eu não espero que as pessoas pensem dessa forma, mas é assim que eu penso. Tipo, será que é tão bom quanto Call the Comet? E será que eu tenho alguma música que, em shows, será tão popular quanto 'Easy Money' [do álbum Playland (2014)] ou 'New Town Velocity' [de The Messenger]?"
https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_mcBWoGB-vud-CCjlSfSqEOXNBnbGn1L9w
"New Yown Velocity" é um ponto de orgulho para Marr. Embora conhecido por seu trabalho na guitarra, ele diz que muitas pessoas vêm falar principalmente da letra da canção, algo surpreendente para alguém não tão associado com esse aspecto de composição:
"Tem sido incrível para mim ver o quão popular 'New Town Velocity' se tornou, não só entre os fãs que vêm me ver, mas também entre os fãs de música em geral, que comentam sobre a música. E eles também gostam da letra. Então, essas são coisas que você não pode planejar. Você só cruza os dedos e faz o que espera ser uma ótima experiência auditiva."
https://www.youtube.com/watch?v=SXEc9WZ1bkY
Shows no Brasil
Johnny Marr fará show único no Brasil no dia 24 de novembro. Será no Tokio Marine Hall, em São Paulo. Trata-se da terceira passagem dele pelo país e há ingressos à venda via Meaple.
A primeira vez de Johnny como artista solo por aqui se deu no Lollapalooza Brasil 2014, em uma apresentação com um aspecto notável. Andy Rourke, seu companheiro de The Smiths, fez uma participação especial na hora de tocar a clássica "How Soon is Now". O baixista faleceu em 2023, vítima de um câncer no pâncreas, e o retorno iminente ao país fez Marr lembrar de como pôde partilhar desse momento com o amigo por aqui:
"Essa, obviamente, se tornou uma lembrança ainda mais importante depois da morte do Andy."
https://www.youtube.com/watch?v=VoO0Z-pNxk8&pp=ygUtam9obm55IG1hcnIgaG93IHNvb24gaXMgbm93IGxvbGxhcGFsb296YSAyMDE0
Entretanto, a memória mais vívida de ambas as passagens dele pelo país é a paixão do público brasileiro. Especialmente na hora de cantar junto, o que ele revela ser assunto entre algumas das maiores bandas do planeta:
"O público é o único no mundo que canta os riffs antes mesmo de você começar a cantar a letra. Lembro de quando tocamos numa casa noturna pequena e muito legal, e tocamos uma música chamada 'Upstarts' [do álbum The Messenger], que começa com um riff super empolgante. E antes mesmo de eu começar a cantar a letra, a plateia já cantava o riff junto. Todas as bandas, do Oasis ao The Killers, passando pelo Foo Fighters, dizem a mesma coisa sobre o público brasileiro."
Oasis, Fontaines D.C. e passar a lição adiante
Além da habilidade na guitarra, um aspecto lendário de Johnny Marr foi sua generosidade para com outros músicos. Noel Gallagher sempre contou a história de como o músico foi uma das primeiras pessoas a acreditar no Oasis antes da fama, a ponto de emprestar instrumentos para a banda.
Segundo Johnny, tratou-se apenas um impulso de ajudar alguém tal qual lhe auxiliaram no começo da carreira:
"Para ser sincero, eu não tinha ideia do tamanho que o Oasis se tornaria. Eu não imaginava que faria parte da história de uma banda tão grande e gigantesca. Acho que Noel sabia o quão grande o Oasis se tornaria, mas eu certamente não. Ele era apenas mais um. Um garoto irlandês de Manchester com quem eu fui com a cara. Mas fora isso, eu não tinha ideia de como as coisas iriam acontecer. Muita gente me deu uma mão quando eu estava começando. Sempre achei de bom tom levar essa lição adiante."
Outro caso dessa generosidade se manifestuo com o Fontaines D.C. Em uma entrevista ao canal de YouTube da Premier Guitar, o guitarrista Conor Curley revelou como Johnny emprestou exemplares de sua guitarra Fender Jaguar signature para ele e o outro guitarrista do grupo, Carlos O'Connell, usarem durante o Glastonbury Festival de 2022. Perguntado sobre o episódio, Marr foi modesto. Para ele, era apenas uma questão de ajudar outro artista iniciante, algo que várias outras pessoas na indústria fazem sem qualquer alarde.
"Toquei com eles algumas noites antes e ouvi que eles só tinham uma guitarra cada. Então eu disse: 'Bem, olha, estou em Glastonbury. Vocês podem pegar minhas guitarras emprestadas'. Eu não tinha ideia de que o Fontaines se tornaria tão grande quanto se tornou. Eles eram apenas um grupo precisando de ajuda. Algumas bandas que você ajuda acabam fazendo muito sucesso e isso se torna uma boa história. E também tem muitos músicos que ajudaram doando equipamentos e outras coisas que as pessoas nem ficam sabendo. Para mim, não é nenhum sacrifício."
Entretanto, o exemplo mais recente é talvez o mais notório. No último dia 17, Marr leiloou sua coleção de guitarras — incluindo instrumentos usados em gravações clássicas do The Smiths — em parceria com a Christie's com renda destniada a duas organizações de caridade no Reino Unido: The Guide Dogs for the Blind Association, que treina cães guia para deficientes visuais, e The National Autistic Society, focada em pessoas autistas e suas famílias.
O acervo gerou no total cerca de 3,6 milhões de libras, quase o triplo do valor inicialmente estimado. Sobre esse gesto, Marr repete o refrão:
"Acho que é fácil para mim fazer isso. Então, não acho que deva levar muito crédito, porque é muito fácil."