'Pico dos Marins': 40 anos depois, documentário traz novidades sobre caso do escoteiro Marco Aurélio

Série documental estende investigação do podcast homônimo e traz novas entrevistas e os recentes desdobramentos das escavações; leia entrevista

15 mai 2026 - 14h26

Filho amado, irmão querido e escoteiro dedicado, o jovem Marco Aurélio Bezerra Simon, então aos 15 anos, subiu o Pico dos Marins no dia 8 de junho de 1985, junto a três amigos e um chefe, para nunca mais voltar. Quatro décadas separam a família de uma resposta sobre o paradeiro do menino, enquanto a falta de uma pista concreta que leve a polícia a uma resposta mantém as esperanças de encontrá-lo vivo acesas.

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Agora, um novo documentário chega ao Globoplay para elucidar o caso e mostrar os mais recentes desdobramentos das investigações, que levaram a novas escavações ocorridas em novembro do ano passado. A série é uma extensão do podcast Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio, programa lançado em 2022 que ultrapassou 1 milhão de downloads nas plataformas de áudio.

Como Osvaldo não conseguia apoiar o pé no chão sem sentir dor, Ricardo, Ramatis e o chefe Juan estavam auxiliando em sua descida, enquanto Marco Aurélio, eleito monitor, foi na frente para orientar o caminho. Ele estava munido de um giz para marcar as pedras com o número do grupo, 240, para servir como guia. Em uma bifurcação, o chefe Juan decidiu seguir um caminho diferente do traçado por Marco Aurélio, e demorou horas para chegar à base. Quando chegou, não encontrou o garoto, que nunca mais apareceu.

Parte do processo de acompanhar o podcast Pico dos Marins passa por sentir a angústia de uma família deixada sem respostas. O pai, Ivo, a mãe, Neuma, e os irmãos nunca deixaram de procurar Marco Aurélio. Por isso, Mesquita conta que o grande objetivo do projeto era "levantar um grande cartaz de procura-se".

"Se lá em 1985 ele usou os jornais impressos e a televisão aberta, ele foi se adaptando", conta Mesquita ao Estadão, sobre a busca incansável de Ivo.

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"No início da década de 2000, ele foi procurando outros veículos. Quando o streaming surgiu, ele falou: 'Bom, agora é isso'. Rapidamente eu entendi que ele não só queria contar essa história, como ele estava à procura. Foi quase como uma missão do seu Ivo."

Na conversa abaixo, editada para melhor clareza, Marcelo Mesquita fala sobre os desafios de contar a história de Marco Aurélio, a repercussão do programa e as novidades que o público verá na série audiovisual.

Autor do podcast e da série 'Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio', Marcelo Mesquita revela os novos desdobramentos sobre o caso
Autor do podcast e da série 'Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio', Marcelo Mesquita revela os novos desdobramentos sobre o caso
Foto: Davi Victor/Globoplay/Divulgação / Estadão

Como você se interessou em contar essa história do desaparecimento do Marco Aurélio?

Em 1985, a história repercutiu muito e os pais sempre tentaram mantê-la em evidência. Porém, ali em 2018, 2019, quando me aproximei, a história não era superconhecida. Conectei-me rapidamente.

A maior dificuldade no documentário é o acesso. Sempre que você se aproxima de uma história, principalmente se houver uma questão trágica, a família vai ser resistente. Quando eu me encontrei com o seu Ivo, a resposta foi muito rápida e positiva. Na verdade, ele estava procurando alguém para fazer um projeto audiovisual sobre o Marco Aurélio.

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O seu Ivo nunca se deixou levar pelo tempo. Se lá em 1985 ele usou os jornais impressos e a televisão aberta, ele foi se adaptando. No início da década de 2000, ele foi procurando outros veículos. Quando o streaming surgiu, ele falou: 'Bom, agora é isso'. Rapidamente eu entendi que ele não só queria contar essa história, como ele estava à procura. O gesto dele era muito simples: levantar um grande cartaz de "procura-se". Os cartazes que ele pendurou pelo Brasil inteiro já não tinham mais esse efeito. E, se isso for para uma plataforma de streaming, pode ser que resolva esse drama da família. Foi quase como uma missão do seu Ivo.

Muitas pessoas elogiam a pesquisa do podcast e eu fico feliz. De fato, a gente tinha um time de pesquisadores que foi muito a fundo, mas a gente deu uma largada a 100 por hora. O seu Ivo tinha um material, apesar de não estar 100% organizado, com todos os telefones que ele anotou na vida. Tudo estava em algum lugar da casa dele. Então, rapidamente, o projeto ganhou força.

Quais eram as grandes preocupações da equipe na hora de produzir o podcast e como isso é trazido para a série audiovisual?

Eu sempre me vali de uma máxima, até porque entendi outras camadas do que é um pai procurando por um filho. Antes de a gente entender como iria contar essa história, [perguntei] o que esse pai quer dessa procura. Na minha opinião, [a história] não é o que o Marcelo acha disso.

Em nenhum momento eu queria atravessar o seu Ivo. Ele tinha uma máxima dentro do projeto, que era: se nunca ninguém encontrou uma pista, um rastro dele morto, por que eu não posso procurar por ele vivo?

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A partir daí, e respeitando essa possibilidade de levar todas as hipóteses a sério, eu produzi as hipóteses, no sentido de contar essa história de forma respeitosa, muitas vezes me consultando com a família. Eu desenvolvi um relacionamento com o biografado, ou com a família do biografado, digamos assim, que eu nunca imaginei. Todas as vezes que eu tinha alguma dúvida no podcast, eu me perguntava o que o seu Ivo faria.

Série documental 'Pico dos Marins' reproduz os eventos que levaram ao desaparecimento do escoteiro
Foto: Davi Victor/Globoplay/Divulgação / Estadão

O que a nova série traz de novidades em relação ao podcast?

A série audiovisual contém inúmeros fatores novos em relação ao podcast. As investigações avançaram. Em cada hipótese, a nossa pesquisa também avançou. Eu descobri novos arquivos na casa do seu Ivo.

Talvez o maior ativo da série audiovisual seja a dona Neuma [mãe de Marco Aurélio, falecida em 2015]. Nós encontramos duas fitas em que ela entrevista o Juan. O conteúdo daquela mãe, uma leoa procurando por um filho, é tão sensível, delicado e rico que isso trouxe outra orientação também.

É muito interessante como a Neuma e o Juan, nessas conversas, estavam apontando, sem perceber, para as investigações atuais. As investigações atuais giram em torno de uma família que morava ali no entorno do Pico dos Marins. Em boa parte do diálogo, o Juan fala: "Neuma, alguma coisa ali foi diferente, a polícia não quer ouvir minha história."

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Quanto às novidades, o caso foi reaberto em 2021. O que o podcast faz é ir até as primeiras escavações, quando, de certa forma, há um indício positivo de que provavelmente algo aconteceu ali. O que a série audiovisual faz é acompanhar, de uma forma inédita, ao lado dos peritos, o embarque de uma tecnologia nova, que são os drones sensoriais.

O que a gente acompanha com muito cuidado é esse avançar da Polícia Científica do Estado de São Paulo. Os drones sensoriais detectam o que estiver enterrado embaixo da terra sem você precisar escavar de fato. O caso Marco Aurélio virou um ponto de estudo e procura incansável, que pode ser de grande ajuda para outros casos similares. Apesar de ser trágico procurar o corpo de alguém enterrado em um terreno extenso, mais trágico ainda é ficar sem a resposta.

Desta forma, avançamos outras duas escavações em relação ao podcast. Nós vamos publicar na série o resultado dessas perícias e como a família vai acompanhando tudo isso. Todo mundo me pergunta depois do podcast: "Mas o que aconteceu?" A série audiovisual vai entregar.

No final de cada episódio do podcast, você pedia para as pessoas enviarem um e-mail caso tivessem alguma informação. Esses pedidos levaram a algo concreto?

Eu achava que o podcast seria um fracasso absoluto. Tinha medo da exposição porque, durante o processo de pesquisa, cheguei a ser ameaçado e ouvi que "não é legal tocar nessa parte da história". Existe muito medo porque algumas pessoas podem estar pagando por uma suspeita equivocada. Então, achei que o podcast não iria reverberar. E foi muito rápido, ficou em primeiro lugar por quatro meses e o caso estava vivo e mudando ao mesmo tempo.

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Recebemos muitos e-mails, alguns com indicações importantes. Temos novos entrevistados na série audiovisual graças à colaboração do público. E, mais do que isso, Piquete é uma cidade muito pequena. Quando eu estava fazendo o podcast, era visto com desconfiança e muitas pessoas se recusavam a dar entrevista. Uma vez que o podcast foi reconhecido como um projeto sério, as pessoas que negaram entrevista toparam falar. É o caso do [escoteiro] Osvaldo. Ele dá uma entrevista importantíssima na série audiovisual. Fomos entrevistar a família que abrigou a família Simon em Piquete durante os 30 dias de busca que eles ficaram lá. A série audiovisual ganhou a credibilidade do podcast e se aprofundou.

Uma história como essa, sem conclusão oficial e cercada de teorias, abre muito espaço para especulações. Como contar essa história sem que se abra espaço para sensacionalismos e exageros?

No podcast, eu aprendi muito sobre um processo criminal com o Ivan Mizanzuk. Existia uma preocupação dupla: eu não queria fazer algo emocionalmente sensacionalista e o Ivan carregava essa preocupação em uma questão mais técnica. Quando a gente chegava a alguma hipótese, ele era uma espécie de contraprova. Ele falava assim: "Tá, mas como? O que você tem a favor disso?" Então, existia essa preocupação emocional para não expor a família, e o Ivan somou a parte técnica.

Quando eu fui para a série audiovisual, eu já tinha mais experiência com a criminologia do que o Marcelo que começou o podcast. Então, comecei a me sentir mais à vontade para conversar com delegados e lidar com o inquérito de forma mais técnica.

Em séries de crimes reais, a gente tem que tomar muito cuidado com as pessoas que estão envolvidas. E, ao mesmo tempo, precisa valorizar e avaliar corretamente o documento oficial dessa história, que é o inquérito policial. O Marcelo não é investigador, não é um detetive, nem mesmo o Ivan. Então, foram esses dois pontos: respeitar o inquérito e respeitar o trabalho da polícia. O que nós fomos descobrindo, nós fomos imediatamente colaborando com a polícia.

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Eu acho que muitas histórias de crimes reais estão sendo publicadas, devido ao tempo e à pressão dos players, com pouco tempo para ter essa análise cuidadosa para com os envolvidos e o trabalho investigativo. Eu não estou generalizando, mas tenho medo de cair nesse lugar.

Como a série pode trazer novos entendimentos do caso do Marco Aurélio e de investigações como esta, ainda sem resposta?

Em um dos dias em que eu estava na casa do seu Ivo, descobri uma caixinha com três rolos de filme em Super-8. Peguei todos e revelei. Isso eu não contei no podcast propositalmente. Na hora em que eu projetei o filminho Super-8, eu vi o Marco Aurélio escoteiro, o Marco Antônio, o Fábio [irmãos de Marco Aurélio]. Eu os vi fardados, nas atividades, felizes, levando a sério.

A partir desses filmes, eu entendi que, olhando para o Pico dos Marins, a montanha é a mesma de 1985, obviamente. Se eu colocasse as mesmas roupas em atores parecidos com o grupo de 85 e filmasse com a câmera do seu Ivo, eu reproduziria algo muito próximo do real.

Nós dramatizamos a partir do relatório dos escoteiros, e a beleza do impacto é que, quando você mistura o material real do seu Ivo com o material dramatizado, você não sabe muitas vezes o que é o quê. E eu acho que isso, infelizmente, é o que acontece com as possibilidades, com a memória que vai se apagando com o tempo.

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Então, eu acho que isso sempre foi a vontade que eu tinha de ilustrar. Talvez com isso a gente chegue a algum lugar. Quem sabe alguém tem a verdade, liga e fala: "Olha, aconteceu isso." Aconteceu no caso Evandro. Acho que isso só o tempo proporciona.

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