Atrasos e cancelamentos de trens são registrados em vários países europeus em meio a altas temperaturas. Trilhos, linhas aéreas de energia e sistemas de ar-condicionado são os principais problemas.As temperaturas na Europa têm batido recordes nos últimos dias e causado um caos na malha ferroviária da região, expondo os limites dessa infraestrutura. O resultado é uma série de atrasos e cancelamentos, além de alertas para que pessoas com problemas de saúde evitem viajar.
Ao redor do continente, os sistemas de transporte estão sob pressão. Para as ferroviárias, as principais dificuldades incluem linhas aéreas de energia que se expandem e cedem, trilhos que se dilatam sob o sol e sistemas de ar-condicionado sobrecarregados.
No Reino Unido, a Network Rail impôs restrições de velocidade. Já a Eurostar informou que cancelou quatro trens previstos entre Londres e Paris nesta quarta e quinta-feira. A empresa ferroviária holandesa NS também anunciou a redução no número de trens de algumas rotas devido ao calor.
Os cortes no serviço ferroviário ocorrem ainda na França e na Bélgica, onde grande parte da rede e dos veículos têm várias décadas. Quando há ar-condicionado, o sistema muitas vezes desliga automaticamente se os vagões ficam quentes demais, o que leva as operadoras a cancelar preventivamente trens nas rotas mais expostas.
A operadora nacional belga SNCB retirou de circulação, nos horários de pico, trens sem ar-condicionado, enquanto a francesa SNCF suprimiu 10% dos trens da região de Paris para evitar o superaquecimento dos trilhos, que pode causar deformações permanentes.
As linhas aéreas de energia - cujos cabos suspensos sobre vias férreas transmitem energia elétrica aos veículos - também podem ceder quando o metal se expande com o calor, aumentando o risco de enroscarem em trens em circulação.
Uma linha de energia rompida é "fortemente suspeita" de ter causado uma grande paralisação de um trem de carga na estação Gare de l'Est, em Paris, na semana passada, afirmou Séverine Lepère, diretora da SNCF para a região metropolitana parisiense.
O que torna esta onda de calor diferente?
Ao contrário de picos de temperatura mais curtos, a atual onda de calor é excepcional porque o calor extremo se mantém por vários dias sem resfriamento significativo à noite - com previsão de vários dias adicionais com temperaturas em torno ou acima de 40 °C.
A temperatura dos trilhos pode subir ainda mais, atingindo 60 °C, o que faz o metal se expandir de maneira perigosa, assim como ocorre com as linhas de energia.
"O empenamento dos trilhos e a perda de contato da rede elétrica são o que realmente preocupa os engenheiros", disse John Lawrence, presidente da Railway Technical Network, da Instituição de Engenharia e Tecnologia do Reino Unido.
"Isso traz riscos de descarrilamento, e as linhas da parte de cima podem ceder e enganchar nos pantógrafos [os dispositivos que captam a energia das linhas aéreas], interrompendo a circulação ou exigindo longos desvios."
Equipamentos eletrônicos de sinalização também podem falhar sob calor extremo.
Por que na Europa e não em outras regiões quentes?
Trens operam sob altas temperaturas na Índia e na África, por exemplo, mas essas regiões contam com poucos trens de alta velocidade como os TGVs franceses, que podem atingir 320 km/h.
"As altas velocidades que temos na Europa exigem trilhos extremamente confiáveis e uma rede de melhor qualidade - não se pode ter a menor folga nas tolerâncias", afirmou Pierre Plaindoux, especialista ferroviário da consultoria MC2I.
Ele também observa que, nos Estados Unidos e no Canadá, onde o transporte ferroviário de passageiros é muito menos amplo, linhas aéreas de energia quase nunca são utilizadas. A grande maioria dos veículos em circulação são trens a diesel nas principais linhas.
A Europa, entretanto, está aquecendo mais do que o dobro da média global, segundo a Organização Meteorológica Mundial, tornando episódios prolongados de calor cada vez mais prováveis.
Quais são possíveis soluções?
Um monitoramento mais preciso da temperatura dos trilhos poderia permitir a imposição de limites de velocidade, em vez de cancelamentos preventivos. Plaindoux afirma que, em países com mão de obra mais barata, inspetores são distribuídos pela rede - enquanto, na França, por exemplo, o plano é instalar mais sensores.
Outra opção é pintar os trilhos de branco, para refletir o sol e o calor em vez de absorvê-los, prática cada vez mais comum em países como Reino Unido e Itália.
"A tinta refletiva pode reduzir entre 5 e 10 °C da temperatura dos trilhos", disse Antonios Kanellopoulos, professor associado de materiais inovadores de construção e diretor do Centro de Pesquisa em Engenharia da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra.
Instalar linhas de energia rígidas, que não sofreriam o risco de ceder com o calor, também vem sendo explorado como alternativa. "Na França, elas foram instaladas em algumas dezenas de quilômetros em linhas de alto tráfego, e haverá mais, mas não em longas distâncias - seria caro demais", disse Plaindoux.
ht/cn (AFP, AP)
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