The Town além dos muros: a história por trás do Complexo da Paz, em Interlagos
Cinco comunidades interligadas estão há 70 anos se construindo e lutando por melhorias, independente de festivais
Quem chega ao The Town pelas principais ruas e avenidas de Interlagos, ou assiste aos shows realizados na parte baixa do Autódromo, dificilmente percebe as cinco comunidades que cresceram ao redor nos últimos 70 anos. Elas formam o Complexo da Paz.
“As famílias começaram a chegar logo depois da inauguração do autódromo, na década de cinquenta. Meu pai trocou uma geladeira velha por um barraco e veio com esposa e dois filhos”, lembra Rafael de Moraes Souza, 34 anos, presidente da Associação de Moradores da Favela Vila da Paz.
A Vila da Paz tem cerca de nove mil habitantes. É a maior das cinco comunidades interligadas no entorno de Interlagos. “Não é só no Rio de Janeiro que tem complexo, não”, diz Souza, e lista Morrão, Vila Nicarágua e os jardins Marabá e Cristal. A união das quebradas foi construída ao longo de décadas.
Passagem de barracos para apartamentos deu dignidade à vizinhança
Diversas rivalidades foram superadas ao longo do tempo, seja pelo diálogo, pela luta conjunta por infraestrutura, pela mistura de jogadores das comunidades em campeonatos de futebol ou ainda pela construção de conjuntos habitacionais.
Lembra do Cingapura? Eram condomínios populares construídos na gestão do então prefeito Paulo Maluf. No entorno de Interlagos, os 11 primeiros foram entregues em 1995, no Jardim Cristal, que faz divisa com o muro do Autódromo. Depois, outros 44 conjuntos habitacionais foram entregues pelo prefeito Celso Pitta, na Vila da Paz.
Muitos moradores estão concluindo agora os 30 anos de prestações e, enfim, recebem o título de propriedade. Terminaram pagando R$ 58 por mês. Hoje, os prédios precisam de reformas nos telhados e pintura. Um apartamento de 62 metros quadrados está avaliado em cerca de R$ 150 mil.
Campeonato de várzea une as comunidades e estabelecer a paz
A luta por soluções como o fim do lixão — substituído pela Praça da Cidadania — também ajudou a unir as comunidades e fortalecer o sentimento de pertencimento. O aposentado Severino Ramos de Queiroz, de 70 anos, é um exemplo disso: ele faz a manutenção do espaço, de graça, todos os dias. “Isso aqui era só lixo, tem que manter”, resume.
Em 2018, a conquista da Copa Pioneer — uma das mais importantes da várzea paulistana — foi mais um passo para aproximar as cinco favelas. O Mocidade Esporte Clube Vila da Paz (MAC Vila da Paz) reuniu jogadores de todo o território. No mesmo ano, um show do Sampa Crew aglomerou geral.
A quebrada abriga vários times, como Tranca, Garotos, América e Marabá. O campo bem cuidado, de grama sintética, é o orgulho da comunidade. Aos domingos, os veteranos entram em campo cedo e, depois, se reúnem para churrasco e cerveja nos quiosques, enquanto outras equipes jogam.
O que acontece no Complexo Vila da Paz quando rola o The Town?
Os principais impactos do The Town nas comunidades do Complexo da Paz estão no policiamento, que aumenta significativamente, e no trânsito: o fluxo de pessoas e veículos trava, e as corridas por aplicativos ficam mais caras. “Os moradores da favela que precisam usar não estão no festival”, afirma o presidente da Associação de Moradores da Vila da Paz.
Fora isso, a vida segue normalmente aos finais de semana: jogos de futebol, missas e cultos, a feira de sábado. Nem os empregos temporários gerados pelo The Town atraem muito, a maioria dos moradores está empregada. Enquanto o festival acontece do outro lado do muro, quem vive no Complexo da Paz mantém seu próprio calendário de festas.
Edson Coelho Cristino, de 46 anos, vai comemorar o aniversário com a comunidade. Ele mantém um quiosque ao lado do campo de futebol e promete “um balde de caipirinha de graça para todos que vierem prestigiar”. O balde é grande. Pergunto se a festa é por causa do The Town. “Não mano, é que meu aniversário foi nesta semana mesmo. É um rolê da própria quebrada.”