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Solidariedade e saúde mental infantil

Um galo sozinho não tece uma manhã: a solidariedade é essencial para a saúde mental e a vida em comunidade, da infância à vida adulta

9 set 2025 - 12h10
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O poema Tecendo a manhã, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, é um excelente exemplo do que é solidariedade. Logo no primeiro verso, ele diz que um galo sozinho não tece uma manhã. São necessários os outros galos com os raios de sol de seus gritos para a tecitura da teia da manhã. Depois, a teia ganha corpo, tornando-se uma tela, e depois uma tenda que, por sua vez, abriga a todos.

A solidariedade, como mostra o poema de João Cabral de Melo Neto, é a base da vida em comunidade e da saúde mental; saiba mais
A solidariedade, como mostra o poema de João Cabral de Melo Neto, é a base da vida em comunidade e da saúde mental; saiba mais
Foto: Reprodução: Canva/PixelsEffect / Bons Fluidos

De fato, como ensina o filósofo francês Comte-Sponville, solidariedade transmite a ideia de conjunto, de um corpo sólido, em que as partes se sustentam, de modo que o que acontece com uma repercute nas outras. A manhã de João Cabral de Melo Neto é uma poderosa metáfora da vida de cada um de nós e de toda a humanidade.

A teia da nossa vida é tecida a muitas mãos

A solidariedade está no princípio da vida. Ninguém se faz sozinho, seja qual for o sentido com o qual se tome essa afirmação. Por exemplo, até os cinco anos de idade, uma criança que não tenha pelo menos um cuidador adulto, e deixada sozinha, morrerá em alguns dias. Ampliando o leque para outros domínios da vida, como educação, socialização, formação moral, ética e política, a criança se forma na convivência com outros seres humanos.

Como diria o psicanalista francês Jacques Lacan, o pequeno ser se torna humano pela convivência com outros seres humanos, o que significa que a família, seja ela qual for, é o primeiro espaço de humanização de uma criança. Posteriormente esse espaço se expande para a vizinhança, a escola, o bairro, a cidade e o mundo.

A solidariedade precisa ser ensinada

A solidariedade como constitutiva da própria existência é um fato, mas isso não significa que tenhamos consciência dela. Às vezes ela não é sentida e nem percebida, e a prova disso são pessoas que passam a vida inteira agindo como se tivessem nascido de si mesmas e se imaginam autossuficientes.

Como explica a antropóloga francesa Michèle Petit, para despertar a sensibilidade nas pessoas em relação às outras, não basta o contato com a literatura, com a arte ou com a ciência — claro que tudo isso é importante, mas é necessário mais: o trabalho de mediação, ou seja, que os pais, os professores e outros cuidadores chamem a atenção para o fato de que vivemos em rede, e o que fazemos afeta os outros e o que os outros fazem também nos afeta.

Como diria Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, é verdade que nossas piores tristezas são causadas pela vida em comunidade, mas também é verdade que nossas melhores felicidades só podem ser vividas em conjunto, como na família e no trabalho.

Solidariedade e saúde mental

Uma das relações entre solidariedade e saúde mental repousa no equilíbrio dinâmico entre a importância que damos ao grupo e a nós mesmos. Há aquelas pessoas que se abandonam e se preocupam apenas com o grupo. Por exemplo, uma mãe ou um pai que vivem apenas em função dos filhos. Pode ser que com o passar do tempo a saúde mental não suporte isso.

Por outro lado, há aqueles que se importam apenas consigo mesmos como se os outros não existissem. Com o tempo, talvez, percebam o imenso vazio que constitui o si mesmo de cada um e entrem em sofrimento psíquico. Por isso, é importante ensinar as crianças desde cedo a amarem os outros e também a si mesmas, como diria o psiquiatra e psicanalista Joel Birman.

Uma boa saúde mental com certeza envolve uma boa medida de autoestima, mas também de se perceber como parte da grande teia da vida. Dito de modo simples: a felicidade depende do bom amor a nós mesmos e aos outros. Ninguém consegue ser feliz sozinho.

Sobre o autor

Francisco Neto Pereira Pinto é professor, escritor e psicanalista. Doutor em Ensino de Língua e Literatura, leciona no programa de pós-graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins e nos cursos de Medicina e Direito do Centro Universitário Presidente Antônio Carlos. Membro da Academia de Letras de Araguaína - Acalanto, é autor do livro de contos "À Beira do Araguaia". Como escritor de obras infantis, publicou "O gato Dom", "Você vai ganhar um irmãozinho", "Saudades do meu gato Dom" e "Olha aquele menino, mamãe!". Marido e pai de dois meninos, ele utiliza a literatura como forma de contribuir para a criação dos filhos e de exercitar a paternidade.

*Fonte: Francisco Neto Pereira Pinto e LC Agência de Comunicação

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