Pediatra desmente ligação entre Tylenol e autismo levantada por Trump: 'Ciência não é opinião'
Presidente dos EUA polemizou ao afirmar que existe aumento no risco de autismo em crianças expostas ao paracetamol
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou polêmica ao sugerir que o uso de Tylenol (paracetamol) durante a gravidez poderia estar relacionado ao aumento dos casos de autismo. A declaração repercutiu internacionalmente essa semana e foi alvo de críticas da comunidade científica.
“Ciência não é opinião: é construída com dados, décadas de estudo e rigor metodológico. Trazer à tona dúvidas sem base sólida só amplia o sofrimento das famílias e dificulta o acesso a informações corretas”, afirma a pediatra Dra. Anna Bohn, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ao reforçar que não há evidências para sustentar a fala do presidente.
O que diz a ciência
Segundo a médica, o maior estudo já conduzido sobre o tema — envolvendo 2,5 milhões de crianças na Suécia — não encontrou aumento do risco de autismo em filhos de mulheres que utilizaram paracetamol na gestação. A análise comparou inclusive irmãos de famílias com histórico da condição e chegou ao mesmo resultado: nenhuma diferença.
Pesquisas menores que sugeriram associação, explica Bohn, têm falhas metodológicas relevantes. Muitas foram baseadas em relatos maternos anos após a gravidez, um dado considerado impreciso e sujeito a vieses. Além disso, não foi identificada relação entre a dose do medicamento e a suposta elevação do risco.
O paracetamol é amplamente utilizado desde a década de 1950, enquanto os primeiros registros clínicos de autismo datam de 1911. Países como Japão e Noruega também já realizaram estudos populacionais com conclusões semelhantes às do levantamento sueco. Revisões recentes reforçam que o fármaco não representa um risco significativo.
“Atribuir uma condição tão complexa a um único fator não condiz com o conhecimento científico atual e ainda reforça estigmas, culpando injustamente as mães”, ressalta a pediatra.
Ela lembra que, ao contrário do paracetamol, a febre durante a gestação pode trazer complicações reais, incluindo malformações no feto. “Desaconselhar o uso de um medicamento seguro sem oferecer alternativa adequada pode ser mais prejudicial do que benéfico”, explica.
Revistas científicas como a Nature também publicaram respostas às falas de Trump, destacando que não há evidências que justifiquem restrições ao paracetamol na gestação.