O que é antraz? Entenda a doença que voltou a matar na Tailândia após três décadas
Além de uma morte, autoridades identificaram ao menos 638 pessoas que podem ter sido expostas à bactéria causadora da doença; infecção pode acontecer por diferentes vias
Nesta sexta-feira, 2, a Tailândia confirmou a primeira morte por antraz desde 1994. O caso acendeu um alerta de saúde pública depois que as autoridades identificaram pelo menos 638 pessoas que podem ter sido expostas à bactéria causadora da doença, considerada rara e grave.
Na quinta-feira, 1, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado para um surto da doença na República Democrática do Congo. De acordo com a entidade internacional, pelo menos 16 casos suspeitos de antraz foram registrados por lá, com uma morte confirmada. O patógeno também levou à morte de 50 hipopótamos do Parque Nacional de Virunga, no leste do país.
Afinal, o que é o antraz?
O antraz — também chamado de carbúnculo — é uma infecção causada por uma bactéria chamada Bacillus anthracis. Ela é bem conhecida no meio veterinário e agrícola, já que atinge principalmente animais como cabras, bois, carneiros e cavalos. Os selvagens, como hipopótamos, elefantes e búfalos, também podem ser afetados.
Em humanos, os casos são raros, especialmente em países que adotam medidas de prevenção no manejo de animais e produtos de origem animal. Essas medidas incluem, por exemplo, o controle sanitário.
O que torna essa bactéria tão resistente é sua capacidade de formar esporos — uma espécie de "modo de hibernação" da bactéria, especialmente quando o ambiente está desfavorável e sem nutrientes. Essa estrutura é capaz de sobreviver por décadas no solo, em superfícies, roupas e até em peles de animais.
Esses esporos são comuns em áreas rurais e regiões onde o solo abriga a bactéria naturalmente. Animais que pastam em solos contaminados acabam ingerindo ou inalando os esporos e, assim, a doença se espalha. A maioria dos casos humanos ocorre justamente quando há contato com animais infectados, suas carnes ou peles.
Apesar da baixa frequência, o antraz ainda levanta preocupações. Isso porque seus esporos podem ser manipulados em laboratório e transformados em pó inalável, sendo usados como arma biológica.
Em 2001, esporos de antraz foram enviados pelo correio em envelopes nos Estados Unidos. O ataque, que ocorreu próximo ao atentado às torres gêmeas, deixou cinco pessoas mortas e outras 17 doentes.
Como ocorre a transmissão?
A transmissão do antraz para seres humanos pode acontecer de três formas principais, dependendo da via de entrada dos esporos no organismo:
- Cutânea (pela pele) - É a forma mais comum. Ocorre quando os esporos entram por cortes ou feridas na pele, geralmente após o manuseio de animais infectados ou seus produtos (como couro ou pelos).
- Inalatória (pelos pulmões) - É a forma mais grave e mais letal. Acontece quando a pessoa inala esporos suspensos no ar. Por isso, é o tipo de antraz mais associado ao uso como arma biológica.
- Gastrointestinal - Menos comum, ocorre ao ingerir carne contaminada malcozida.
Existe também uma forma ainda mais rara chamada 'antraz por injeção', relatada em usuários de drogas injetáveis contaminadas com a bactéria, principalmente na Europa.
Na maioria dos casos, o antraz não é transmitido de pessoa para pessoa. No entanto, em situações muito incomuns, a infecção pode ser transmitida de uma pessoa para outra por contato direto com feridas ou por objetos contaminados.
A forma mais eficaz de prevenção é vacinar rebanhos em regiões onde o antraz é comum. Isso reduz o risco de contaminação do solo e de transmissão para humanos.
Como o antraz se manifesta no corpo?
O tempo entre a exposição à bactéria e o início dos sintomas costuma variar de 1 a 6 dias. Mas no caso do antraz inalatório, ele pode demorar mais: os sintomas podem aparecer até seis semanas depois do contato com os esporos.
Forma cutânea: começa com uma 'bolinha' vermelha na pele, coçando, mas que não dói. Com o tempo, a lesão aumenta de tamanho, fica com uma borda avermelhada, causa inchaço e forma bolhas. No centro, aparece uma ferida que libera um líquido claro ou com sangue, e depois se transforma em 'casca' escura — conhecida como "pústula maligna".
É comum que a pessoa tenha inchaço nos gânglios, além de mal-estar, dores no corpo, febre, náuseas e vômitos.
Antraz gastrointestinal: pode ser assintomático, mas também envolve quadros graves e fatais. O paciente pode ter febre, dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia com sangue. Em alguns casos, há acúmulo de líquido no abdome (ascite), necrose do intestino e infecção generalizada.
Antraz por inalação: os sintomas iniciais lembram os de uma gripe comum, como febre, cansaço e dor no corpo. Mas em poucos dias, o quadro piora com dor no peito, falta de ar, coloração azulada da pele (cianose), choque e perda de consciência.
Internamente, a bactéria provoca uma inflamação grave nos gânglios do tórax (linfadenite), que se espalha para os tecidos ao redor, causando acúmulo de líquido e inchaço nos pulmões. Em casos extremos, pode ocorrer meningite hemorrágica ou a forma gastrointestinal da doença.
Como é feito o tratamento?
O tratamento começa com o uso de antibióticos, que ajudam a combater a bactéria responsável pela infecção. O tipo de antibiótico, ou a combinação deles, vai depender da forma da doença, gravidade do quadro e das condições de saúde da pessoa.
Em situações como o antraz injetável, pode ser necessário remover cirurgicamente o tecido infectado. Já quando a infecção está em estágio avançado, especialmente na forma pulmonar, os antibióticos podem não dar conta sozinhos. Nesses casos, além dos medicamentos, o paciente pode precisar de internação com cuidados intensivos, como o uso de ventiladores mecânicos.