Ele faz ginástica e anda de bike aos 90 anos: 'Vou pouco ao médico'
Praticar exercícios físicos desde a juventude ajuda a chegar à velhice com boa saúde, mas nunca é tarde para começar
"O movimento sempre fez parte da minha vida", ri o argentino naturalizado brasileiro José Antonio Quiros, que vive no País desde 1960. Pepe, como gosta de ser chamado, é exemplo vivo de que se manter ativo é um dos pilares para envelhecer bem e com saúde. Nascido em novembro de 1933 e perto de completar 90 anos, ele trabalha como cabeleireiro, preside o sindicato patronal da categoria, anda de moto pelas ruas de São Paulo e faz fortalecimento muscular em casa com halteres e outros aparelhos de ginástica, combinado com caminhadas e, às vezes, dá umas voltas de bicicleta.
Segundo o professor de Educação Física Marcio Atalla, a prática constante de atividade física é benéfica em todas as partes da vida, especialmente para quem já passou dos 60, pois ajuda no controle de doenças crônicas e de fatores de risco para câncer, diabetes e hipertensão. Ele recomenda aos idosos que invistam em fortalecimento muscular, como musculação ou pilates - especialmente quem já passou dos 65 anos -, que ajuda na resistência das pernas e pode diminuir o risco de quedas e fratura no fêmur. "Atividade física é o melhor remédio e economia que você pode fazer para sua vida. Ela vai manter sua autonomia, equilíbrio, condição cardiovascular boa, produção de novos neurônios e melhora da questão emocional", ressalta.
Até os 80, Pepe disputou corridas de rua, como a São Silvestre, assim como provas de biathlon, que combinam bicicleta e natação, e triathlon, que envolve nadar, correr e pedalar em uma única disputa. Segundo ele, o segredo para uma bateria que parece interminável está em ter começado a se exercitar e mantido a constância desde jovem até chegar à velhice.
Segundo ele, era proibido fazer halterofilismo na Argentina, pois os médicos da época diziam que fazia mal para o coração e podia levar à morte. "Por isso, treinava de maneira clandestina e produzia os próprios equipamentos com o conhecimento de torneiro mecânico que adquiri."
O argentino-brasileiro, que foi goleiro profissional e chegou a defender o River Plate, decidiu imigrar para o país vizinho atraído pelo mercado da bola daqui, passando por clubes como o Comercial de Ribeirão Preto, Jaboticabal e Taubaté. Assim que se mudou para São Paulo, nos anos 1960, começou a frequentar academias no centro da cidade e manteve o hábito de "puxar ferro" até hoje.
Pepe também nunca teve preguiça para conhecer novas modalidades e aprendeu a nadar e pedalar aos 50 anos para praticar provas com mais de uma modalidade, como o triathlon, onde estreou com 54 anos. Por ser competitivo, ganhou vários troféus, medalhas e guarda memórias de maratonas que correu pelo mundo, como em Nova York e Paris.
Apesar de esbanjar vitalidade e bom humor, Pepe brinca que não leva vida regrada atleta e que o lema dele é não esquentar a cabeça. "Sou diabético e nos anos 1990, tive reto colite. Vou pouco ao médico e não coloco restrições na dieta, como de tudo e tomo água com gás o dia inteiro. Tenho uma alimentação simples."
Nunca é tarde para começar a se exercitar
Mas mesmo quem decide começar mais tarde pode se beneficiar dos exercícios físicos. A empresária piauiense Francisca Noronha Gomes Gomide, de 70 anos, é um bom exemplo de quem decidiu abraçar um novo estilo de vida na velhice. Três anos atrás, ela estava em uma cadeira de rodas, com sobrepeso, à espera de uma cirurgia para colocar uma prótese no joelho e com medo de como seria dali em diante. "Comecei a fazer atividade física aos 67 anos, depois de uma ida ao consultório da geriatra, que me mostrou um mundo que desconhecia, de me alimentar melhor, ser mais saudável", conta.
Francy, como é conhecida, conta que costuma treinar três vezes por semana com eletroestimulação de corpo inteiro, sendo duas sessões voltadas para força e outra de estímulo metabólico. Segundo ela, o fato de passar a cuidar mais de si mesma trouxe benefícios como o controle da pressão arterial e mais autonomia, como voltar a dirigir com segurança e levar os netos para passear. "Sigo fazendo acompanhamento médico, reeduquei minha alimentação e aprendi a fazer escolhas mais equilibradas. Sempre tive alegria de viver e sinto mais isso atualmente, de viver na plenitude."
Fortalecer os ossos e a musculação é importante
A geriatra Mariana Carvalho, que faz o acompanhamento de Francy desde 2020, explica que o hábito de prevenir e tratar doenças por meio de práticas como a musculação oferece bem mais do que só independência, o que já não é pouco. Para caminhar bem no dia a dia, é preciso ter massa muscular. As mulheres, a partir do período da menopausa, sofrem mais com A queda hormonal e têm mais predisposição para desenvolver sarcopenia (alteração muscular própria do envelhecimento), que atinge também os homens após os 60 anos.
"A diferença é que, nas mulheres, a homeostase hormonal é mais severa e quem sustenta os ossos são os músculos. Quem tem osteoporose não sofre apenas do enfraquecimento deles, mas de toda a musculatura que os recobre. Por isso, fortalecimento muscular é fundamental", ensina.
Mariana esclarece que o músculo é um órgão endócrino que libera substâncias boas para o organismo e ajuda no estímulo e melhora da memória e por isso, deve ser exigido em treinos com resistência. Para ela, nunca é tarde para começar a se exercitar, desde que haja acompanhamento correto de um profissional qualificado para se evitar lesões musculares em áreas em que já existe desgaste, como coluna, joelhos, cotovelos, quadril e ombros. Ela aponta que o movimento constante traz melhorias no sono, equilíbrio e qualidade óssea. "Tenho caso de pacientes que consegui tirar remédios que pareciam impossíveis de largar."
O ortopedista Cesar Janovsky, do Hospital Santa Catarina, assina embaixo e diz que o fortalecimento muscular é obrigatório para o idoso, por ser o mais simples e efetivo de se praticar. "Doenças ósseo-metabólicas não costumam dar sinais. O paciente cai e pode se descobrir aí que tem sarcopenia, osteoporose, artrite reumatoide. Só o exercício pode ajudar e é preciso observar as limitações de cada pessoa e fazer acompanhamento de perto na hora da atividade física."
Cesar aponta que, caso o idoso ou idosa que tenha problemas nos joelhos, é necessário fazer fortalecimento muscular em vez de caminhar ou correr - atividades que podem ser boas para o coração, mas péssimas para a saúde das articulações. "Para quem não gosta do ambiente da academia, é possível experimentar pilates, eletroestimulação de corpo inteiro. Para quem gosta de treinos aeróbicos, pode pedalar, fazer natação, hidroginástica ou dança, que estimulam a sociabilidade, outro fator importante para uma vida longeva e saudável."
Vida ativa desde cedo
A rotina de José Odorico Rolim segue intensa, mesmo aos 79 anos e aposentado. Além de tocar uma oficina de marcenaria e ateliê em casa, está sempre fazendo algo. Tanto que, se não pode mais marchar ou nadar, duas de suas paixões, ele se mantém fisicamente ativo fazendo arremesso de peso e lançamento de martelo, martelete e disco, modalidades em que compete na categoria master até hoje.
"Perto dos 60 anos, sofri três acidentes vasculares cerebrais. O primeiro veio quando ia tentar bater o recorde sul-americano dos 1.500m de natação master e estava dentro da piscina. Voltei a treinar um mês após o AVC e bati o recorde. Depois, tive mais dois e o médico indicou que eu deveria parar de nadar e marchar. Chegava a percorrer de 8 a 12 km por dia na pista", conta Rolim. Campeão mundial de marcha de veteranos, coleciona títulos em provas de biathlon e short triathlon (que tem a metade das distância da prova tradicional, que consiste em 1.500m de natação, 40km de ciclismo e 10km de corrida).
Ele acredita que só continua tendo uma vida ativa no esporte por conta dos hábitos que cultivou desde cedo. "Nadei profissionalmente dos 14 aos 27 anos, parei quando me casei, aos 28, e passei uma década e meia sem me exercitar. Retomei às atividades físicas com mais de 40 anos, enquanto trabalhava em um banco", diz. "Quando fui à geriatra pela primeira vez, na casa de 50 anos, ela disse que eu não era normal, pelo fato de manter uma vida tão agitada."
Rolim, que faz acompanhamento médico, come de tudo, apesar de a esposa "fiscalizá-lo" para não consumir muito torresmo, alimento que adora desde os tempos em que vivia em Piracicaba, sua cidade natal. Só bebe cerveja sem álcool e nunca fumou.
Saúde do coração
Para o cardiologista Roque Savioli, do Hospital do Coração, a prática constante de exercícios físicos é muito importante do ponto da saúde cardiovascular e de maneira global também, já que 20% da saúde está diretamente ligada a uma vida mais ativa.
"Uma simples caminhada, de cerca de 20 a 30 minutos e feita todos os dias, chega a diminuir em 30% as chances de mortalidade cardiovascular, como enfarte, AVC. Recomendo essa prática não só para quem tem mais de 60 anos, mas para a vida toda", diz o médico, ele mesmo um exemplo para seus pacientes. Aos 73 anos, segue malhando de quatro a cinco vezes na semana às 6h da manhã, antes de iniciar o dia de trabalho no consultório.
Roque reforça que a receita para um envelhecimento bem-sucedido está na prática regular de exercício físico, junto com uma alimentação balanceada, higiene do sono, controle do estresse e das emoções. "Sempre digo que a pessoa que tem pavio curto não dura muito. É claro que cada indivíduo precisa treinar de acordo com seu estilo de vida e condições clínicas", afirma. "Importante frisar que uma pessoa de 70 anos não deve ter o mesmo grau de esforço de uma de 25 e cada um deve ir no seu limite. Isso não é desculpa para deixar de se exercitar e não há idade para começar."
Para quem é idoso e quer começar a se movimentar, o cardiologista é enfático de que é necessário passar antes por avaliação cardiológica e fazer exames como eletrocardiograma, teste de esforço, ecocardiograma e a medição da pressão arterial com o intuito de evitar possíveis complicações durante o esforço mais intenso.