Afinal, em qual idade devemos buscar um geriatra?
A atuação desse médico é ampla, então não faz sentido achar que ele deve ser procurado apenas na velhice; mas tem momento certo para marcar uma consulta?
Era uma tarde comum no consultório. O relógio marcava o início da agenda e a primeira paciente do dia foi Helena, de 85 anos, uma senhora querida, lúcida e de humor afiado. Conversamos sobre suas doenças crônicas, como diabetes e pressão alta, revisamos exames, ajustamos medicações e falamos de algo que muitas vezes fica em segundo plano: vacinação. Entre uma orientação e outra, brincou com a filha, comentou sobre seus pratos favoritos - ela nasceu em Portugal - e me lembrou, mais uma vez, que envelhecer não é apenas acumular diagnósticos, mas também memórias, vínculos e afetos.
A consulta seguinte foi com Marta, de 67 anos. Ela veio com um objetivo claro: parar de fumar. Não havia grandes queixas, mas havia uma inquietação — o desejo de cuidar melhor da própria saúde. Falamos sobre riscos, estratégias, medos e possibilidades. Ali, a geriatria apareceu não como tratamento de doenças, mas como promoção de saúde e prevenção.
Esses quatro encontros mostram como a atuação do geriatra e do especialista em gerontologia é ampla. Vai muito além de tratar doenças. Envolve promoção da saúde, prevenção, planejamento, orientação, otimização de tratamentos e, sobretudo, cuidado centrado na pessoa. A geriatria não olha apenas para diagnósticos, mas para histórias, prioridades e contextos.
E é nesse ponto que surge a pergunta que mais escuto: afinal, quando procurar um geriatra?
O caso de Marcos, o paciente mais jovem da tarde, ajuda a responder. Não existe idade certa para começar a ser acompanhado por um geriatra. Pessoas mais jovens podem — e devem — procurar esse profissional quando desejarem planejar o futuro, proteger a saúde e adotar estratégias para envelhecer melhor. O que muda, em cada fase da vida, são os objetivos do cuidado.
Entre pessoas mais jovens, o foco costuma ser prevenção, hábitos de vida, saúde mental, atividade física, alimentação, sono e planejamento do futuro. Entre pessoas mais velhas, os objetivos podem incluir reduzir danos, otimizar medicações e evitar efeitos colaterais, orientar cuidadores, preservar autonomia e garantir segurança. Em todas as idades, o princípio é o mesmo: individualizar o cuidado.
Na geriatria, costumamos falar dos "5 Ms": mente, mobilidade, medicações, multicomplexidade e aquilo que "mais importa" para a pessoa. Essa lógica resume bem o que fazemos: olhar para a complexidade da vida e, principalmente, para os valores e desejos de cada indivíduo.
Ao final daquela tarde, percebi que o aspecto mais marcante não havia sido a revisão de exames ou o ajuste de prescrições. Foi a troca. As conversas. O encontro com biografias únicas. O espanto diante do inesperado que é cada história de vida.
Talvez seja isso que a geriatria ensina de forma mais profunda: envelhecer não é um evento que começa aos 60, 70 ou 80 anos. É um processo que se constrói ao longo de toda a vida. E cuidar do envelhecimento é, antes de tudo, cuidar de pessoas — com suas fragilidades, seus projetos, seus medos e seus sonhos.
Se eu pudesse resumir aquela tarde em uma ideia, seria esta: não existe idade para procurar um geriatra. Existe o desejo de viver melhor, hoje e no futuro.