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Desigualdade faz covid matar mais nos bairros pobres do Rio

Letalidade nas regiões carentes é o dobro da registrada nas áreas mais ricas, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

4 ago 2020
10h10
atualizado às 10h31
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A covid-19 matou, nos bairros mais pobres do Rio, proporcionalmente o dobro de moradores nas áreas mais ricas da cidade, comparando-se o número de contaminados pela doença em cada região. A conclusão está em novo estudo da Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A vulnerabilidade pode ser explicada pelo acesso deficiente aos serviços de saúde e pelas más condições de saúde nas partes mais empobrecidas do município.

 Brasil ultrapassa marca de 94 mil óbitos por covid-19
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Foto: Reuters

A pesquisa confirma o que outros levantamentos vêm mostrando: as maiores vítimas do novo coronavírus são socialmente mais desfavorecidos. Foi entre eles que ocorreram oito em cada dez mortes causadas pelo vírus da covid-19 na cidade.

O estudo mostra que 79,6% dos 6.735 óbitos registrados na capital até o dia 13 de junho ocorreram nas áreas mais pobres da cidade. A maioria das vítimas morreu longe da zona sul, Barra da Tijuca e da chamada Grande Tijuca. Essas são áreas que têm Índice de Desenvolvimento Social (IDS) mais alto.

Mesmo com mais idosos, principal grupo de risco para a doença, essas regiões de maior poder aquisitivo tiveram uma taxa de letalidade média de 10% dois infectados. Isso é metade da registrada nos locais mais carentes: 20% em média.

Os primeiros casos de covid-19 surgiram nas regiões mais ricas. O vírus foi trazido para o Rio por pessoas que vieram da Europa. Mas a doença se espalhou, de forma acelerada, para a periferia, a partir de meados de abril.

Apesar da incidência maior nas regiões onde os indicadores apontam melhores condições de vida, a letalidade - número de óbitos em relação ao de casos confirmados - foi mais alta nas menos desenvolvidas.

O estudo "Aspectos Socioeconômicos da Covid-19: o que dizem os dados do município do Rio de Janeiro?" foi lançado na sexta-feira, 31, e elaborado a partir dos dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. A amostra utilizada foi de 43.148 casos e 6.735 óbitos. Foram considerados apenas os registros de residentes no município do Rio de Janeiro.

Para a análise dos aspectos socioeconômicos, os 162 bairros foram divididos em cinco grupos de acordo com o seu IDS, baseado nos dados do Censo Demográfico de 2010 (o último disponível). O Índice sintetiza oito indicadores do censo. A lista inclui condições de moradia, educação e renda, com informação sobre acesso a água, esgoto, entre outros serviços.

O melhor resultado (nível 5) foi encontrado na Lagoa e o mais baixo (1) em Acari, na Zona Norte. A letalidade (a relação entre o número de mortos e o número de infectados) foi praticamente a mesma nos grupos 1 e 2 (que incluem a maioria dos bairros das Zona Norte e de parte da Zona Oeste): de 19,6% e 20%, respectivamente.

À medida em que o indicador melhora, a taxa cai — para 17,85% e 16% nos grupos de bairros 3 e 4 — até despencar para 10% no grupo 5, que reúne as regiões mais ricas do Rio.

De acordo com um dos autores do estudo, Pedro Miranda, economista e pesquisador do Ipea, esse resultado não pode ser observado sem levar em consideração as diferentes condições de acesso aos serviços de saúde e à realização dos testes.

"A subnotificação dos casos e as falhas na identificação dos óbitos podem ser maiores nas regiões menos desenvolvidas", afirmou o especialista. Ele alerta para a importância de informações organizadas e transparentes para auxiliar o poder público no combate à pandemia.

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Estadão
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