Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Caso Lito Sousa: entenda o que é a doença de Creutzfeldt-Jakob e como funcionam os tratamentos experimentais

Médico explica que a condição ainda não tem cura; campanha organizada por familiares planeja incluir o influenciador em tratamentos experimentais

25 ago 2026 - 14h27
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O diagnóstico do influenciador Lito Sousa expôs a gravidade da doença de Creutzfeldt-Jakob, condição priônica rara, degenerativa e de rápida evolução, geralmente esporádica. Sem cura ou tratamento para reverter o quadro, o cuidado foca no alívio de sintomas. Pesquisas como ION717 e PRiSM testam reduzir a proteína priônica, mas especialistas alertam que são terapias experimentais em fases iniciais, com rígidos critérios de inclusão, sem eficácia comprovada ou garantia de cura.

Doença rara e de rápida progressão ganhou repercussão após diagnóstico divulgado pelo criador do canal Aviões e Músicas; especialista explica o que já se sabe sobre a condição e os limites dos estudos experimentais

O diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) divulgado pela família de Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, colocou em evidência uma doença rara, grave e de rápida progressão. A mobilização nas redes sociais em busca de alternativas terapêuticas também chamou atenção para pesquisas que investigam novas estratégias para combater as doenças priônicas.

Reprodução Instagram
Reprodução Instagram
Foto: Revista Malu

Embora existam estudos experimentais considerados promissores, ainda não há medicamento aprovado capaz de interromper ou reverter a evolução da doença de Creutzfeldt-Jakob. Para o médico geneticista Dr. Paulo Zattar Ribeiro, essa diferença é fundamental para que pacientes e familiares recebam informação correta em um momento de extrema vulnerabilidade.

"É compreensível que uma família, diante de um diagnóstico tão grave e de uma doença que pode evoluir rapidamente, procure todas as possibilidades existentes. O ponto é que precisamos diferenciar uma terapia experimental de um tratamento cuja eficácia já foi comprovada. Hoje, existem pesquisas importantes em andamento, mas ainda estamos diante de hipóteses terapêuticas que precisam ser testadas", explica.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob faz parte do grupo das doenças priônicas, condições neurodegenerativas associadas ao dobramento anormal da proteína priônica.

Em condições normais, a proteína priônica, conhecida como PrP, está presente principalmente no sistema nervoso. Na doença, uma forma anormal da proteína consegue induzir outras proteínas normais a também assumirem uma conformação inadequada. Esse processo favorece o acúmulo de proteínas anormais e a destruição progressiva das células nervosas.

A consequência é uma deterioração neurológica extremamente rápida. Entre os possíveis sintomas estão alterações cognitivas, dificuldade para caminhar, perda de coordenação, alterações visuais, mudanças comportamentais, movimentos involuntários e perda progressiva da autonomia.

Segundo o CDC, aproximadamente 85% dos casos de DCJ são esporádicos e, após o início dos sintomas, a evolução pode ocorrer em poucos meses.

"A velocidade de progressão é uma das características que tornam a doença particularmente devastadora. É uma condição muito diferente das doenças neurodegenerativas que normalmente imaginamos quando falamos em demência, porque a deterioração pode acontecer em um intervalo de tempo bastante curto", afirma Paulo Zattar.

Na maioria dos casos, a doença não é hereditária

Apesar de a doença poder ter origem genética, essa não é a situação da maioria dos pacientes.

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 85% dos casos são classificados como esporádicos. As formas hereditárias representam aproximadamente 5% a 15% dos casos e estão relacionadas a alterações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica.

Isso significa que o diagnóstico de DCJ não deve ser automaticamente interpretado como uma doença hereditária na família.

"Doença rara não é sinônimo de doença genética. Na DCJ, a forma esporádica é a mais frequente. A investigação genética pode ser muito importante em situações específicas, principalmente quando existem elementos clínicos ou familiares que levantem essa possibilidade, mas não podemos presumir que todos os familiares de um paciente estejam geneticamente sob risco", esclarece o geneticista.

No caso de Lito Sousa, as informações públicas disponíveis não permitem determinar a classificação etiológica individual da doença.

Existe tratamento?

Atualmente, não existe uma terapia modificadora da doença aprovada capaz de interromper ou reverter a evolução da DCJ.

Isso, entretanto, não significa ausência de cuidados. O tratamento disponível é direcionado principalmente ao controle dos sintomas e à prevenção de complicações, podendo envolver acompanhamento neurológico, suporte nutricional, fisioterapia, controle de dor, agitação e movimentos involuntários, além de cuidados paliativos.

"Mesmo quando não temos uma terapia capaz de modificar a doença, existe muito a ser feito. O cuidado médico continua sendo fundamental para controlar sintomas, evitar complicações e proporcionar o máximo possível de conforto e qualidade de vida ao paciente", ressalta Paulo.

Pesquisas tentam reduzir a produção da proteína priônica

Uma das principais linhas de investigação atualmente busca interferir em uma etapa central do mecanismo da doença: a produção da proteína priônica normal.

A hipótese é que reduzir a quantidade de PrP disponível no sistema nervoso possa dificultar a propagação do processo de conversão da proteína normal em sua forma anormal.

Uma das estratégias estudadas é o ION717, desenvolvido pela Ionis Pharmaceuticals. O medicamento utiliza uma tecnologia conhecida como oligonucleotídeo antissenso (ASO), desenvolvida para interferir no RNA mensageiro relacionado à produção da proteína priônica.

O estudo PrProfile (NCT06153966) avalia segurança, tolerabilidade, farmacocinética e farmacodinâmica do ION717 administrado por via intratecal. O estudo é de fase 1/2a e, segundo informações atualizadas em agosto de 2026, está ativo, mas não recrutando novos participantes no momento.

"É uma estratégia cientificamente muito interessante porque tenta agir em um mecanismo diretamente relacionado à doença. Mas é importante lembrar que uma boa hipótese biológica ainda precisa demonstrar benefício clínico. O fato de um medicamento reduzir um marcador ou atingir seu alvo não significa automaticamente que ele consiga prolongar a vida ou mudar a evolução da doença", explica o médico.

Outra frente de pesquisa utiliza tecnologia de siRNA

Outra estratégia em investigação utiliza pequenos RNAs de interferência, conhecidos como siRNA.

O estudo PRiSM (NCT07444580) avalia um siRNA direcionado à proteína priônica em adultos com doença priônica sintomática. Trata-se de um estudo de fase 1, aberto e de escalonamento de dose, com administração intratecal. O objetivo principal é avaliar segurança, tolerabilidade, farmacocinética e farmacodinâmica.

O estudo é patrocinado pelo Broad Institute of MIT and Harvard e, atualmente, aparece como recrutando participantes em centros nos Estados Unidos.

"ASO e siRNA utilizam mecanismos diferentes, mas partem de uma ideia semelhante: reduzir a produção da proteína priônica. São abordagens que representam uma fronteira importante da pesquisa em doenças priônicas. O que ainda precisamos descobrir é se essa redução será suficiente, segura e, principalmente, se produzirá um benefício clínico significativo para os pacientes", afirma Paulo Zattar.

Estar em um estudo não significa ter acesso a uma cura

A repercussão do caso de Lito também provocou mobilização nas redes sociais em busca de uma vaga em pesquisas experimentais. A própria farmacêutica responsável pelo ION717 informou que não está aceitando novos participantes no momento. Em comunicado, o Ministério da Saúde informou que está em contato com a família de Lito para auxiliar em possibilidades de inserção em estudos clínicos ao redor do mundo.

Para o geneticista, essa situação evidencia uma questão importante sobre como os ensaios clínicos funcionam.

"Um ensaio clínico não é simplesmente uma porta de entrada para um medicamento que já sabemos que funciona. O estudo existe justamente porque ainda precisamos responder perguntas fundamentais sobre segurança, dose, efeitos no organismo e eficácia. É uma etapa da pesquisa, não uma garantia de tratamento", explica.

Na fase 1, por exemplo, os pesquisadores concentram-se principalmente em questões de segurança, tolerabilidade e definição de dose. Estudos posteriores buscam reunir evidências mais robustas sobre eficácia e relação entre benefício e risco.

Além disso, mesmo quando um estudo está recrutando, isso não significa que todos os pacientes diagnosticados sejam elegíveis.

Critérios podem limitar a participação

Ensaios clínicos possuem critérios específicos de inclusão e exclusão. Podem ser avaliados fatores como idade, confirmação diagnóstica, estágio da doença, tempo desde o início dos sintomas, condições clínicas associadas, resultados de exames e capacidade de cumprir as visitas e procedimentos previstos.

No caso do PrProfile, entre os critérios descritos está a presença de doença priônica em estágio inicial no momento da triagem, além da disponibilidade para cumprir as exigências do protocolo e contar com um cuidador capaz de acompanhar o paciente durante o estudo.

"Em uma doença de evolução tão rápida, o tempo é uma questão extremamente sensível. Por isso, quando uma família considera um estudo experimental, é importante que converse diretamente com a equipe responsável pela pesquisa e com o médico que acompanha o paciente. Somente os pesquisadores podem determinar se aquela pessoa atende aos critérios do protocolo", orienta Paulo.

Esperança científica precisa caminhar com transparência

Para o especialista, a existência de pesquisas com ASO e siRNA representa, sim, uma perspectiva importante para o futuro das doenças priônicas.

Mas esperança e evidência científica não são sinônimos. "É legítimo ter esperança. A ciência avança justamente porque pesquisadores estão dispostos a testar novas hipóteses. Mas também faz parte da ciência reconhecer aquilo que ainda não sabemos. Hoje, essas terapias são experimentais. Ainda precisamos determinar se conseguem produzir um benefício clínico real e se os riscos são aceitáveis", afirma.

A recomendação, portanto, é que pacientes e familiares busquem informações diretamente com equipes médicas e centros de pesquisa, evitando interpretações de redes sociais que apresentem estudos iniciais como tratamentos comprovados.

"Informar uma família de que existe pesquisa é oferecer uma possibilidade real. Dizer que existe uma cura disponível e que ela está sendo negada é algo completamente diferente e pode gerar falsas expectativas em um momento de enorme fragilidade. Precisamos falar sobre esperança, mas sempre com responsabilidade, transparência e respeito à evidência científica", conclui o Dr. Paulo Zattar Ribeiro.

Revista Malu Revista Malu
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra