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Por que ficamos tão irritados quando estamos com fome? Ciência explica!

Estudo mostra que o mau humor da fome está ligado à percepção consciente do corpo - e não apenas à queda do açúcar no sangue

22 jan 2026 - 18h10
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Você se sente mais irritado quando está com fome? Acredite se quiser, mas essa não é uma experiência individual - e faz parte do dia a dia da maioria das pessoas. Isso sugere algo que a ciência começa a confirmar: o mau humor que surge quando ficamos muito tempo sem comer não acontece apenas por uma queda automática de energia no corpo. Ele passa, antes de tudo, pela forma como percebemos essa falta.

Entenda por que a fome muda o humor, o papel da interocepção na regulação emocional e o que a ciência revela sobre o assunto
Entenda por que a fome muda o humor, o papel da interocepção na regulação emocional e o que a ciência revela sobre o assunto
Foto: Reprodução: Canva/studioroman / Bons Fluidos

Durante muito tempo, acreditou-se que a irritação associada à fome fosse consequência direta da redução da glicose no sangue. Mas um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha, indica que o fator decisivo é outro: a percepção consciente da fome.

O que está por trás do famoso "hangry"

Em 2018, a palavra hangry - combinação de hungry (faminto) com angry (irritado) - foi oficialmente incorporada ao dicionário Oxford para descrever o estado de mau humor provocado pela fome. Embora o fenômeno seja amplamente reconhecido, ele ainda é pouco explorado pela ciência fora de contextos clínicos, como transtornos alimentares ou metabólicos.

Para entender melhor essa relação no dia a dia, os pesquisadores acompanharam 90 adultos saudáveis durante quatro semanas. Os participantes usaram sensores contínuos de glicose no braço, capazes de registrar variações energéticas ao longo do dia, e responderam regularmente a questionários sobre fome, saciedade e estado emocional.

Fome sentida, humor afetado

Os resultados chamaram atenção. A queda da glicose só se associou a piora do humor quando as pessoas relatavam sentir fome. Quando consideravam essa percepção, a ligação direta entre açúcar no sangue e emoção praticamente desaparecia.

Como resumem os autores do estudo, "não é o nível de glicose em si que melhora ou piora o humor, mas o quanto essa falta de energia é percebida conscientemente". Em outras palavras, o desconforto emocional nasce menos do que acontece no metabolismo e mais de como o corpo comunica essa carência à mente.

A importância de ouvir os sinais do corpo

Esse mecanismo está ligado a um conceito-chave da neurociência: a interocepção, que é a capacidade de perceber sinais internos do organismo, como fome, sede, respiração e batimentos cardíacos. Pessoas com maior sensibilidade interoceptiva tendem a identificar a queda de energia mais cedo - e, com isso, conseguem evitar oscilações bruscas de humor.

No estudo, participantes com maior precisão nessa percepção apresentaram mais estabilidade emocional, mesmo quando os níveis de glicose variavam. A consciência corporal funcionaria, portanto, como uma espécie de amortecedor emocional.

O cérebro, a fome e as emoções

No nível neurológico, a fome é detectada por neurônios localizados no hipotálamo, responsáveis por monitorar o equilíbrio energético do corpo. A sensação consciente dessa falta, porém, envolve a ínsula - região do cérebro ligada tanto à percepção corporal quanto às emoções. Quando essa comunicação interna falha ou é ignorada, o desconforto cresce e se traduz em irritação, impaciência e decisões impulsivas, como buscar alimentos rápidos e pouco nutritivos ou reagir de forma desproporcional a situações simples.

O que isso muda na prática?

Os pesquisadores destacam que reconhecer a fome antes que ela se intensifique pode ser uma estratégia simples para proteger o bem-estar emocional. Manter horários regulares para as refeições, fazer pausas e praticar atividades físicas são formas de refinar essa percepção interna.

Além disso, os resultados ajudam a ampliar o debate sobre saúde mental. Condições como depressão, obesidade e resistência à insulina frequentemente envolvem alterações metabólicas e emocionais. Entender como corpo e mente se comunicam pode abrir caminho para novas abordagens terapêuticas no futuro.

Uma lição simples, mas poderosa

O estudo não sugere que toda mudança de humor ocorra pela fome. Emoções são complexas e multifatoriais. Mas ele reforça algo essencial: ignorar os sinais básicos do corpo cobra um preço emocional. Talvez a principal lição seja esta: cuidar da alimentação não é apenas uma questão de energia física, mas também de equilíbrio emocional. Reconhecer a fome antes que ela se transforme em irritação pode ser um gesto simples (e profundamente regulador) para o dia a dia.

Bons Fluidos
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