Off Campus: Por que a série virou febre entre as mulheres adultas?
Off Campus, fenômeno da Prime Video, conquistou mulheres 35+ que encontram na série um refúgio emocional. Psicóloga e escritora explicam esse fenômeno.
Uma cena tem se repetido nas redes sociais: mulheres com cerca de 40 anos, casadas, mães e com rotina intensa de trabalho, compartilhando maratonas da série Off Campus, disponível na Amazon Prime Video.
A série, baseada nos livros da escritora canadense Elle Kennedy, se tornou um fenômeno. E o público que mais surpreendeu foi justamente o que ninguém esperava.
Em um dos vídeos que viralizaram, uma internauta escreveu: "Só uma mãe com 42 anos, casada, neste dia de frio, ignorando todas obrigações da vida de uma mulher adulta para assistir uma série de jovens". O post ressoou de forma imediata, e os comentários provaram que ela não estava sozinha.
O contraste que explica tudo
A identificação chama atenção justamente pelo contraste. Enquanto as personagens vivem romances intensos dentro da universidade, grande parte do público já está em uma fase completamente diferente da vida: conciliando carreira, filhos, casamento e cobranças diárias.
Para a psicóloga Thais Valéria dos Santos de Oliveira, esse fenômeno tem uma explicação emocional. "Essas histórias costumam retratar romances intensos, descobertas, idealizações e finais felizes que despertam emoções agradáveis e oferecem uma espécie de refúgio da realidade.
Muitas vezes, a fantasia proporciona experiências emocionais que parecem mais simples, previsíveis e satisfatórias do que os desafios encontrados nos relacionamentos reais", explica.
Segundo ela, as redes sociais amplificam esse cenário. A exposição constante a imagens de relacionamentos aparentemente perfeitos e famílias felizes pode gerar sentimentos de inadequação e a sensação de que algo está faltando, o que torna o escapismo da ficção ainda mais atraente.
"Um espaço de leveza"
A escritora paulista Vivian Guilherme, de 42 anos, reconhece o fenômeno de perto. Autora de Quarentamos, romance que acompanha quatro mulheres de 40 anos enfrentando questões amorosas, profissionais e existenciais, ela enxerga no sucesso de Off Campus um reflexo do cansaço emocional da sua geração.
"Existe um cansaço emocional muito grande nas mulheres da minha geração. Nós trabalhamos, cuidamos da casa, dos filhos, enfrentamos cobranças o tempo todo. Quando pegamos um romance universitário para ler, encontramos um espaço de leveza e personagens que ainda acreditam no amor sem tantas barreiras", afirma.
Para Vivian, o fenômeno também tem um componente de memória afetiva. "Os vinte e poucos anos representam, para muitas mulheres, uma fase de descobertas, liberdade e esperança. Revisitar isso pela ficção desperta memórias afetivas muito fortes. Não é sobre querer voltar no tempo, mas sobre reencontrar sentimentos que ficaram soterrados pela rotina adulta", diz a autora.
Sem vergonha de suspirar
Outro ponto levantado por Vivian é o fim de um preconceito antigo sobre o consumo cultural feminino. Durante muito tempo, esperava-se que mulheres maduras consumissem apenas histórias densas ou intelectuais, e o romance era visto como entretenimento menor.
"Essas leitoras não têm vergonha de dizer que querem suspirar, se divertir e sentir frio na barriga novamente", afirma a escritora.
A psicóloga reforça que esse movimento pode ser saudável quando vivido de forma equilibrada. Para ela, "valorizar a realidade sem perder a capacidade de sonhar" é um dos caminhos para construir relações mais saudáveis consigo mesma e com os outros.
Maratonar Off Campus não é escapismo sem propósito. É, para muitas, uma forma legítima de respirar, sentir e lembrar que o frio na barriga ainda existe. Mesmo com filhos, obrigações e tudo mais.
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