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Antidepressivos ISRS são "prescritos de forma descuidada"

31 mai 2026 - 13h36
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Inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como Prozac e Zoloft, estão entre os medicamentos psiquiátricos mais usados do mundo, e alguns especialistas sugerem que eles são prescritos em excesso.Os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) estão entre os antidepressivos mais prescritos no mundo. Medicamentos como Prozac, Zoloft e Lexapro são usados para tratar depressãoe transtornos de ansiedade em milhões de pessoas.

Os ISRS elevam os níveis de serotonina, um dos assim chamados hormônios da felicidade, no corpo
Os ISRS elevam os níveis de serotonina, um dos assim chamados hormônios da felicidade, no corpo
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas alguns especialistas veem exagero no uso deles. "Oitenta por cento dos antidepressivos nos EUA são prescritos de forma descuidada por clínicos gerais apressados, como uma forma fácil de atender pacientes em 15 minutos", diz o professor emérito de psiquiatria Allen Frances, da Universidade Duke, nos EUA.

"Não existe uma pílula para cada problema psicológico e social", afirma.

O que fazem os ISRS?

Como o próprio nome sugere, os ISRS inibem, ou bloqueiam, a recaptação ou absorção da serotonina. Essa inibição aumenta os níveis dela no organismo. Quando os níveis de serotonina estão baixos, isso pode prejudicar o bem-estar emocional de uma pessoa.

A serotonina é um neurotransmissor, um mensageiro químico que transmite sinais entre as células nervosas por todo o corpo.

Ela é um dos quatro assim chamados hormônios da felicidade, sendo o mais associado à estabilidade do humor. Regula a ansiedade e os ciclos de sono, além de criar uma sensação geral de bem-estar.

"A serotonina é uma substância química que as células cerebrais usam para se comunicar. É particularmente importante para as emoções", diz o professor de psiquiatria biológica Carmine Pariante, do King's College de Londres.

Assim, manter níveis saudáveis de serotonina é considerado essencial para prevenir ou controlar a depressão.

"Sabemos que, na depressão, quando se usa os ISRS, aumenta-se a quantidade de serotonina disponível para a comunicação entre as células. E esse é o primeiro passo", explica Pariante. "A pessoa começa a reavaliar o mundo ao seu redor, tornando-se menos negativa em relação a ele", diz.

Os antidepressivos são prescritos em excesso?

Mas alguns especialistas afirmam que a depressão envolve mais fatores do que apenas um desequilíbrio químico (os baixos níveis de serotonina) no cérebro.

A professora de Psiquiatria Crítica e Social Joanna Moncrieff, do University College London, há muito argumenta que os ISRS são prescritos em excesso. "A psiquiatria fez as pessoas acreditarem que a depressão era causada por uma deficiência de serotonina e que os antidepressivos revertiam isso, embora isso nunca tenha sido comprovado", diz.

"Nunca houve evidências fortes, mas alguns resultados aqui e ali, nunca um quadro consistente", afirma. Moncrieff acrescenta que a eficácia aparente pode, na verdade, ser resultado de um efeito placebo (que ocorre quando o simples ato de tomar um medicamento leva a pessoa a acreditar que ele está ajudando, apesar de não estar tendo efeito algum).

A maioria dos psiquiatras e organizações como a Associação Americana de Psiquiatria rejeitam a ideia de que os ISRS funcionam principalmente como placebo. "Há evidências esmagadoras de que os antidepressivos são eficazes para reduzir os sintomas depressivos e, em particular, os principais sintomas da depressão", diz Pariante, apesar de ele reconhecer que a serotonina é apenas um dos fatores envolvidos.

Quando usar os ISRS

Pariante diz que os ISRS devem ser prescritos apenas para pessoas com depressão clínica, ou seja, uma "constelação de sintomas" que vai além da tristeza comum. "Deve haver um impacto na vida que vá além de apenas se sentir triste por alguns dias ou algumas semanas por causa de algo que aconteceu", diz.

"A vida da pessoa precisa estar sofrendo ou se deteriorando devido à depressão", afirma.

"Por exemplo, ela não consegue voltar ao trabalho, ou os relacionamentos familiares começam a se deteriorar por causa da depressão."

Os ISRS nem sempre ajudam

Os ISRS nem sempre funcionam, nem funcionam imediatamente, nem funcionam em todos os casos. Isso depende do paciente, e é muito importante buscar o melhor acompanhamento médico possível.

Em cerca de um terço dos casos, o primeiro ISRS testado não ajuda. Tentar um segundo tipo pode trazer resultados, mas em 70% ou até 80% dos casos eles são ineficazes.

"Atualmente, não há como prever quem responderá ou não aos antidepressivos, aos ISRS em particular, ou a um ISRS específico. Eles não funcionam para todos. Existe um espectro de respostas. É um processo de tentativa e erro, mas ainda é a melhor opção que temos até encontrarmos uma forma de personalizar o tratamento", diz Pariante.

Um consenso: minimizar o uso dos ISRS

Moncrieff afirma que os riscos e efeitos colaterais dos ISRS são frequentemente subestimados. "São medicamentos que interferem na química do cérebro e em outros sistemas biológicos", afirma.

Segundo ela, os efeitos colaterais podem incluir disfunção sexual, dependência, osteoporose, ganho de peso, sangramentos e complicações na gravidez. "Devemos realmente minimizar seu uso o máximo possível", afirma.

Os ISRS também podem reduzir as respostas emocionais de forma geral, causando uma espécie de anestesia emocional, o que algumas pessoas consideram útil. Mas muitas não gostam disso, observa Moncrieff.

Pariante concorda que o uso dos ISRS deve ser limitado: quando funcionam, não devem ser utilizados indefinidamente. "Num cenário ideal, para o primeiro episódio de depressão, inicia-se o tratamento com antidepressivo, e a pessoa pode começar a se sentir melhor após seis ou oito semanas", diz Pariante.

"Seis meses, nove meses, no máximo um ano depois, o antidepressivo deve ser gradualmente reduzido até ser interrompido. Uma pessoa não precisa tomar antidepressivos por toda a vida só porque teve um episódio de depressão."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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